O prefeito, o goleiro e a carne: histórias do capitalismo.

Ensaiei por semanas escrever esse texto, mas uma combinação de falta de tempo e falta de ânimo me impeliram a adiá-lo. E nesse meio tempo, acumulei elementos sem fim para escrevê-lo. Vou tentar resumir, mas não vai ser uma tarefa muito fácil.

Há alguns dias, (mais) um escândalo irrompeu no Brasil, relacionado à produção de carne. Os brasileiros entraram em choque, ao saber que comiam carne contaminada, podre e até papelão misturado aos embutidos, e que quase todas as principais distribuidoras de produtos alimentícios estavam de alguma forma relacionadas ao crime.

Não é de hoje, porém, que indústrias ligadas ao setor do agronegócio se valem de meios criminosos para fazer mais lucro. São sabidas, públicas, as denúncias de outros tipos de crimes, como apontou o Sakamoto em seu blog:

É interessante que não é de hoje que frigoríficos são acusados de estarem ligados, direta ou indiretamente, a graves problemas sociais, ambientais e trabalhistas. Casos de trabalho escravo (comprando animais de fazendas que utilizaram-se desse tipo de mão de obra), de superexploração de trabalho (quando os próprios frigoríficos incapacitam seus operários por lesões causadas no serviço), de desmatamento ilegal (adquirindo bois oriundos de propriedades flagradas com crimes ambientais), de violência contra populações tradicionais (lideranças indígenas sendo violentadas ou mortas por fornecedores de gado em Estados como o Mato Grosso do Sul). Ou mesmo graves e preocupantes casos de animais maltratados e torturados à revelia do que prevê a legislação.

 

Emerson Loureiro, Joesley Batista e Alberto Matone, da JBS, em 2011. Na matéria de onde tirei a imagem, menciona-se a acusação contra a JBS por financiar caixa 2 na campanha de Dilma à presidência.

Acho que não há ponto mais apropriado para iniciar uma conversa sobre a crise no capital que esse. Pois, como dissociar a decisão de manipular produtos para reduzir seus custos, usar notas falsas, pagar propina a agentes de fiscalização dentre outros crimes, com a ganância movida pelo acúmulo de capital? Acostumamo-nos a pensar na corrupção apenas a partir da ótica dos agentes estatais, discurso que fomentou a ideia de que o estado é essencialmente corrupto e alimentou a defesa de uma participação maior do mercado na política. Ignora-se, claro, que é pela ingerência do mercado na política que temos a crise que vivemos atualmente, e não por uma endêmica corrupção estatal. Muitos setores que dependem da bonança do mercado querem fazer-nos crer que o problema do Brasil é apenas fruto de sua classe política essencialmente corrupta e de um sistema estatal viciado, mas fazem vista grossa, claro, para a corrupção como fruto da promiscuidade das relações entre estado e mercado.

E aí entra a figura alegórica de João Doria Jr.

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Capa da Forbes, destacando o prefeito Doria como CEO de São Paulo.

Alçado por setores da direita nacional ao posto de político exemplar – por não ser político, mas “gestor” – e agora até aventado como possível candidato à presidência, Doria é símbolo do discurso anti-estado. Lobista, seu início de governo como prefeito da cidade de São Paulo é pródigo em apresentar peças de marketing extremamente questionáveis, mas eficazes, como o já anedótico Cidade Linda. Sua ações são sempre acompanhadas de muitas câmeras, coisa a qual ele é afeito desde sempre, como frequentador assíduo de colunas sociais e apresentador do programa Show Business, mais uma plataforma dos seus negócios. Que são muitos, e de certo modo é o que joga uma sombra sobre a sua administração.

Mas porque tanta gente admira João Dória?

Primeiramente, pelo que já comentei, o fato de que nossa política está tão desacreditada – e com razão – e os escândalos de corrupção se avolumam de modo tão impressionante, que as pessoas buscam seus salvadores fora do sistema político. E isso é cultural, do Brasil, a busca por salvadores da pátria. Não houve no país uma construção de uma educação política que realmente faça o brasileiro enxergar além da necessidade de um grande líder carismático como única solução para os problemas do país – mal quem não é exclusivo do brasileiro, como a eleição de Donald Trump pode comprovar. Lula foi esse líder até o momento que o PT foi posto na berlinda pelos seus erros. Dilma, dentre outros problemas, não conseguiu justamente se tornar essa líder, e seu substituto já entrou com a pecha de golpista e, com zero carisma, depende de manipulações políticas, da benevolência da mídia e da imagem da bela (recatada e do lar) esposa para se impor – e falha, miseravelmente nisso. E, neste quadro, surgem mais uma vez os nomes de figuras cuja principal característica é a personalidade forte e a capacidade de arregimentar massas em torno de si: Lula (de novo) e o fascista Jair Bolsonaro. Por fora, Ciro Gomes e, agora, Doria. Aqui temos, independente de claríssimas diferenças entre eles, a imagem ideal do marketing que se sobrepõe à competência política e a capacidade de real de comandar o país para fora de uma crise. E o nome de Doria se soma a esses por conta disso, do marketing que ele sabe muito bem fazer, e pelo apoio massivo da parcela que mais investiu na queda do governo petista: o empresariado brasileiro.

Já falei aqui que acho que o empresariado brasileiro é burro. Mas, antes de tudo, eles têm historicamente dependido do estado para sobreviver, mesmo que discursem contra o mesmo estado. A Odebrecht, tão associada agora aos governos petistas, faz parte de esquemas políticos ao menos desde a ditadura. Da mesma forma, relações entre o público e o privado proliferam hoje, a despeito de essa relação ser o fundamento de nossa crise institucional. A Lava-jato, tão falada e malfadada operação, não é sobre o PT ou sobre o PSDB, ou sobre o PMDB… ela é sobre empresas privadas interferindo no funcionamento do Estado. É sobre financiamento de campanha, é sobre corrupção política por parte do mercado. O problema da lava-jato não está apenas no público, mas no privado, em um modelo gestor FUNDAMENTADO em corrupção de órgãos públicos.

A crise se origina da necessidade de entregar-se à corrupção para competir, no capitalismo selvagem, em pé de igualdade. A competição capitalista EXIGE que exista corrupção, exige que o agente privado “dê um jeitinho” para diminuir gastos e aumentar lucros. Seja colocar papelão no meio de embutidos, seja vender uma área pública que não dá prejuízo, o objetivo é sempre estimular a competição, diminuir gastos e aumentar lucros. É esse o fundamento do discurso de Doria como prefeito (e de tantos outros),e as parcerias público-privadas, tidas como solução pontual à nossa crise nas cidade, não passam de uma forma de desonerar o público de sua função e dar a ilusão de eficiência que a gestão privada carrega. Assim, independente de as relações entre todas essas pessoas e empresas serem públicas e conhecidas, o povo não vai estabelecer qualquer relação entre Doria e a carne podre.

Agora vejam: o Estado de São Paulo publicou a seguinte notícia em 10 de março: Doria anuncia parceiro para viveiro do Ibirapuera antes de seleção pública. Abaixo da chamada, lê-se “Prefeito diz que empresa do grupo JBS investirá R$ 6 milhões na reforma do viveiro Manequinho Lopes, mas chamamento público ainda será aberto”.

PERAÍ! JBS?

Sim, uma das empresas envolvidas no escândalo das carnes é aliada de João Doria Jr. na reforma de uma área do Parque do Ibirapuera. E mais: a matéria diz que o prefeito “pulou etapas burocráticas como a abertura de processo de chamamento público” para entregar à Flora, empresa do grupo JBS, a reforma. Em um investimento de 6 milhões de reais. Que, claro, são pura “benevolência” da empresa.

Mais interessante ainda é que na matéria, que é anterior à revelação do escândalo das carnes, menciona-se MAIS UM caso de investigação da JBS: “O grupo JBS está no centro de uma série de investigações da Polícia Federal, deflagradas pela operação Greenfield, que apura fraudes e desvio de R$ 8 bilhões de fundos de pensão”. Ou seja, nem dá para o Doria dizer, numa possível quebra do acordo com a JBS, que ele não sabia do envolvimento da empresa com algum tipo de crime.

Estão envolvidas ainda, nessa reforma, Cyrela e Ambev. A primeira, construtora de imóveis de luxo, doou R$ 100 mil para as campanhas de quatro candidatos à prefeitura de São Paulo:  Fernando Haddad (PT), Celso Russomanno (PRB), Marta Suplicy (PMDB) e o próprio João Doria. Fica claro, pela lista, que o objetivo da empresa nada tem a ver com apoio a algum projeto para o povo de São Paulo, ou confiança em um projeto político específico. A ideia era fazer um investimento, e seja qual fosse o prefeito eleito – eram, como se vê, as quatro lideranças na eleição – a empresa iria cobrar. Claro que facilita a vida da empresa ter um gestor à frente da prefeitura, uma pessoa que trabalha no setor, é lobista e sabe muito bem como fazer funcionar esse tipo de acordo.

Por isso é difícil crer em Doria, quando diz que a Cyrela “aceitou fazer toda a reforma, custo zero, nenhuma contrapartida, a recuperação de todos os banheiros”. Como acreditar que uma empresa que teve uma queda de 90% nos lucros no terceiro trimestre de 2016 faça, sem nenhuma contrapartida, um investimento na campanha de quatro candidatos à prefeitura e na reforma de todos os banheiros de um parque? Não estou implicando que Doria age em favor de empresas amigas, como lobista, para auxiliá-las – e, claro, lucrar ele mesmo com essas associações. Pode ser que o prefeito, mesmo sendo um grande nome do setor de gestão empresarial, esteja apenas crendo que as empresas decidiram apoiá-lo pelo que ele é – não o fariam, por exemplo, com um candidato de um partido mais à esquerda, que contrariasse seus interesses. Pode ser apenas, para ele, uma relação de coleguismo, de iguais trabalhando lado a lado.

E podemos acreditar em coelho da Páscoa.

Goleiro Bruno sendo apresentado pelo time do Boa Esporte de Varginha (MG)

Quer exemplo maior de imoralidade do capitalismo que o caso do goleiro Bruno? Assim que a justiça fez a palhaçada de liberá-lo – consequência de uma série de palhaçadas comuns à nossa justiça -, surgiram interessados em contar com o nome do ex-goleiro em seu plantel. Como pode, questionaram alguns, uma empresa investir em um assassino, que é acusado de esquartejar e dar como alimento a cães a mãe de seu filho? Pode, pois o sistema capitalista não é moral. O nome de Bruno gera marketing, positivo ou negativo, tanto faz. O importante é o nome do clube/empresa estar na mídia. O marketing é a alma do capitalismo e, não se engane, ele não tem moral. A moral do marketing é dar visibilidade ao produto, seja como for. Claro, a iniciativa deu com os burros n’água, mas muito mais porque vivemos em uma época em que a voz das redes faz valer alguma pressão que por “boa vontade ” das empresas que decidiram não patrocinar a contratação. Elas não pensaram no assassino, mas sim em como seu nome seria relacionado ao assassino e, claro, no medo de boicote de sua marca.

Boicote que viveu, por exemplo, o Habib’s, quando seguranças da rede de fast food mataram um menino de modo brutal. A empresa foi boicotada quando se manifestou em apoio aos funcionários, duvidando da versão da mãe, e depois foi desmentida por vídeos que comprovaram o ato nefasto. O nome da empresa agora estará eternamente associado ao assassinato de uma criança. Ao menos até a empresa achar alguma saída, pelo marketing, para limpar sua imagem.

Empresas diversas dos meios de cosméticos, por exemplo, vêm investindo em marketing inclusivo, voltado à diversidade, com a presença de trans e negros. É uma forma de ganhar uma importante parcela da população que, ainda bem, cada vez vem dando mais apoio às causas LGBT e negras, mesmo que sejam algumas das grandes responsáveis por crimes ambientais no país.

(Ah, a Flora, da JBS, que mencionei lá em cima, é também uma empresa de cosméticos. Uma empresa de cosméticos parte de um grupo que produz carne. Interessante, não?)

Porém, em uma época em que ânimos políticos se acirram, e discursos fascistas voltam à baila, muitas vezes o marketing será ainda mais amoral – e, até, imoral. Como foi o caso da Allezzia, empresa de móveis desconhecida que se aproveitou de uma acusação de machismo em uma propaganda para angariar seguidores nos meios mais conservadores. Ganhou mídia e cresceu. E, recentemente, contratou um estagiário demitido de uma construtora do Paraná por este ter feito um post machista em redes sociais. A marca decidiu assumir uma postura política e, com certeza, está ganhando dinheiro com isso. E foda-se a ética: o capitalismo é ganhar dinheiro, nada mais.

Aliás, ao mesmo tempo que falamos de crimes cometidos no seio do poder, rola no congresso a malfadada reforma do sistema previdenciário. Alvo de ataques de todos os lados, essa reforma é vendida como a salvação do país da crise. Será mesmo? Não sei, mas achei curioso que, no dia seguinte às manifestações contra a reforma, havia no meu local de trabalho uma representante de um plano de previdência particular oferecendo serviços. Não acho que seja um caso isolado: é, mais uma vez, o público precarizando o sistema para que o privado se aproveite dele.

Sabe quem permite esse tipo de ligações entre políticos e empresários? Lobistas, como João Doria.

Nota do MBL sobre o apoio a uma possível candidatura de Doria à presidência.

O que tudo isso nos diz sobre o momento que vivemos? Que gente como Doria, mesmo que faça seu marketing de “trabalhador” e pareça, aos olhos de alguns, uma opção diversa do que está aí, é farinha do mesmo saco da onde saíram todos os nossos criminosos de colarinho branco. O país vive a crise que vive por causa de gente como ele, que se disfarça de trabalhador mas não passa de outro capitalista interessado em lucrar às custas do povo. Agora alçado pelo MBL como possível opção à presidência, Doria é símbolo de boa gestão apenas por ser empresário e, nesse sentido, ser representante da “anti-política”. Mas, como alguém pode ser considerado bom gestor, com apenas alguns meses de mandato? Propaganda, meus caros, propaganda.

Para encerrar, menciono o que ouvi no ônibus, indo para o trabalho. Dois senhores conversavam e um deles, que dizia ter trabalhado com carnes, absolvendo seus ex-empregadores, afirmou “todo mundo que quer ganhar dinheiro tem que dar um jeitinho, né?”.

O “jeitinho” é escravizar pessoas. É tratar animais com métodos cruéis. É vender carne podre. É enfiar papelão no hambúrguer que seu filho come. É desmatar florestas. É matar povos indígenas. É sonegar impostos. É contratar assassinos e machistas.

Isso não é problema exclusivo de cinco seis empresas. É problema estrutural do capitalismo.

 

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