Manaus, Campinas e a tragédia do “mínimo de Estado”

Um ano novo começa, e com ele já vemos novas tragédias. Novas, ao menos, como eventos, mas antigas em sua configuração. É necessário refletir bem claramente sobre o que aconteceu em Manaus e em Campinas, além da barbárie humanitária em si, para compreender como chegamos a esse ponto.

Imagem: “A nova relação entre trabalhadores e empregadores”. Caricatura de 1896 que critica as más condições de trabalho nas empresas suíças à época. Fonte: Wikimedia.

Ambas as ocorrências trazem à tona, mais uma vez, o risco do discurso da direita brasileira atual, que na sua sanha de atacar violentamente a esquerda, construindo um espantalho fundamentado na lógica da Guerra-Fria, defende ao mesmo tempo um sistema pesadamente neoliberal e, por outro lado, uma sociedade baseada nos piores valores conservadores, fundamentando a mais pura barbárie. De um lado, no caso do massacre no presídio manauara, temos os perigos das chamadas PPPs, parcerias público-privadas, tão alardeadas por vários políticos como a solução para vários problemas de clara incompetência do Estado – e, por isso, plataforma comum para vários candidatos às prefeituras no ano passado. De outro, aliada à barbárie, a plataforma tradicional dos candidatos mais conservadores brasileiros, a saber, a imagem do “homem de bem” como fundamento moral supostamente destroçado pelo discurso da esquerda. Hoje, o discurso da maioria dos proponentes a cargos eletivos que se identificam como conservadores é uma aliança entre um neoliberalismo caricato, que serve apenas como contraponto a uma suposta doutrinação marxista, e valores tradicionalistas herdados de uma visão religiosa conservadora, centrada numa ideia heteronormativa, misógina e patriarcal de família, e na premissa de que os valores morais individuais seriam algo superior – e substitutivo – às diretrizes de um estado democrático centrado nos direitos humanos da coletividade. Vamos a cada uma delas, com calma (sim, o texto é enorme).

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Complexo Penitenciário Anísio Jobim. Fonte: G1.

O modelo das PPPs é a vedete de um discurso cada vez mais interessante a uma parcela do eleitorado que é o do Estado Mínimo. Da contraposição entre o excesso de gastos públicos e a ineficiência dos serviços oferecidos, claramente uma debilidade do estado brasileiro, surge o discurso de que o problema não é dessa gestão específica apenas, mas do próprio modelo de governança baseado na lógica do estado provedor. A ideia, extremamente interessante a quem perde muito dinheiro com impostos e não vê retorno dos sistemas públicos precarizados, é que a iniciativa privada é muito mais capaz de gerir qualquer instituição que o Estado, por seu papel lógico ser justamente a relação entre eficácia e lucro, ou seja, o sucesso do setor privado dependeria de menos gastos e mais eficiência. Junte-se a isso a falta de fé do cidadão no Estado, fruto de uma corrupção desenfreada – que, aliás, na maioria dos casos se fundamenta justamente na relação promíscua com a iniciativa privada, que é o que a operação Lava Jato desenrola, mas que se alardeia como um caso exclusivamente político – e de uma classe política desmoralizada, sem qualquer identidade com o povo. Saque-se da manga vários modelos de “sucesso” da gestão privada sem qualquer contextualização para a nossa realidade, tão particular, e temos um discurso muito atraente: deixaremos de pagar impostos para sustentar um estado corrupto e ineficaz, e deixaremos o problema nas mãos de quem realmente “sabe gerir”.

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Charge de Bruno Galvão. Fonte: Site do autor.
Não há como desconsiderar o quão interessante é essa proposição. Um exemplo: viajando de volta para casa, no retorno das festas de fim de ano, acabamos errando uma das saídas e tivemos que fazer um enorme desvio para conseguir encontrar o caminho. Nesse desvio acabamos pagando três pedágios a mais do que o previsto, e na soma de toda a viagem devemos ter gasto algo em torno de uns 200 reais só em pedágios (some-se mais uns 150 de gasolina, pelo menos). A gestão privada melhorou mesmo (algum)as estradas de São Paulo, mas o que se cobra com certeza é muito mais do que o real gasto que se tem a oferecer. Desconsidera-se, ainda, que o transporte rodoviário é muito mais caro e problemático que algumas alternativas, como o ferroviário, mas que por lobby de empresas do setor automobilístico e construtoras, algumas delas as mesmas ligadas à Lava Jato, não há investimento no sentido de priorizar a alternativa.
O mercado cria, através da propaganda, o desejo no consumidor de ter um veículo, símbolo de status, sucesso e poder. Além disso o marketing, em uma sociedade extremamente machista, se volta especialmente para um público masculino, que vai estabelecer uma relação com o veículo de adoração, e não de utilidade. Nesse sentido, ainda se elege muito mais propondo-se mais vias rodoviárias que, por exemplo, investindo em projetos alternativos, como o já referido transporte ferroviário, ciclovias e transporte público. E, claro, mais atualmente esse discurso em prol das alternativas de transporte foi enviesado para a discussão rasteira da política atual, identificado como parte fundamental da gestão Haddad em São Paulo e, de tal modo, se tornando alvo da sanha conservadora dos ideólogos anti-petistas de plantão. Ao construir a imagem idealizada do veículo automotivo, constrói-se também a narrativa contraposta, de que ele é melhor que o transporte público coletivo. A oposição é a mesma da lógica das PPPs: o coletivo/estado como sinônimo de ineficácia e o privado como sinônimo de sucesso.
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Alexandre de Moraes, o ministro, cortando pés de maconha. Fonte: Growroom.

Essa digressão nos serve para apontar um dado fundamental ao massacre ocorrido, mas que pouco se comenta e se comentará, creio, na grande mídia: o presídio manauara era operado por uma PPS, com um consórcio chamado Pamas SPE, Penitenciárias do Amazonas, e é administrado por uma empresa chamada Umanizzare. O nome italiano quer dizer “humanizar”, que além de um eufemismo ridículo é uma típica estratégia para criar uma narrativa de eficiência, usando um nome em língua estrangeira para se aproveitar de nosso conhecido vira-latismo. O site da empresa apresenta os presídios geridos como maravilhas, que se distanciam consideravelmente da realidade, ao que tudo indica. Além, é claro, de ser mais um caso comum no Brasil de licitação sem concorrência, como indica o site Amazonas Atual, em notícia de 2015. E a ilusão de que os gastos públicos desnecessários acabam com esse tipo de iniciativa se encerra ao lermos, na mesma matéria, que esse consórcio recebeu do governo amazonense R$ 137.284.505,62 em 2014 para gerir esses presídios. Em verdade, isso só apresenta o que realmente leva empresas como essa a participar de licitações: a chance de lucrarem mais sendo fomentadas com dinheiro estatal.
Temos que ter em mente que as PPPs, assim como as OS, não são soluções para os problemas reais das instituições. São, assim como as estradas privatizadas, paliativos que garantem minimamente que o Estado evite gastar dinheiro com a solução dos problemas e que dão uma ilusão ao cidadão de pleno funcionamento dessas instituições, baseada na lógica de que o Estado não seria tão eficaz quanto a iniciativa privada. Entendam: o ESTADO usa um discurso de ineficácia do próprio ESTADO para se livrar de seus problemas. Porém, haja vista a necessidade que uma entidade privada tem de fazer lucro a partir do investimento, como no caso dos pedágios, a gestão da instituição pública passa a ser voltada ela mesma para um cálculo fundamental: o máximo de eficácia com o mínimo de gastos. Repetindo: o MÁXIMO de eficácia com o MÍNIMO de gastos. O que quero dizer com isso? Que não será a iniciativa privada que vai realmente melhorar estradas, presídios, escolas ou hospitais, mas que eles irão tentar melhorar o que eles puderem na medida que a lógica do gasto X lucro não lhes traga algum déficit. Afinal de contas, uma instituição privada não iria entrar em uma licitação para angariar um problema financeiro, não é? A iniciativa privada assume a gestão dessas instituições no sentido de garantir mais lucro, não menos, e quando você tem situações como a de um presídio no qual 3.129 vagas abrigavam 10.356 detentos (190% acima da capacidade), fica claro que isso é um péssimo negócio para qualquer investidor, já que ele teria que necessariamente gastar muito dinheiro com a diminuição dessa superlotação de algum modo, provavelmente com a construção de novos prédios. O que geralmente acontece, além de corrupção, é que as PPPs e OS são usadas como plataforma de campanhas, mas a sua gestão permanece precarizada – senão pior que antes, quando era exclusivamente estatal.
Por outro lado, é importante que se deixe claro, nem o Estado nem a iniciativa privada que controla o presídio sabem o que fazer com o local. O ministro da justiça, um notável incompetente, havia afirmado em outubro que a disputa entre facções criminosas dentro de presídios era “mera bravata”, o que diante dos fatos parece ser mais um do seu histórico de erros colossais. Ou não é um erro, já que ao menos o secretário de Administração Penitenciária do Estado do Amazonas já havia tentado uma solução, digamos, amigável, ao se reunir com o líder da “Família Norte”, facção que parece estar no centro da guerra, como aponta reportagem do El País:

De acordo com a Polícia Federal, o encontro teria ocorrido na biblioteca do presídio, e Barbosa saiu da reunião satisfeito com o resultado da conversa. Além de obter do secretário a garantia de que não seria transferido para outro presídio, de quebra conseguiu nova vitória sobre os rivais do PCC. Em mensagem de celular enviada a outros traficantes, ele comemora: “Acabamos com o seguro [área dos pavilhões 1 e 2 destinada ao PCC] do Centro de Detenção Provisória. Eles [PCC] não têm mais nenhum pavilhão, porque esses vermes tinham dois pavilhões. Agora nós da Família estamos no controle de toda a cadeia”.
A fala acima demonstra que o ministro não está só na sua irresponsabilidade, pois vários são os agentes que, acostumados à defesa fácil de um estado policial e opressor, o típico sensacionalismo que angaria votos e confiança de uma população amedrontada e iletrada, agem no limite da lei. Obviamente que é um modo de agir que acaba ao mesmo tempo garantindo uma segurança paliativa e ilusória, assegurando que as pessoas não entendam os problemas inerentes ao sistema do qual fazem parte. Porém, além de esses agentes garantirem para si uma massa de manobra, dão origem daí a um fetiche pela violência, um desejo de que a agressão seja norma e, fato, podemos identificar na proliferação de certos elementos em nossa sociedade um verdadeiro culto à agressividade. Parece ser interessante para o modelo de estado neoliberal que as pessoas defendam a repressão, haja vista a necessidade de utilização da violência para se garantir o funcionamento das instituições que promovem o avanço do próprio mercado. A precarização do ensino público, tão bem combatida pelos estudantes secundaristas que ocuparam suas escolas, foi duramente reprimida pelo então secretário de segurança de São Paulo, agora ministro, e de certo modo isso fez seu “currículo” muito mais que o suposto controle da criminalidade em São Paulo.
Com isso tudo, e a despeito de críticas vazias ao meu “esquerdismo”, quero deixar claro como os problemas estruturais do nosso Estado são SIM fruto da lógica do sistema capitalista neoliberal, mas acabam sendo no fim mais que isso: o motor de um discurso que defende a violência do capitalismo, pelo sensacionalismo que recorre ao já sedimentado sentimento anti-comunista promovido à época da Guerra-Fria – reducionismo que imprime à multiplicidade de propostas à esquerda uma imagem única, de que todas seriam um amálgama “comunista”. A imagem abaixo, dessa época, traduz com clareza o que é o discurso requentado pela direita atual: a ilustração de John McDermott para a capa da revista The American Legion, de 1951, apresenta uma caricatura do professor como o clássico “doutrinador marxista”. Em seu conteúdo, a publicação traz a matéria “Devem as escolas contratar professores vermelhos?”, com o texto logo abaixo: “pais podem livrar os câmpus de comunistas que se disfarçam sob a ‘liberdade acadêmica'”. Se levarmos em consideração a recente campanha dos defensores do projeto Escola sem partido, poderíamos considerar essa publicação atualíssima (até, quem sabe, John McDermott fosse convidado a repetir sua ilustração para a revista Veja). Esse discurso se vale da falta de educação formal sobre história, sociologia e filosofia, e do sensacionalismo barato, e acaba tendo como consequência direta uma campanha contra um fantasma que de modo algum corresponde à realidade da situação do país ou mesmo das ideologias que critica – o que nos faz pensar se o interesse de se limitar o acesos a essas disciplinas com a reforma do Ensino Médio não é parte de uma estratégia para minar a capacidade crítica dos cidadãos. Em verdade, que se considere as benesses de um estado democrático com algum livre-mercado, ainda somos vítimas muito mais de um capitalismo predatório que de um suposto estado comunista.
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Capa da revista The American Legion. Fonte: Kuriositas.
Um exemplo? Fã de histórias em quadrinhos que sou, estava ansioso para assistir a estreia de Doutor Estranho. Daí que, quando o filme finalmente estreia, o principal cinema da cidade exibe o filme em apenas um horário 3D legendado, horário proibitivo para quem não tem carro pois a sessão termina quando já não passa mais ônibus para a minha casa, e o local é propositalmente distante da maior parte da cidade, para obrigar o cidadão a ter um carro e ir com ele.
Vejam como o capitalismo nos obriga a ser subserviente a ele. Onde está, partindo do discurso dos neoliberalistas do Estado mínimo, a suposta liberdade de escolha que a liberdade econômica deveria garantir naturalmente? Eu quero ver um filme legendado e em 3D no meu horário de lazer, em um feriado, e não posso fazê-lo porque não há OPÇÕES, porque o mercado percebeu que a maior parte da população não assiste cinema legendado. Além disso, olha só, eu sou obrigado pelo sistema a ter um carro (sonho de consumo de todo “homem”, claro), a gastar dinheiro com comida (porque não dá pra chegar tarde e perder a sessão, então a espera exige alguma alimentação) para que eu possa me divertir com o que eu quero. Isso é a liberdade que o mercado oferece? E nem adianta dizer que a opção vem pelo meu trabalho, pois o dinheiro que eu gastaria hoje é fruto de muito trabalho e, caso eu quisesse ir pagando ônibus para ir, alimentação, cinema e táxi na volta, seria coisa de mais de 50 reais (considerando que, como professor, pago meia entrada). Num país de salário mínimo de em torno de 800 reais, isso corresponde a um gasto muito alto pra se fazer. E não adianta dizer também que isso é culpa dos impostos, porque o que faz o cinema estar longe do consumidor é a lógica de mercado, a noção de que se você posicionar o que o cidadão quer longe dele e “aprisioná-lo” por muito tempo na sua caixa mercadológica (o shopping) você terá muito mais lucro. E, claro, estou falando apenas de lazer, porque se eu for considerar que a mesma lógica muitas vezes se estende a bens de consumo básico, a coisa fica ainda mais pesada.

E o que a população quer? Eu não sei, mas nas últimas eleições elegemos políticos que representam justamente esse tipo de mercado. E não, não é apenas a mídia a responsável por enfiar na cabeça das pessoas que é melhor ter um “gestor privado” no governo da cidade que um político de outra formação, a culpa é do próprio sistema político e de seus representantes. A população foi, aliás, muito estimulada a se determinar pelo que consome por culpa do governo petista, que incentivou corretamente o crescimento do poder de compra da população, mas não acompanhou isso com uma educação econômica básica, com um sistema didático de compreensão do que é o gasto, do que é o consumismo. Sob a desculpa de dar acesso à população a bens de consumo, estimulou-se o consumismo acrítico. Nessa lógica, o moleque de 15 anos, recebendo 600 contos do seu salário básico de aprendiz em alguma profissão, gasta esses mesmos 600 contos pra comprar um tênis pra impressionar “as gatinhas”. Ele não sabe o que é planejamento, não sabe o que é investimento, não entende o que é a lógica de mercado, não sabe o que existe por trás daquele dinheiro que ele ganha e gasta. O que ele sabe é que ele só é alguém para a gatinha se ele tem o bem material. Ele só consegue sexo com dinheiro. E sexo é a uma das oportunidades fundamentais de felicidade, especialmente quando se é jovem e quando o lazer fica restrito ao consumismo. Essa é a educação básica que nenhuma escola consegue mais desconstruir, não dentro de um sistema que não te permite ter opções, que não te permite pensar fora da caixinha. O moleque vai querer guardar dinheiro pra comprar um carro ou uma moto não pra se locomover, mas porque é um bem que dá status, e te garante prazer. Todo o resto, que não traz prazer, não é importante; e, digo, o voto não dá prazer nenhum. É uma obrigação que leva a um resultado que não faz a menor diferença para as pessoas, a não ser quando as coisas pioram. Quando a política é reconhecida como algo concreto? Quando o preço das coisas sobe, quando a saúde mata seu parente, quando a polícia mata seu amigo, quando o presídio explode em uma rebelião, e assim por diante. E, a partir disso, quem vai ser o alvo de meu voto, se este é inútil? Ou o palhaço que me entretém e não simboliza nada, ou o cara que é dono da loja de tênis, que é quem vende o meu acesso à felicidade, ou o líder religioso, que é quem me vende felicidade imediata na forma de uma ilusão de paz e cura que, lidem com isso, todos procuramos e precisamos.

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Eike Batista e a Ex-presidenta Dilma Rousseff. Fonte: Ig.
Por outro lado, criticar o povo e chamá-lo de burro por preferir Dórias e Crivellas a Haddads e Freixos é um dos motivos pelos quais a esquerda gira e não sai do lugar. A esquerda se afastou do povo, foi atrás da universidade e lá vive, encurralada na sua lógica de disputas internas que só por ela é compreendida. O jovem vai se importar com a esquerda não lhe dá o tênis que permite que ele “coma” a gatinha? Que nada, ele vai mesmo é querer ser vida loka, se pá virar bandido, porque não tem muita diferença entre justiça e criminalidade quando quem mata mais no país é a própria polícia. É muito coerente um jovem na nossa sociedade decidir ser bandido. A gente não se liga nisso porque somos moralistas demais, e ainda acreditamos num ser humano bom em si, que é corrompido pelo sistema malvado. Mas que sistema me fez crer que eu só sou alguém com o tênis foda e o carrão pra levar as mina pro cinema? De acordo com parte da esquerda, isso é culpa do capitalismo da direita, e não do seu próprio capitalismo, capitaneado no Brasil pelo Partido dos Trabalhadores, que mergulhou na mesma corrupção dos outros partidos para garantir a funcionalidade de sua lógica de poder. Daí nossos presídios, como o de Manaus, lotam-se de jovens que percebem que faz muito mais sentido ser soldado do PCC e do CV que ser um trabalhador honesto. E faz mesmo.
Quando o dito mais importante partido de esquerda do país se vangloria do que é porque no seu governo o povo pode comprar mais coisas, tem algo errado aí. Sim, tirar as pessoas da pobreza foi muito importante, mas tirar da pobreza sem dar qualquer educação serve a quê? Os programas de inclusão e a expansão das universidades melhoraou muito o acesso dos mais pobres ao ensino, mas o desmonte atual do ensino começou já no governo Dilma, e nada foi feito em todo governo petista para melhorar o caos que é a educação fundamental. Fica fácil bater nos ex-aliados do PMDB por eles proporem o absurdo que é a reforma do Ensino Médio e a PEC dos gastos públicos quando seu partido nada fez para melhorar o Ensino Fundamental e Médio públicos e propôs arrocho e austeridade econômica pra salvar as contas (e os bancos). Governo de esquerda? Não, não dá pra defender quem ontem esteve lado a lado com o PRB do Crivella, o PSC do Feliciano, e o PMDB do Cunha e do Temer, e agora reclama de todos eles. A antipolítica é culpa da mídia? Com certeza, mas dai a César o que é de César: o PT é um dos maiores culpados pela nossa crise, e não podemos mais considerar a narrativa da política de esquerda nacional sem cobrar do PT a sua dívida.
Por que o PT caiu nessa lógica? Porque tentou, ao mesmo tempo, servir à população e ao Estado. Em sua lógica burocrática torta, morreu tentando garantir que a população tivesse boas condições de vida sem onerar os bancos, os rentistas e o mercado. É talvez uma ideia mais insana que a de um Estado Mínimo, a de um Estado intermediário entre o socialismo e o neoliberalismo, mas que não ceda a nenhum dos dois lados e mantenha sua estrutura burocratizada. É lógico, quando vemos experiências como as da Escandinávia, pensar em uma possibilidade intermediária, mas não há ainda nada próximo disso no Brasil, tampouco foi esse o modelo que o PT implantou em seu governo. Por outro lado, o que seus opositores assumiram como discurso anti-petista foi a glorificação desse Estado Mínimo neoliberal que não funcionou e continua a não funcionar como eles dão a entender que funciona. Na verdade, o discurso serve apenas para manter os benefícios de uma parcela mais rica da população, e garantir suas ações escusas, como conclui o artigo de Antonio Carlos de Moraes, professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política da PUC-SP e membro do NEILS, Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais:
Estas são algumas das “frentes de trabalho” de um Estado que os setores mais conservadores da sociedade sonham ser o Estado mínimo. Todo o esforço do Estado em desvencilhar-se de empresas pouco atraentes em termos de rentabilidade e que muito é explorado ideologicamente por aqueles mesmos setores, se desvanece nas mirabolantes cifras que se contabilizam na prática de socorro ao sistema financeiro. De um lado, premiam-se os corruptos e, de outro, salvaguarda-se o dinheiro em seu papel de equivalente geral. O mesmo dinheiro que se interpõe no circuito compra e venda e que está na raiz de todo esse qüiproquó.
O que quero dizer é que, além de vários problemas relativos ao sistema prisional brasileiro e à segurança pública, há na tragédia em Manaus um exemplo claro de que a ideia de Estado Mínimo e leniência com o mercado como solução aos nossos problemas estruturais é uma bem contada mentira eleitoreira. Por outro lado e ao mesmo tempo, ela alimenta a outra face da barbárie direitista: o culto ao “homem de bem” como resposta ao Estado. E essa resposta tem muita relação com a segunda tragédia que vivenciamos nesse início de 2017: o assassinato de 12 pessoas por um desses “homens de bem” que defendem os seus supostos direitos contra tudo o que a esquerda representa. Não houvesse sido divulgada a carta de Sidnei Remis de Araújo, o assassino, não teríamos a dimensão real do que aconteceu em Campinas. Ela esclarece, de modo aterrador, que não estamos diante apenas de um tradicional – e, infelizmente, recorrente – caso de homem que decide se vingar da esposa que cometeu o “crime” de se separar dele e tirar-lhe a guarda do filho. Estamos diante das consequências de outra faceta do mesmo discurso que causou a tragédia em Manaus. Não há, a meu ver, separação entre as coisas, quando um candidato qualquer que defende o

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Frase de Jair Bolsonaro, em entrevista ao Jornal Opção. Fonte: Tijolaço.

Estado mínimo, e que “bandido bom é bandido morto”, é o mesmo que ataca feministas, se autointitulando “homem de bem”. Não por acaso, ao ser liberada a carta, muitas pessoas associaram seu conteúdo ao deputado Jair Bolsonaro; não porque o assassino declarasse ser seu eleitor, mas porque é clara a coincidência das “justificativas” de Sidnei para seu ato com o discurso do deputado e, principalmente, de seus seguidores.

Muito comentou-se, ainda como era evidente a relação entre as frases ditas por Sidnei e o conteúdo de comentários feitos por toda a internet, seja em grandes portais de notícias, seja em redes sociais. A própria referência feita à ex-presidenta Dilma, com a mesma alcunha que ela atribui a sua mulher e a todas as outras, “vadia”, mostra que o discurso é a reprodução clara de tudo que rasteja pela rede na voz dos supostos indignados. A forma como Sidnei trata as mulheres no texto pode parecer distante, objetivamente, dos atos criticados do deputado Bolsonaro, como a já conhecida ofensa contra a deputada Maria do Rosário. No entanto, ao fazer a afirmação de que “não estupraria” a deputada por ela ser “feia”, o caldo cultural machista de que se nutre o deputado é o mesmo da misoginia que diz a Sidnei que é justiça matar a mulher e outras “vadias”, como a presidenta Dilma.  No caso, não quero dizer que foi o discurso da direita e de gente como Bolsonaro que produziu Sidnei, mas foi esse discurso que fez com que ele percebesse o “crime” de sua ex-mulher como um ato que não se relaciona apenas a ela, mas a todas as mulheres, e defendesse abertamente que seu ato inspire outros pais a “acabar com as famílias das vadias”.
E de fato, pelo que lemos na internet, o ato parece ter inspirado simpatia de algumas pessoas. Pouco depois da publicação da carta surgiram DEFENSORES de Sidnei, e dos motivos que levaram o assassino ao ato cometido. O DCM, ao trazer um desses comentários de anônimos feitos em uma coluna do site que, como o texto que escrevo, associava à chacina o discurso da direita conservadora brasileira, revela como a situação é muito grave:

Quem foi o culpado disso ter chegado onde chegou? A própria esquerda lixosa enquanto promoviam o ódio entre diferentes grupos sociais camuflado de luta conta preconceito e discriminação. Colocando todo homem como um machista, misógino e estuprador em potencial, os brancos como racistas e elitistas, etc. Eu só lamento que esta chacina não tenha acontecido em uma escola ou universidade ocupada por militantes vagabundos e maconheiros.”

Os alvos são claríssimos: a esquerda, representada essencialmente por feministas, movimento negro, movimentos estudantis e universitários. E o autor do comentário lamenta que o ato não tenha se dado em um local de convívio de seus inimigos de esquerda, como as universidades ou escolas ocupadas, pois a crença que o move (e ao assassino de Campinas) é a de que o militante de esquerda é um criminoso que, como tal, deve ser morto. E, sob a mesma lógica, comemora-se em muitos comentários das redes sociais o massacre de Manaus, pois não se trata da morte de mais de 50 pessoas, mas de 50 bandidos. Pouco importa se os assassinos são tão bandidos quanto os mortos: os fins justificam os meios. E quem garante que o autor desse comentário não será um novo Sidnei?
Já usei diversas postagens pra chamar a atenção para como esse discurso deriva do pensamento de gente como Olavo de Carvalho, e não acho que deva insistir nisso mais uma vez, pois seria algo vazio por ser óbvio demais. Mas não custa lembrar que ele defende com veemência a exclusão do convívio de pessoas de esquerda (comunistas), em qualquer nível, inclusive dos contatos pessoais. No entanto, chamo a atenção para como a associação entre o discurso em defesa da família tradicional e do “homem de bem” e o ódio às esquerdas aparece na atuação e na plataforma política de figuras como Bolsonaro, Feliciano, Magno Malta e outros. Na fala dessas pessoas, o inimigo é comunista, odeia a família, o homem heterossexual branco, Deus e a religião, e pretende roubar tudo que o cidadão conquistou com seu trabalho. Vêem a relação? A lógica é a mesma do Estado mínimo: o cidadão conquistou, por seu mérito, à custa de seu próprio esforço individual, o dinheiro que sustenta sua família – e é o Estado esquerdista quem rouba dele o dinheiro e a família. Logo, como o cidadão vive sob o medo paranoico de que todos os espaços estariam nas mãos desse mesmo Estado, ele reage com violência. E, claro, o Estado é de esquerda, sempre. Lembrem-se: o próprio Bolsonaro já afirmou que o erro dos torturadores da época da ditadura foi torturar ao invés de matar os militantes contrários ao governo. Bolsonaro, assim como Sidnei, desejou a morte de Dilma. Na lógica deturpada do deputado e do assassino, é a esquerda (e as mulheres) a real culpada de tudo que vivemos. Ou, como diz o assassino em sua carta, “se os presidentes do país são bandidos, quem será por nós”?
Mais chacinas vão ocorrer, assim como mais rebeliões e massacres em presídios. E ainda será dada como solução ao problema, pelos mesmos grupos conservadores à direita, a diminuição do Estado e a morte. E fica claro que, no discurso dessa direita, neoliberalismo e morte andam de mãos dadas, como soluções para o problema maior do país… insegurança? Não, o Estado e os Direitos Humanos! Essa lógica nos impedirá de sair dessa arapuca, e a tendência é o número de mortes aumentar, bem como o ódio desenfreado que vitima diariamente mulheres, LGBTs, negros e todos que sempre foram as vítimas desse sistema. Não é discurso de “comunista”, nem o sou: é a reflexão de alguém que acha que Manaus e Campinas não estão tão distantes hoje quanto a distância geográfica faz crer.
No entanto, eu sei que não adianta eu escrever tantas linhas sobre isso, pois quem está convencido de que a injustiça não é uma chacina de inocentes, mas a família de um policial morto não receber tantos benefícios com a família de presos, nunca vai me ouvir. E, se você concorda com a afirmação anterior, lembre-se: ela foi dita por um homem que assassinou 12 pessoas em uma festa de Réveillon.
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