Meryl Streep e Gerald Thomas: os dois lados da arte dramática

Vendo como se posicionou com candura e ao mesmo tempo firmeza a grande Meryl Streep, em seu discurso pelo recebimento do premio Cecil B. DeMile no Globo de Ouro, fiquei pensando sobre uma entrevista que vi, esses dias, do idiota convicto chamado Gerald Thomas, pelo lançamento de sua autobiografia. Não entendam mal, eu não sei julgar a qualidade do que ele faz pois – para o choque de muitos amigos – nem curto teatro. Nunca fui fã, na verdade, sempre achei o cinema muito mais interessante.
Tenho uma passagem pelas “artes dramáticas” por ter feito parte de um maravilhoso grupo de leituras dramatizadas na faculdade – e admito que adorava fazer isso, apesar de meu interesse maior ser a parte técnica e pela diversão de estar com amigos queridos (apesar de ter, revelação, uma peça escrita por mim, engavetada para sempre porque provavelmente é muito ruim). Nesse grupo, encenava peças mais com objetivo didático que artístico, então isso também se qualificava como atribuição positiva, dado que sou professor. E, durante muito tempo, me senti meio que “coagido” a gostar de arte dramática, por fazer parte de um curso de Letras, no qual existem algumas regras tácitas (gostar de teatro, de Machado de Assis, Chico Buarque e abominar Paulo Coelho são algumas delas). Eu gosto de ler peças, no entanto. Ainda são muito importantes para mim não as peças dos clássicos gregos, especialmente Eurípides, mas Shakespeare, os autos de Gil Vicente e os absurdos de Qorpo Santo e Alfred Jarry, gênios incontestes. Mas não gosto de vê-las encenadas. Aliás, num geral, eu admito que tenho um tremendo mal gosto. Enfim, tenho muito pouca paciência para ficar acompanhando peças de teatro. E, sinceramente, há uma questão de status social em se dizer fã de teatro, pagando de intelectual, pois o teatro é muitas vezes considerada uma arte “superior” ao cinema e a televisão por gente que não entende nada de nenhum dos dois. Tenho meus motivos para defender o contrário, e não os explicarei aqui (quem sabe, um dia, eu tenha a oportunidade de publicar um livro explicando tudo de tosco sobre mim e minhas opiniões dispensáveis, como Thomas parece ter feito).
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A capa do livro de Gerald Thomas. Fonte: G1.
Porém, creio que Thomas é alguém relevante para a arte que faz, visto que o próprio Beckett confiava em seu talento e o escalou pessoalmente para encenar algumas de suas peças. No entanto, ele é um renomado babaca, que sabe que chama a atenção e se vale de polêmicas para fazer valer a arte que produz. E arrogante. Nessa entrevista, ele responde a várias perguntas de forma extremamente grosseira, com frases como ” Vocês não se cansam de me perguntar isso?”, “Não entenderam ainda que eu darei sempre a mesma resposta?”, “Não. Não falo. Estou falando disso desde 1984. Entra no Google ou descreva você”. O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi quando ele afirma “Eu não vou responder tamanha besteira que ocupou minha vida por menos de três segundos” ao ser perguntado sobre polêmicas como o assédio, em 2013, à modelo Nicole Bahls, em evento público, quando tentou colocar a mão embaixo de sua saia e tocar a vagina dela. Esse evento não é um caso isolado, mas se tornou mais público pelo alvo ser uma figura famosa popularmente conhecida por fazer parte do programa Pânico na TV.
Thomas faz parte de uma estirpe deplorável de artistas que passa 24h por dia (ou ao menos as horas em que está exposto ao público) encenando. Tudo que puder fazer na agenda do “polêmico”, ele vai fazer, protegido pela aura de artista experimental, ousado, quebrador de barreiras. Leva às últimas consequências o adágio pessoano, de ser um “fingidor”, assumindo uma persona pública que é o clichê do intelectual que “sabe que é gênio”, em uma persona pública das mais deploráveis. E nisso, como artista, é uma figura desprezível, que não deveria merecer metade do respeito que tem.

Não acredito piamente na separação entre obra e vida, apesar de achar que é necessário certo distanciamento na abordagem da produção artística. Acho que há um gigantesco equívoco nessa proposição, que se confunde com vista grossa, quando se aborda as atitudes de artistas separadamente de sua obra. Temos o caso recente de Bernardo Bertolucci, admitindo que submeteu Maria Schneider à uma cena sexual não consentida, mas podemos ir longe em casos como os de Roman Polanski, Woody Allen e tantos outros. Aliás, diretores, talvez por terem um poder ditatorial sobre “corpos” e “discursos”, parecem ser pessoas afeitas a submeter outras á violência. Fetichismo talvez, mas algo a ser pensado e debatido.

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Thomas, no seu facebook, parabenizando Meryl Streep.

Porém, a meu ver, a arte dramática é diferente das outras artes, nesse sentido. Um artista como Kanye West, que eu adoro, mas é um verdadeiro babaca, não precisa ser julgado a partir de suas posturas para que sua obra musical se faça presente com a importância que tem (apesar de fazer, sim, diferença, especialmente quando ele age como um idiota também nas letras de suas composições). Mesma coisa digo do brasileiro Lobão, outro que considero muito melhor do que as pessoas pensam, mas que é um verdadeiro cretino. Pela natureza do que fazem, eu creio atores e diretores não são como cantores, escritores ou escultores: sua arte está nos seus próprios corpos, olhares, movimentos, discursos, está em como a sua performance dialoga sua existência real com a do personagem. É algo que dialoga de forma tão mais intensa com a vida que não dá pra deixar de lado o que a persona pública representa em relação à sua arte. Nossos personagens existem pelos rostos dos atores. E isso ganha dimensão maior quando o artista opta por fazer de sua própria convivência com as pessoas uma obra de arte, como parece ser o caso de Thomas que, em uma resposta elíptica típica de quem não tem nada a dizer mas quer posar de grande intelectual, disse sobre si mesmo:

Você já declarou que só poderia escrever uma autobiografia do ponto de vista do palco. Isso significa que o Gerald Thomas de suas memórias é um personagem?
GERALD THOMAS: Sim, os dois se confundem. Não sei até que ponto sou real. E digo isso com um misto de tristeza e constatação. Quando me olho no espelho, quero transcendê-lo, mas não consigo. Quebrá-lo também não.
O outro lado dessa equação é Meryl Streep. Em sua fala, ela foi a consciência de que ser alguém ligado à arte dramática é algo maior e mais político que em boa parte das outras artes. Ao ser introduzida para entrega do prêmio ontem, Meryl Streep ouviu de Viola Davis, uma descrição do impacto que ela representa como atriz para outras de sua profissão:
Sua arte nos lembra do impacto do que significa ser um artista. Você me faz sentir orgulho de ser artista. Você faz com que eu sinta que o que eu tenho em mim, meu corpo, meu rosto, minha idade, é suficiente.

O corpo, o rosto: os instrumentos de um ator no palco são seu próprio ser. E, no palco da vida, como a própria Meryl destaca, “O desrespeito convida o desrespeito, a violência incita a violência”. O ofício do ator serviu de ponte para ela tecer uma crítica fantástica ao que ela chama de uma ‘interpretação chocante’: ela estava falando de Donald Trump, mas poderia estar falando de qualquer pessoa que detém poder sobre as massas, pois, em suas palavras “quando os poderosos usam sua posição para intimidar os outros, todos nós perdemos”. Posto que o que Thomas fez com Bahls (e com o entrevistador, e com todos com quem foi babaca) foi parte de sua persona, de sua constante atuação diária, ele também estava atuando. E, assim como Trump, convidando todos a tocarem mulheres indevidamente, pois. Como respeitar Thomas e atacar Trump? Como aceitar, em pleno século XXI, alguém que diz com todas as letras, sobre o teatro atual, que “não assisto, não vou e não vejo”? Então não faça, também!
Trump não demorou a responder, com sua infantilidade característica, a crítica recebida:

trump

Trump, como todo bom moleque, respondeu no Twiter: “Meryl Streep, uma das atrizes mais superestimadas de Hollywood, não me conhece, mas me atacou ontem no Globo de Ouro. Ela é uma serva de Hillary, que perdeu muito. Pela centésima vez, eu nunca ridicularizei um repórter deficiente, nunca faria isso. Simplesmente o mostrei ‘rastejante’ quando mudou completamente uma reportagem de 16 anos atrás para me prejudicar”.
Não vejo diferença nenhuma entre Thomas e Trump, entre Thomas e qualquer babaca que faz estripulias para aparecer, que abusa de mulheres, que faz de sua imagem pública apenas polêmica fajuta. Qualquer um faz isso, basta ser canalha. Agora, fazer o Meryl fez e faz, não é pra qualquer uma. Em tempos de Bolsomito, em que pessoas públicas festejam massacres e outras defendem assassinos de mulheres, eu repudio Gerald ‘Trump’ Thomas e o lixo que chama de arte, e fico com as palavras da grande atriz norte-americana, como compiladas pelo DCM:

Obrigada, Hollywood Foreign Press [Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood]. Só lembrando o que o Hugh Laurie já disse. Vocês e todos nós nessa sala, realmente, pertencemos ao segmento mais difamado da sociedade americana agora. Pensem. Hollywood, estrangeiros, e a imprensa. Mas quem somos nós? E o que é Hollywood mesmo? É só um monte de gente de outros lugares.

Eu nasci e foi criada nas escolas públicas de Nova Jersey. Viola [Davis] nasceu em uma cabana de agricultores na Carolina do Sul, e cresceu em Central Falls, Long Island. Sarah Paulson foi criada na Flórida por uma mãe solteira no Brooklyn. Sarah Jessica Parker era uma de sete ou oito crianças de Ohio. Amy Adams nasceu na Itália. Natalie Portman nasceu em Jerusalém. Cadê o certificado de nascimento delas? E a maravilhosa Ruth Negga nasceu na Etiópia, foi criada em — não, na Irlanda, acredito eu. E ela está aqui sendo indicada por interpretar uma garota de uma cidade pequena da Virginia. Ryan Gosling, como todas as pessoas mais bacanas, é canadense. E Dev Patel nasceu no Quênia, foi criado em Londres e está aqui por interpretar um indiano criado na Tasmânia.

Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros. Se você expulsá-los, não sobrará nada para assistir a não ser futebol americano e diversas artes marciais, que não são as Artes. Eles me deram três segundos para falar isso. O único trabalho de um ator é entrar nas vidas das pessoas que são diferentes de nós e deixá-las sentir como isso parece. E houve tantas tantas tantas performances poderosas no último ano que fizeram exatamente esse trabalho tão passional e de tirar o fôlego.

Houve uma performance esse ano que me deixou atordoada. Não porque era boa. Não teve nada de bom nela. Mas porque foi efetiva e cumpriu com seu papel. Fez a sua audiência rir e mostrar os dentes. Foi o momento no qual uma pessoa que pedia para sentar na cadeira mais respeitada de nosso país imitou um repórter deficiente, alguém que era menos privilegiado com menos poder e com menos capacidade de responder à altura. E meio que quebrou meu coração quando eu a vi. Eu ainda não consigo tirá-la da minha cabeça porque não estava em um filme. Foi a vida real.

E esse instinto de humilhar, quando é feito por alguém em uma plataforma pública, por alguém poderoso, impacta negativamente na vida de todo mundo, porque ele dá permissão para que outras pessoas ajam igual. Desrespeito convida desrespeito. Violência incita violência. Quando as pessoas poderosas usam sua posição para intimidar alguém, todos nós perdemos.

E isso me traz à imprensa. Nós precisamos que a imprensa com princípios mantenha esse poder em conta, que ela denuncie os poderosos por cada um desses ultrajes. É por isso que nossos fundadores consagraram a imprensa e suas liberdades em nossa Constituição. Então eu apenas peço aos famosamente bem endinheirados da Hollywood Foreign Press e a todos de nossa comunidade a se juntarem a mim em apoio ao comitê de proteção aos jornalistas. Porque nós precisaremos deles para progredirmos. E eles precisarão de nós para falarem a verdade.

Só mais uma coisa. Uma vez, quando eu estava em um set um dia, reclamando de algo, que nós teríamos que trabalhar na hora de jantar, ou por causa das longas horas de trabalho, não me lembro, Tommy Lee Jones me disse: ‘não é um privilégio, Meryl, ser apenas um ator’. E sim, é. E nós temos que nos lembrar todos os dias do nosso privilégio e da responsabilidade de agirmos com empatia. Nós todos deveríamos ter muito orgulho do trabalho que a Hollywood honra aqui essa noite.

Como a minha amiga, a querida falecida Princesa Leia, me disse uma vez, ‘pegue o seu coração partido e o transforme em arte’. Obrigada”.

babandi1
Obrigado a você, Meryl. ❤
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