Qual a importância dos corpos na corrupção?

Há que se considerar, dado o quadro de constante exposição da política nacional em todos os ambientes, que o maior problema do país seja mesmo a tal corrupção. Mesmo que, em larga medida, a acusação contra a presidenta Dilma que a conduz para um processo de impeachment não seja em si uma acusação de corrupção, ela decorre de um apontamento feito pela opinião pública do Partido dos Trabalhadores (não é por acaso que grafo o nome por extenso) como sede da corrupção estatal. Um apontamento que se desenha por duas frentes: por um lado, as ações e os indícios de ações corruptas de membros do partido, alguns já punidos, e por outro lado a construção de uma narrativa em torno do Partido, por suporte da mídia e de movimentos contrários ao governo.
Porém, e é importante que nos lembremos disso, a corrupção é um crime sem corpo. Ela é um crime contra entidades, instituições, valores e, assim como sua irmã menos perseguida, a sonegação, é algo que vitima indiretamente as pessoas. Eu sei que não posso comer certas coisas frequentemente, que certo parente não consegue um emprego, que o hospital não possui condições de me atender adequadamente por conta da corrupção. O problema do discurso atual é que se engessou uma ideia superficial de corrupção que perdeu a ligação verossimilhante com o que de fato ela representa, ou seja, não se associa o crime ao fato.

Chama-se alguém de corrupto hoje muito mais pela participação do alvo no processo político que pela concretude do ato de roubo/desvio de dinheiro. Aliás, corrupção em si é na verdade obter vantagem em algo, no caso do sistema público, envolvendo a máquina estatal. Isso enquadra mais crimes que o de roubo, e não enquadra alguns outros tipos de roubos, mas a maior parte da população desinformada adere à ideia superficial de que corrupção=roubo e, além disso, defende a presença de um substrato corrupto em toda ação da classe política – a ideia superficial de que todo político é “ladrão”. Existem, tecnicamente, dois tipos de corrupção: ativa, que é quando o particular corrompe o agente público, oferecendo vantagem ou qualquer tipo de benefício a um funcionário público; e a passiva, que é quando este agente público aceita a oferta de corrupção ou quando ele mesmo se disponibiliza para tal processo, solicitando vantagem ou promessa de vantagem em relação à sua função pública. No caso, a vítima da corrupção é a instituição pública, ou seja, não há um corpo real como no caso de um assassinato, por exemplo.
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Artistas rumo à manifestação de 13 de Março pelo Impeachment. Fonte: UOL.

Atualmente, no Brasil (e é isso que esse texto pretende debater), a narrativa vigente é a da supervalorização da corrupção e, atrelada a ela, a desvalorização do corpo como vítima de crime. No discurso do crime, o apagamento do corpo, da vítima concreta, é algo perigoso, pois leva a uma defesa dependente da narrativa superficial vigente, a da polarização política e, por consequência, observa-se que as vítimas não são as pessoas, mas as instituições. Não acho incoerente que o discurso de muitos dos grupos contrários à corrupção estatal – especialmente aqueles mais conservadores – se centre na defesa da família, do estado de direito, no apelo às forças armadas e à polícia, ao judiciário, etc. Todas essas figuras são “corpos incorpóreos”, ou seja, entidades que agrupam em si valores que buscam minimizar a heterogeneidade da existência corpórea individual. De certo modo, há no seio do discurso homofóbico de uma parcela da cúpula evangélica-pentecostal no país a ignorância da heterogeneidade das formas corpóreas, da complexidade da interação entre os corpos, da possibilidade de reclamar o corpo como sede da identidade, e não o extracorpóreo – Deus, por exemplo. Da mesma forma as forças armadas e a polícia são o “não-corpo”, por terem dois poderes em suas mãos: o domínio da técnica para empreender força contra os corpos – e o direito a eliminá-los, inclusive – e a capacidade de estabelecer regimes de “ordem” sobre os corpos, através de disciplina e hierarquização. A ordenação dos movimentos sincronizados dos corpos dos soldados é de certo modo uma performance, que aos olhos daqueles que perderam a capacidade de enxergar a heterogeneidade das presenças corpóreas apresenta a homogeneidade como valor.

Nessa supervalorização dos “corpos incorpóreos” reside uma semente inegavelmente fascista, e é com ela que lidamos, independente de estarmos à esquerda ou á direita do processo político. Mesmo os agentes individualizados – como Sérgio Moro ou Dilma Roussef – não são em si pessoas, mas partes de um sistema incorpóreo e símbolos de sua atuação no regime de polarização – justiça e Partido dos Trabalhadores, respectivamente. Nesse sentido, ainda, há que se construir outra subnarrativa que é a busca pela adesão involuntária de certa personagem que realize a performance observada como indesejável – a corrupção, por exemplo – no corpo incorpóreo. Assim, quando um membro da justiça toma uma atitude que favoreceria o alvo da acusação de corrupção ele passa a ser parte do corpo incorpóreo corrupto – e o ministro do Supremo Tribunal Federal passa a ser parte do Partido dos Trabalhadores, passa a ser “petista”. E pouco importa, nessa narrativa, a predisposição do agente em realmente proteger o acusado ou não; importa a condução da ação consequentemente favorecer o corpo corrupto. É aí que reside o fascismo e a violência decorrente desse pensamento.

Aqui fica ainda mais clara a minha proposição: no Brasil de polarização política extremada, a narrativa se torna fascista, pois a corrupção se torna um crime pior que o homicídio. Voltando à tese original, é essa narrativa que permite à sociedade ignorar ou mesmo comemorar quando morrem dois membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra em uma ação aparentemente criminosa da Polícia Militar – e o advérbio não serve para pôr em dúvida a minha opinião, pois defendo que o referido ato foi um crime, mas para não implicar algum tipo de acusação legal sem a possibilidade de aprofundar isso neste texto.

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Desenho de Criança incitando a morte de Dilma e Lula. Fonte Carta Capital.

Moralmente, muitos considerarão que as mortes ou não tem valor em si, posto que são criaturas dispensáveis – corpos apagados em sua individualidade e heterogeneidade – ou, ainda, dada a associação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra ao corpo incorpóreo do Partido dos Trabalhadores, outros tantos julgarão como algo efetivamente bom a morte deles. Não existe, aí, qualquer noção de que o crime de morte seja em si um crime, independente do agente, mas de que a morte é necessária ou aceitável quando incide sobre um membro do corpo incorpóreo que se posiciona do lado oposto ao que se defende como correto, dentro da narrativa de polarização política. Nesse caso os corpos são políticos, e seu apagamento é comemorado mesmo que não sejam em si corpos de criminosos: lembro aqui do caso do deputado Luíz Gushiken, absolvido pelo Supremo das acusações relativas ao chamado “mensalão”, mas vítima de ataques diversos por conta de sua participação como membro do Partido dos Trabalhadores e do governo do ex-presidente Lula. Sua morte, de tal forma, é celebrada como “morte de um corrupto”, o que aponta para duas distorções: de que um corrupto deve ser punido com a pena capital, algo seriamente defendido por algumas pessoas, e que o membro do corpo incorpóreo corrupto é corrupto “por osmose”, independente de ser agente ou paciente de corrupção. Mais que isso, a morte de um “inimigo” se sedimenta como valor, e dependendo das circunstâncias, a exposição do corpo é necessária. Por isso se constroem ataques violentos baseados na exposição de caixões, na malhação de Judas (uma performance aliada ao linchamento, considerado por alguns estudiosos como um traço da cultura brasileira), na distorção dos corpos  – como as já famosas capas da revista Veja, com Lula assemelhado a uma medusa, e da IstoÉ, sobre a suposta “histeria” de Dilma, ou mesmo os bonecos infláveis de ambos presentes nas manifestações.

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Dilma na capa da Revista IstoÉ. Fonte.
Há, ainda, uma pulsão para compreender o apagamento de um inimigo como desejo. Quando Dilma e Lula foram acometidos em momentos distintos de câncer, ambos foram alvo desse desejo que vê no apagamento concreto das existências uma resposta ao anseio pela “mudança”. Ao menos superficialmente esse é o discurso, mas é evidente que cada vez mais esse tipo de pensamento surge como desejo em si. A violência contra os corpos, simbólica, real ou discursiva, é fruto do apagamento destes corpos nas narrativas e da supervalorização da instituição incorpórea, da entidade, e cada vez mais se aproxima de um desejo. E, quando isso ocorre, apaga-se a mediação entre o ato e a causa do ato, pois a motivação passa a ser apenas o prazer decorrente do apagamento do outro, o surgimento de uma sociopatia coletiva que caracteriza a massa e ignora a lógica subjacente à acusação de corrupção. Não importa mais a corrupção, importa a morte do adversário. Lembrando que, na definição patológica do que seria a psicopatia, há a falta de empatia e a falta de interesse no bem estar dos outros seres humanos, o que temos no desejo de apagamento do adversário é uma pulsão neurótica, um transtorno de perversidade. A heterogeneidade surge, nesse contexto, apenas como oposição, e não como uma compreensão da complexidade da sociedade – pois o valor é a homogeneidade. A outra lógica heterogênea aceita, nesse sentido, é a hierarquização, e não se pode ignorar a possibilidade de prazer envolvido na submissão a instâncias de poder – acredito que há sim gozo na meritocracia, o que justificaria talvez uma adesão quase irrestrita a esse modelo social mesmo por quem é vítima dele. Seria quase um sadomasoquismo social, por assim dizer. Não posso afirmar, sem ser psicólogo ou filósofo, que realmente estejamos nessa situação, mas não consigo ignorar a possibilidade de estarmos diante de uma patologia social que muito se assemelha – e tem-se feito constantemente essa aproximação – ao que ocorreu com as populações europeias durante os regimes nazista e fascista.
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Montagem com foto do ex-presidente na época de seu tratamento contra o câncer. Fonte.

A única violação a essa lógica é quando o morto gera um efeito emotivo por possuir algum outro valor central da sociedade atual. Como vivemos uma sociedade de consumo, na qual os valores são mediados pela acumulação de bens materiais e riqueza, há três formas de gerar valor para o morto: o morto precisa ter valor agregado em relação à sociedade de consumo, o morto precisa ter sido alvo de um processo de morte sofisticado, ou o morto precisa gerar um apelo emocional pelo pertencimento a certo grupo institucional (corpo incorpóreo) que centraliza valores morais, mas que não conflitue com o epicentro da narrativa em voga (a polarização política, no caso atual). Três exemplos: no primeiro caso, os mortos que possuem fama são valorizados, pois a fama se atrela a um valor da sociedade de consumo – os famosos são, em larga escala, aqueles que produzem conteúdo para o consumo dos espectadores das várias formas midiáticas de interação. Como a sociedade de consumo valoriza o espetáculo, todos aqueles que promovem o espetáculo são mortos com valor agregado e, por isso, geram a comoção. Por outro lado, no segundo ponto,  há a necessidade de que haja uma sofisticação por parte do assassino na desconstrução da existência da vítima, com estupros, mutilações, torturas e similares. Por fim, no terceiro caso, encontramos figuras associadas à instituição da família tradicional, como filhos, pais, mães e etc. As coisas se tornam mais fortes no caso de filhos mortos pelos pais (o caso da menina Isabela Nardoni), pais mortos pelos filhos (o caso dos Richtofen), e mesmo de famílias inteiras assassinadas. Porém, nos três casos, se os mortos forem pessoas que de algum modo se posicionam dentro da lógica de polarização, eles serão julgados pela narrativa vigente e não pela morte em si. O contexto da morte da criança indígena em Santa Catarina no final do ano passado aponta justamente para isso, pois os indígenas são parte da massa incorpórea de desvalidos que estão no centro da defesa de movimentos sociais de esquerda. Eles tem o mesmo valor dos Sem Terra, nenhum, pois são eles os motivadores dos discursos dos movimentos sociais que irão estar na linha de frente da polarização, do lado dos inimigos. Temos por consequência disso duas leituras dentro da narrativa: a morte como algo corriqueiro, comum, e os corpos como dispensáveis; ou a morte como algo útil, consequente, e os corpos como um troféu.

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Capa recente da Revista Veja. Fonte: Veja.

De tal modo, o que parece é que a sociedade, quando organizada em reação a uma narrativa fascista, tenta sempre conduzir os mortos para dentro da narrativa, e ignora tudo aquilo que fuja a essa lógica, pois o valor da polarização é a radicalização da diferença e a internalização da homogeneidade como valor. O paradoxo é fundamental: por um lado, se valoriza aquilo que distancia os grupos, valorizando-se a hierarquização e o discurso de verdades absolutas; pelo outro, se almeja a radical dissolução da sociedade em um sistema homogêneo baseado em valores como ordem, disciplina, retidão moral, etc. É isso que representam as instituições que estão no centro das marchas contra o governo e a favor do impeachment da presidenta Dilma Roussef, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, os Movimentos Coletivos ligados às elites econômicas, instituições religiosas tradicionalistas, e os grupos apoiados por essas instituições, como a força policial, as forças armadas, a igreja, a família, etc. São todos, nesse sentido, entidades incorpóreas, mas possuem ícones identificáveis: Olavo de Carvalho, Kim Kataguiri, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, a revista Veja, etc. No caso, essas figuras surgem como resposta do modelo ideológico que move as manifestações, pois se identificam como partícipes do lado que se opõe como narrativa ao alvo da crítica. É fato que cada figura e cada instituição implicada nesses movimentos se aproveita da confusão gerada pela incompreensão do funcionamento do sistema por parte da maioria da população – fruto de uma sociedade que não valoriza a educação e que, de certo modo, fomenta um discurso de oposição ao pensamento crítico – e promove um discurso no qual elas teriam a solução ao problema apenas por serem o oposto do problema. Nisso, apagam-se as corrupções desses grupos, o que leva uma parcela da população a ignorar o crime da merenda em São Paulo por este estar associado ao Partido da Social Democracia Brasileira, oposição ao Partido dos Trabalhadores. Mesmo que a lógica diga – ou devesse dizer – que o assassinato de duas pessoas pela polícia e a falta de comida em escolas públicas do estado mais rico do país sejam coisa muito mais grave que o desvio de dinheiro público de uma estatal.

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Ato contra a chamada “máfia da merenda” em São Paulo. Fonte: El País.

Aqui surge, por último, a instituição máxima, a entidade que assume o papel de centralizadora do discurso fascista: a nação. O nacionalismo por trás dos movimentos que visam derrubar o governo é a radicalização final do processo de apagamento dos corpos. A defesa dos símbolos da nação, como a bandeira e suas cores, protagoniza a mobilização e apaga o conteúdo do debate, gerando uma raiva contra a cor vermelha, por exemplo. Essa raiva deixa de ser simbólica e passa a ser empírica, emulando situações que já ocorriam em outras esferas da sociedade – quando um torcedor corinthiano, por exemplo, recusa-se a vestir verde ou ter qualquer artefato verde em sua casa para apagar o rival, ou o palmeirense evita o preto e branco pelo mesmo motivo. Esse apagamento do conteúdo simbólico gera violência e mais violência pois, se é fato para muitos psicólogos, antropólogos e filósofos que é pelo simbolismo que interagimos com o mundo, a incapacidade de mediação, racional ou não, torna imediato o contato entre a emoção e a ação. Consigo ainda perceber na incapacidade de entender nuances textuais, de interpretar mensagens, o apagamento da capacidade simbólica, do imaginário, que para mim é algo patológico também. Talvez a literalidade na compreensão seja um traço de uma sociedade neurótica.

O que quero colocar é que, nesse sentido, a capacidade de enxergar as coisas de modo complexo, racional e pluralista, tem por consequência a não-violência, e isso nada tem a ver com ser de esquerda ou de direita. Contudo, como a direita se vale das instituições incorpóreas tradicionalistas e de seus valores conservadores como motor de seu modelo de sociedade, ela tende a construir reações mais violentas quando implicada em um embate do qual se esvaem todas as heterogeneidades – exceto a polarização e a hierarquização. Por isso, por exemplo, se identifica a universidade e os intelectuais como símbolos da esquerda e defensores do Partido dos Trabalhadores, mesmo que não o sejam peremptoriamente. A radicalização disso é a completa oposição ao pensamento intelectual, a ponto de se negar o debate crítico em si. E, claro, uma sociedade que é contrária ao pensamento crítico e persegue a intelectualidade só pode cair no totalitarismo. E, acredito, aqui se coloca a fundamental diferença entre a esquerda e a direita atuais brasileiras, pois é para mim claríssimo que é perfeitamente possível um modelo de esquerda totalitária, como o antigo regime Stalinista ou o regime Coreano do Norte que, concordem comigo ou não camaradas de esquerda, têm ambos traços fascistas.
Em que se pese na cruel balança da narrativa nacional, de um lado a morte de dois trabalhadores sem terra pelas mãos das forças repressoras do estado e, do outro, o crime de responsabilidade fiscal da presidência, me parece que a importância objetiva da discussão toda em torno do impeachment é o apagamento dos corpos. Apagam-se todas as baixas reais da guerra contra os corpos desvalorizados: as vítimas do racismo, do massacre indígena, do feminicídio, da homofobia, da transfobia. Essas vítimas se acumulam aos milhares, e os discursos inflamados pela legitimidade ou não de “pedaladas fiscais” parecem apenas palavras ao vento quando olhamos diretamente as estatísticas de mortes no país. Diante disso, debater poder, que é o que o processo de impeachment significa para o PT e para seus opositores, é uma corrupção moral muito mais grave que a dita corrupção política. E não há Lava Jato suficiente pra tanto sangue de inocentes no Brasil.
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