“Espero que a cerimônia seja um remédio para a depressão de meu país”

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A frase acima é do diretor Fernando Meireles, um dos caras que elevou o status de nosso cinema lá fora com o seu já clássico Cidade de Deus. Claro, antes dele teve Glauber Rocha, Anselmo Duarte e o agora saudoso Hector Babenco. E, de certo modo, talvez Meireles não seja nem metade do diretor que esses três foram. Porém, isso não tira o mérito do grande cineasta. Não ao menos para quem enxerga as coisas sem o filtro da demagogia seletiva.

Mas a Anitta fez playback!

Sim, vamos falar de Olimpíadas, Protestos, Temer e Anitta, e de como o tal do complexo de vira-latas não é exclusividade da direita.

A expressão “complexo de vira-lata” foi cunhada por um controverso gênio, o teatrólogo Nelson Rodrigues, em virtude da derrota acachapante do futebol brasileiro, em casa, para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950. A frase toda é essa aí:

Por “complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.

Era um gênio. E era reacionário, machista e ás vezes preconceituoso. Gênios, nos é difícil aceitar, são imperfeitos como nós – às vezes, mais imperfeitos até. O nosso senso de equilíbrio (talvez uma característica nata humana) nos faz querer que todos que admiramos sejam um exemplar do que não podemos ser, e por isso criamos super-heróis. Dói, por isso, ver um Cassius Clay a agonizar com Parkinson, ou um Mike Tyson estuprador.

Nossos heróis são o que não somos. E por isso temos heróis. E por isso, quando nossos heróis não bastam, criamos super-heróis.

Anitta
Mas a Anitta fez playback!

Eu, de minha parte, amo esportes olímpicos, e sempre gostei de assistir as cerimônias de abertura desde criança. Mas, claro, você cresce e atinge a maturidade com percepções de mundo diferentes da sua ingenuidade infantil. No caso de muitos, o que ocorre é chegar a vida adulta e perceber que nem tudo é um mar de rosas, que há uma propaganda por trás de tudo que amamos para nos vender um produto, um modo de ser, uma perspectiva de vida, uma ideologia.

Compramos camisetas do Che e da Thatcher, heróis cada qual de seu mundo.

Somos, enquanto humanos, a imagem da imperfeição, a frustração eterna e suprema. As poucas alegrias se somam em uma mão, e as decepções e mágoas cabem na caçamba de dois caminhões. Para sobrevivermos a toda nossa angústia de estarmos presentes nesse mundo, aderimos a algum discurso que preencha esse vazio. Muitas vezes, o religioso. E lá também temos heróis, perfeitos.

Imagine que você descobre a solução para a sua angústia existencial na fé. Imagine que lá há um ser maravilhoso, imaculado, o símbolo máximo do que você acredita ser um líder para a salvação de sua alma. Imagine que você tem a chance de estar com ele, de auxiliá-lo diretamente na missão dele (e sua) de tornar o mundo um lugar melhor.

Esse líder pode ser um estuprador. Pode ser o Marco Feliciano.

O que é feito da mente, da humanidade da moça estuprada por seu herói? Quão destroçada está? Estudiosos da mitologia grega, por exemplo, raramente chamam as investidas sexuais de Zeus sobre jovens humanas indefesas de estupro. Dizem “o rapto de Europa”, dizem que Io “se deitou” com ele, dizem que Sêmele “se encontrou com ele”. Não falam estupro. Um deus não estupra.

Criamos imagens que nos preenchem em nossas fraquezas. O eufemismo nos esconde das falhas de nossas próprias criações. A ignorância é virtude.

Os poderosos, sejam Zeus ou Feliciano, fazem de nosso culto à ignorância sua garantia de poder. Aproveitam-se que somos frágeis, ansiosos, angustiados e frustrados para ter em suas mãos o controle sobre nós. Para acharmos que estupro é carinho, é direito, é justiça. E, claro, para acharmos que eles são perfeitos. Que nossos ídolos, de madeira ou carne, estão acima do bem ou do mal. Biel pode ser machista, misógino, homofóbico e também estuprador, mas a minha aluna do primeiro ano do ensino médio que tem nele uma referência vai pensá-lo como vítima, não como criminoso. Vai no show dele. Vai ser estuprada por ele.

E muitas vezes, vai achar que foi premiada.

Somos assim, frágeis e manipuláveis. Alvos perfeitos para criação e fomentação do complexo rodriguiano. Não nos resta muito, diante de tudo isso, além da alienação que impede que a culpa e a dor de existir nos destrua por completo.

Mas a Anitta fez playback!

Meireles, no entanto, provavelmente foi menos existencialista em sua colocação. Ele deve estar se referindo à depressão que vivemos agora, do nosso Zeitgeist pós-2013, quando cindiu-se a sociedade brasileira de forma irreconciliável. Quando expusemos abruptamente nosso rosto de fascistas, e aceitamos a carga de mais de 500 anos de estupro. Quando descobrimos o que já sabíamos, mas nos impedíamos de ver: que nosso pai defende a morte de comunistas; que nosso avô saúda Hitler no seu quarto; que nosso vizinho quer que nosso filho seja espancado por fumar maconha; que nosso filho violentou a colega de turma na balada e acha que isso faz dele homem.

Em 2013 o ser humano Brasil quis reagir, gritou e entrou em depressão.

Mas, é óbvio, como nos apresenta belamente Leandro Karnal em sua palestra ao Café Filosófico sobre o ódio, o inferno são mesmo os outros.

As Olimpíadas não são causa, são consequência. Consequência de um processo que começou há muito tempo, mas que só quebrou a valer em 2013. Antes disso, de certo modo, ainda mantínhamos nossa compreensão do mundo cercada pelos eufemismos. Ainda eramos fingidores, pessoanos em nossa capacidade de criar um Álvaro de Campos para cada falha moral que não aceitávamos ter. Ali, contudo, se nasceu a nossa justíssima sede de revoltar-se contra um estado que nos cobra metade de nosso salário mensal para que possamos nos locomover todos os dias e deposita nosso dinheiro na conta de especuladores, nasceu também a nossa angústia de existir no mesmo mundo que um fascista.

Paulinho da Viola, que cantou o hino nacional.

Éramos Buscapé, como no filme de Meireles. Sabíamos que ele existia, corríamos atrás das galinhas, mas ainda não tínhamos descoberto a valer o morro.

Mas a Anitta fez playback!

Ontem, conversava com uma pessoa sobre cotas para negros, uma pessoa que é contra mas, apesar disso, não é de direita – sim, é possível sabia, as pessoas defenderem algo contrário ao que você pensa e não necessariamente estarem do lado oposto ao seu? Essa pessoa defende que sejam apenas disponibilizadas cotas sociais, baseadas na renda, pois elas naturalmente englobariam negros e não seriam alvo de crítica. Essa pessoa não é ruim, não é racista, é apenas alguém que vê as coisas por um espectro diferente do meu. Eu perguntei, então, sobre o projeto para a criação de comissões para avaliar possíveis fraudes acerca do ingresso de negros pelo sistema de cotas. Essa pessoa me disse que era contra cotas. Então, expliquei que, já que as cotas eram realidade, eu queria saber a opinião dela acerca do mundo com cotas, se ela era a favor da autodeclaração ou da banca avaliadora. Essa pessoa me disse mais uma vez que era contra cotas. Eu insisti, e deixei claro que ela podia ser contra cotas, mas que a minha pergunta partia do pressuposto hipotético que ela não tinha poder para impedir as cotas, mas poderia ter para adequá-las a um modelo mais justo dentro do que se propõem. Demorou, mas a pessoa entendeu e se posicionou.

Mas a Anitta fez playback!

Eu sou contra a realização da Olimpíada no Brasil. Era contra quando o Lula era presidente e – eu votei nele -, quando a Dilma encabeçou o país e o projeto – e eu votei nela -, e sou durante o governo do interino Temer – em quem eu indiretamente votei quando reelegi Dilma. Se hoje me coloco contra o PT, antes não agia assim. Não me arrependo, mas não nego o que fiz. Porém nunca deixei de expressar meu descontentamento com a decisão de sediar a Copa e as Olimpíadas aqui. Sempre, sempre achei que o Brasil não era capaz de fazer isso, não apenas pelo complexo de vira-lata – e nisso sou vítima do complexo, como todos, descrente e deprimido -, mas porque tinha que resolver outras coisas antes de assumir tal responsabilidade. A Copa aconteceu, os estádios estão aí, com eles as dívidas, os problemas. As Olimpíadas farão ainda muito mais estragos – já fizeram. Ainda não salvamos os Guarani-Kaiowá, ainda não demos terra para os sem-terra, ainda não impedimos Belo-Monte. As Olimpíadas são uma afronta.

Mas, acontecendo, o que fazer?

Protestar, expor, criticar, radicalizar. Queimar pneus, derrubar a tocha olímpica. A revolta é condição sine qua non para enfrentar o sonho Olímpico. E, claro, enquanto vemos os jogos e torcemos pelos nossos atletas. Mas nem todos pensam assim, porque mais que a direita e os conservadores que adoramos expor e atacar, nós que nos alinhamos à esquerda somos muito afeitos à demagogia seletiva.

Somos mais vira-latas que eles, e a carapuça do reaça Nelson Rodrigues nos serve direitinho.

Por que, quando nos chamam de socialistas de iPhone, escrevemos textos enormes atacando a falta de lógica da direita, dizendo que podemos criticar a sociedade de consumo e nela consumir, mas nos recusamos a aceitar alguém que seja crítico às Olimpíadas e que vibrou com a abertura dos jogos ontem, dia 05 de agosto? Por que consideramos hipócrita dizer #foraTemer e, ao mesmo tempo, vibrar com Anitta cantando muito bem ao lado de gigantes como Caetano e Gil? Por que uma pessoa tem que parar de ver a festa da Globo golpista e ficar ligada na Mídia Ninja a noite toda (e não, sei lá, ver as duas, uma na tevê e outra no seu… iPhone)? Por que não podemos elogiar o belo trabalho dos organizadores da abertura dos jogos e ficarmos apenas postando insanamente #foraTemer, enquanto reclamamos que Gisele Bunchen não é negra, que a criança negra protagonizando a festa no Maracanã era demagogia (sim, elas morrem todos os dias, assassinadas pela polícia, pra quem não sabe), que a referência aos negros e índios e imigrantes esqueceu do sangue derramado?

Vocês queriam uma encenação de um pelourinho na abertura de uma celebração? É isso mesmo?

Somos Álvaros, sempre. Nunca conhecemos quem tivesse levado porrada, e todos são campeões em tudo, menos nós. Quando o somos, contudo, somos fingidores. Preferimos Queen a Anitta, Elton John a Wesley Safadão, achando que somos os grandes entendedores da cultura brasileira, e vamos lá reclamar de que?

Teve Paulinho da Viola e Wilson das Neves. Parafraseando o atual técnico da seleção, “quem fala muito”, por acaso sabe quem é Wilson das Neves? Não, era só um velhinho cantando playback numa festa capitalista da globo golpista pra agradar o Temer.

Tem cinquenta minutos dele aí. Vê e depois volta.

Então, esse era o cara do lado do menino negro, sambando divinamente. Mas o que importa? A Anitta fez playback! O Gil também. E o Caetano também. E eu não gosto do Caetano, não gosto de suas músicas, de sua arrogância, de sua postura. Lembram dele como um inimigo da ditadura, mas esquecem dele como defensor de “painho” ACM.

O Caetano fez playback. E o Caetano também fez isso aqui, ó:

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Mas, não importa, a Anitta fez playback! E o mundo viu! Que vergonha.

O Wilson das Neves também. O Paulinho da Viola, acho, também. E a Elza Soares também – Elza linda, Diva, eterna. O Jorge Ben, o Zeca também, o D2, etc. Quem não fez foi o Temer, ao ser vaiado. E o Nuzman, com a sua demagogia tradicional, que nada lembra o grande jogador de vôlei que fora no passado.

Nossos heróis, eles não são perfeitos. Nossos inimigos também não. Nem nós.

Mas eu vou assistir os jogos sendo contra a realização dos jogos. E eu não sou hipócrita, desculpe. Você é que é demagogo. E ranzinza.

O esquerdista, por padrão, é chato, muito chato. Mas ele precisa ser, faz parte de lutar contra o sistema, contra a apatia, contra o status quo. Só que ser chato não é ser ranzinza, demagogo, proselitista. A maioria precisa mais fazer valer seu status em meio aos seus, não fugir da manada que clama contra a globo golpista. Poucos estavam, naquela hora, acompanhando a chuva de porrada que a polícia criminosamente distribuía no RJ e em SP. Estavam no sofá, achando tudo chato, feio, brega e capitalista demais.

Enquanto isso, a Lea T., uma modelo trans maravilhosa, desfilava de bicicleta guiando o cortejo da delegação brasileira, sambando no nosso recalque.

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Ah, e teve a Karol Conka lacrando também.

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E a Elza, Diva. Já falei dela, né?

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As Olimpíadas vão acontecer, infelizmente. Eu achei que não iam, mas vão. Serão um retumbante fracasso para o país, já são, no sentido que o seu nefasto legado será carregado por muito tempo. Desalojaram pobres, mataram pessoas, gastaram um dinheiro absurdo dos cofres públicos. Feliciano está solto, o Cunha está solto, o Bolsonaro está solto. O Amarildo sumiu, o Rafael Braga continua preso. O menino índio continua morto, assim como a Dorothy Stang. A Zuzu Angel acalenta seu filho do outro lado, e o Ustra foi rindo da nossa cara pro inferno.

Então, por favor, deixem por alguns poucos dias o povo sair dessa depressão. Nós ficaremos aqui mesmo, denunciando os abusos da polícia, dos governos, como sempre fizemos e faremos. Não é demagogia, não é nacionalismo, não é hipocrisia. Se chama empatia, e nós não sabemos mais usar.

Nós sabemos é xingar. E fazer memes.

Mas, se nada que eu disse importa, se o nosso complexo de vira-lata é maior que tudo isso, então por favor pensem no Vanderlei Cordeiro de Lima. O Vanderlei Cordeiro era pra ser nosso primeiro medalha de ouro na natação, mas foi impedido pelo destino. Nossos heróis não são perfeitos, às vezes nem por culpa deles.

Mas são nossos heróis. E podemos chorar emocionados com eles.

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Ah, e antes que eu me esqueça… #FORATEMER!

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