Eu sou um SJW de humanas

Olá, meu nome é Fábio, tenho 32 anos e sou um Guerreiro da Justiça Social.

SJW2

Há algum tempo atrás, surgiu uma contenda gigantesca nesse mundinho chamado internet, envolvendo a comunidade gamer e os jornalistas que cobrem essa mídia que, nos tempos atuais, se tornou mais lucrativa até que o cinema. A briga em si é longa e é difícil falar de todas as coisas, mas é fácil achar guias em inglês ou mesmo em português a respeito do caso. Para conhecerem a fundo o caso, eu aconselho fortemente a leitura desse texto da revista Época.

Em resumo, o surgimento de diversas mulheres criticando pesadamente a indústria de games pela maneira como elas eram discriminadas, seja na representatividade das personagens, seja pela sua própria participação fez com que vários jogadores as acusassem de tentar cercear os “direitos” deles e de estarem “estragando” a cultura que eles tanto amavam. Posturas como da crítica de mídia Anita Sarkeesian, que se dedica a criticar pesadamente a hipersexualização e a falta de protagonismo da mulher nos jogos, levaram esses jogadores a criarem esse movimento, que de meras reclamações na internet acabaram culminando em ofensas de todo tipo e… ameaças de morte. Mas, porque não há limites para a ignorância, não apenas ela foi alvo: também foram alvos dos ataques desenvolvedoras, jogadoras e outras pessoas da indústria, pelo simples fato de fazerem parte do mundo dos games – ou, na verdade, por serem mulheres. A origem desses ataques, não por acaso, foram os fóruns de internet como o 4chan, também famosos pelo vazamento de imagens íntimas de diversas personalidades (todas mulheres).

E foi no seio dessa bagunça, da boca dos jogadores que fundaram o tal “GamerGate”, que vingou o termo Social Justice Warrior, ou SJW como eles abreviam.

Como bem explica a Wikipedia em inglês, SJW “é um termo usado para uma pessoa que expressa ou promove pontos de vista socialmente progressistas, nomeadamente em matéria de liberalismo social, correção política ou feminismo”. Muitos, ao lerem essa descrição, diriam “ué, mas qual é o problema nisso?” De fato, se você, como qualquer pessoa com o mínimo de percepção sensível da realidade, considera que é justamente a luta aguerrida pela justiça social que levou nossa sociedade a derrubar muitas barreiras impostas a mulheres, pessoas negras, LGBTs e etc, você não vai enxergar nenhum problema em uma pessoa ser uma SJW. Em verdade, você pode até ficar feliz e se considerar um SJW também. Bom, apesar de ser evidente que a origem do termo como algo pejorativo não é algo exclusivo do grupo que o utilizou (gamers do 4chan), de certo modo o termo acabou pegando e se estendendo para designar toda pessoa que, teoricamente ou empiricamente, “exageraria” na sua defesa da justiça social.

O que seria exagerar? Bom, aí entramos numa seara consideravelmente complexa, que envolve posturas ideológicas que se ramificam de forma difícil de acompanhar e com cada vez mais velocidade. Se pegarmos o exemplo do feminismo, por exemplo, nem é possível mais falar em um único feminismo, dada a diversidade de possibilidades que surgiram no seio da teoria e do ativismo nos últimos vinte anos ao menos. Apesar de muito do que é proposto ainda remeter, essencialmente, aos trabalhos de Foucault e Beauvoir, o feminismo hoje é coisa tão complexa e diversa quanto são as possibilidades de opressão identificadas como “machismo”. E, fato, há que se considerar que, se por um lado é necessária a ramificação de interesses ou, ao menos, a pluralidade de abordagens, essa dimensão que o feminismo tomou enquanto movimento social muitas vezes gerou problemas para o movimento.

O surgimento de correntes tidas como mais radicais (um termo em si muito difícil de ser delimitado, e muitas vezes usado de forma superficial) gerou um tipo de discurso de confrontamento com diversas formas de opressão que não seriam sentidas imediatamente como opressão e, ao mesmo tempo, conduziu a uma reação violenta contra essas dinâmicas opressoras. Se é possível caracterizar essa mobilização em direção a um radicalismo por parte de certos movimentos sociais, diria que os dois fatores que mais se destacam são justamente a definição de categorias diversas de opressão, que não se restringem aos modelos clássicos, e a construção de posturas agressivas de abordagem, dado o reconhecimento por parte desses movimentos de certa “ineficácia” da mobilização tradicional na solução dos problemas. O fato é que, diante da diversidade de inimigos e de estratégias usadas por esses inimigos, se construiu um movimento que visa abarcar essa percepção. Não vou ficar apontando erros desses movimentos, não é o objetivo principal do texto e nem sei se é algo que me cabe, mas é fato que em muitos desses novos movimentos há um “curto-circuito” na distância (que em muitos casos é necessária) entre a teoria e a prática, talvez fruto da ansiedade de nossos tempos, talvez da angústia relativa ao reconhecimento de que ainda estamos muito longe de um estado de bem estar social real para esses grupos oprimidos. Esse curto-circuito gera conflitos internos que, em larga medida, ameaçam até a unidade necessária para o confrontamento com os inimigos, cada vez mais fortes (já falei disso aqui).

Mas, quando estou falando do termo SJW como crítica, estou me referindo a mais que uma crítica ao suposto “exagero” dos movimentos. Na verdade há já algum tempo, e esse é um dos motivos deste texto, certa confusão entre crítica bem fundamentada e certa perseguição aos movimentos sociais, disfarçada de “defesa da verdade” ou da “liberdade de expressão”. E, apesar de eles entrarem nessa discussão, eu não estou falando aqui de “Bolsominions” ou coisas similares, mas de gente que dedica a sua vida a defender algo que, infelizmente, tem que ser defendido em pleno século XXI: a ciência.

O site Bule Voador, que eu sempre acompanhei com bastante gosto, postou esses dias uma reclamação que me incomodou demais. Diante da polêmica a respeito de um boneco negro usado para lavar louças no Big Brother Brasil, o site se posicionou defendendo que não é possível, ao menos não objetivamente, se falar de racismo no caso. À primeira vista parece ser um óbvio caso de racismo, posto que infelizmente é comum a comparação do cabelo negro, especialmente o black power, com palhas de aço. Porém, o que o site alega para dizer que não se trata em si de algo racista?

Pode ser estranho, e quem sabe até constrangedor, que alguém não goste da representação estética do cabelo black power ilustrado no boneco. Mas, ainda assim, tal manifestação poderia ser interpretada como um tipo de preferência para estilos de penteado, e não um juízo de valor contra a pele negra. Não é óbvia a equivalência entre uma predileção estética e um juízo de valor moral, que pode ser discriminatório ou não. De fato, esta é uma confusão recorrente que, com frequência, cometemos em reflexões apressadas.
Em outro caso, aqueles que aprovam a venda e o uso do boneco não devem ser considerados, automaticamente, racistas. Algumas pessoas poderiam destinar o uso do boneco de forma inofensiva, como decoração ou limpeza (a menos que considerem limpar a casa ou lavar a louça como uma prática desonrosa); outras fariam referências discriminatórias contra o cabelo afro, como se cabelo crespo, mais comum aos negros, fosse ruim, e cabelo liso, mais comum aos brancos, fosse bom. Ocorre, no entanto, que a alegação de “gosto pessoal para cabelos” nem sempre serve de informação para acusar alguém de estar sendo racista ou preconceituoso, caso contrário estaríamos diante de uma espécie de Minority Report: É acusatório na medida em que presume a culpa, e o faz com evidências parcas.

Ou seja, a culpa presumida no caso “carece de evidências”. E, assim, o que seriam as evidências? O que o texto aponta é que seria, no caso, o direcionamento do uso dos bonecos, ou seja, as intenções dos indivíduos. De tal modo, a existência de bonecos da mesma linha que não são negros, combinados à aplicação efetiva do item, seriam “evidências” que negariam o racismo.

Racismo
Da página do facebook Coice Cotidiano.

A busca por “evidências” que justifiquem o tal racismo, me parece, é a principal diretriz que fundamenta essa discussão. Isso porque, saliento, trata-se de um site voltado não apenas para a divulgação, mas para a DEFESA da ciência. Eu sou pesquisador e claro que concordo com a defesa da ciência. Só que eu não faço a minha defesa em detrimento do discurso alheio. E ignorar que a percepção do racismo no caso do boneco envolve uma perspectiva simbólica e, por consequência, ignorar a própria possibilidade de violência simbólica é não ir ao cerne real da questão. E eu concordo totalmente quando o texto afirma que “não existe nenhuma generosidade em apontar o dedo contra uma pessoa e acusá-la de ser preconceituosa, quando não temos as evidências capazes de suportar nossas acusações“. Já fui alvo de uma acusação de racismo, de uma pessoa que tentava acobertar assédios feitos à mulheres apontando um suposto comportamento que eu nunca tive. Só que eu não parto de uma impressão pessoal relativa à má fé de um indivíduo para construir uma argumentação a respeito do caso. Mas, ao mesmo tempo, eu não ignoro, também, que o problema exista.

No facebook, a página tem recebido diversas reclamações sobre a postura a respeito do caso, e parece que o Bule está mais preocupado em defender-se que em refletir sobre. A única postagem que encontrei com uma perspectiva oposta já vinha acompanhada de uma justificativa da Globo a respeito do caso – quando é pra se defender uma opinião, a gente abraça até o capeta.

Em outro texto do site, chamado Síndrome do Protagonismo, me parece que O Bule deixa mais claro qual é o real problema: “O protagonismo se consagrou como o novo dogma dos charlatães em ciências sociais e humanas“. Ou seja, não se trata apenas de uma postura contra certos grupos que promovem uma política questionável no que diz respeito a seus posicionamentos, é um ataque direto às ciências humanas e sociais. Elas, para os que em geral se posicionam como adversários dos SJW, seriam o repositório atual de toda uma série de falácias argumentativas que, no fundo, remeteriam apenas a uma falta de capacidade de enxergar a realidade de forma racional. A isso dão o nome de “pós-modernismo“, num reducionismo risível até para o marxista mais feroz na sua crítica da pós-modernidade.

Daft Punk no Grammy 2014. Fonte: Reuters/Danny Moloshok

Há uma evidente banalização do termo, e não é apenas por culpa dos críticos, mas também de alguns teóricos, especialistas em banalizar as perspectivas científicas e confundirem alhos com bugalhos. Mas, assim como não dá pra falar em pleno século XXI de feminismo no singular, como reduzir a um termo coisas tão diversas como Jean-François Lyotard, Stuart Hall, Michel Maffesoli, dentre outros? Pior, jogam no balaio, claro, Deleuze, Foucault, Derrida e Lacan, como se o fato de todos eles questionarem noções pré-estabelecidas a respeito das ciências os tornassem imediatamente farinha do mesmo saco pós-moderno. Segundo esse pessoal, os discípulos dessa miríade de teóricos estariam a cometer o crime de “questionar a verdade”, ou seja, de problematizar (eles odeiam essa palavra) aquilo que não se problematizaria. E, claro, dogma só o dos charlatães das ciências sociais e humanas…

A tal problematização excessiva é mesmo um problema, especialmente quando as pessoas reduzem esse processo e banalizam as perspectivas sem qualquer fundamento. O distanciamento da teoria e da prática, nesse sentido, pode gerar uma militância pouco esclarecida e incapaz de compreender com profundidade as premissas por trás dos discursos que defende. Isso é, sim, algo complicado (e até engraçado, admito), mas nem de longe isso é um problema consequente de certo modelo de abordagem originário das ciências humanas e sociais, muito menos dos pós-modernos.

Primeiro que jogar toda a bomba nas costas de um suposto grupo de “pós-modernos” é reducionismo ao último grau. Os teóricos fundamentais não querem acabar com as verdades, mas questionam a validade da ideia de “verdade absoluta”. Isso não é sinônimo de eliminação de fatos, de relativismo. A questão é que a ciência não deveria se enxergar como uma verdade absoluta, mas muitos de seus defensores a enxergam dessa forma, e isso os leva a uma incompreensão de quaisquer posturas teóricas que questionem a validade de seus conceitos. Isso tem origem em um modo de pensar a sociedade atual que se propõe racionalista, em oposição ao que seriam modelos de pensamento e abordagem supostamente irracionais. Essa postura domina as discussões céticas desde que estes assumiram que seu inimigo seria a “irracionalidade”, e coloque-se aí coisas tão diversas quanto religião, sociologia e psicanálise. E tudo, claro, é culpa dos “pós-modernos”

Eu tenho problemas com o conceito de pós-modernidade em si, mas por uma questão terminológica: ele parte de uma relação de dependência para se estabelecer, ou seja, diz-se que é algo diferente da modernidade mas estabelece com ela uma relação de dependência por manter seu nome acrescido de um prefixo. Isso é um debate mais longo, acho, e não sou o único que questiona o conceito. Mas nada desse questionamento tem a ver com a visão rasteira de uma parcela dos céticos que chama a tudo que seria supostamente não-científico de “pós-moderno”. Um bom exemplo de como se processa essa perspectiva é a arte: muitos advogam que a chamada arte contemporânea, filhote da pós-modernidade, seria algo ruim por ser vazia de sentido e querer apenas “chocar”. Se há uma indústria cultural que fomenta um vazio artístico, isso é um ponto, por outro lado há que se considerar o que o questionamento da natureza da arte lá com Michel Duchamp no início do século XX é o que permite a existência de um Daft Punk. Não parece que a exposição do urinol como uma obra artística tenha a ver com os robôs da música eletrônica mas, acredite, direta ou indiretamente, as duas manifestações estão intimamente ligadas.

Peço que, antes de continuarem a falar bobagens sobre a tal pós-modernidade, vejam o seguinte vídeo, consideravelmente esclarecedor, do canal “Descrenteando” do Johnny.

Viram? Então agora podemos continuar.

Essa ideia de que haveria uma “relativização extrema” da verdade nas ciências humanas e sociais atuais é uma visão incrivelmente superficial da coisa. Só a título de exemplo, no respeitado Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, temos quatro páginas para o conceito de verdade, e mais umas duas para seus derivados (verídico, verdadeiro, verossímil, etc.). O Dicionário apresenta assim o que seriam as concepções de verdade:

É possível distinguir cinco conceitos fundamentais de Verdade: 1 – a Verdade como correspondência; 2 – a Verdade como revelação; 3 – a Verdade como conformidade a uma regra; 4- a Verdade como coerência; 5 – a Verdade como utilidade. Essas concepções têm importâncias diferentes na história da filosofia: as duas primeiras, em especial a primeira, sem dúvida são as mais difundidas. Não são nem mesmo alternativas entre si: é possível encontrar mais de uma no mesmo filósofo, embora usadas com propósito diferente. No entanto, por serem díspares e mutuamente irredutíveis, devem ser consideradas distintas.
Duchamp
Michel Duchamp jogando xadrez com Eve Babitz

 

Assim, fica claro que desde a origem da filosofia, verdade não é apenas aquilo que se identifica pela percepção direta. Isso seria, de fato, o primeiro conceito de verdade, ou seja, de que algo que é verdadeiro o é por correspondência direta, ou seja, o que é verdade “é o que é”. Considerar que a amplitude e a suposta relativização desse conceito, central à filosofia, seja consequência de uma “perspectiva pós-moderna”, é assumir-se um completo analfabeto a respeito da história da ciência. E equiparar o abuso do conceito com a sua real possibilidade de expansão seria o mesmo que, sei lá, equiparar os atos de um grupo com a postura de todo um movimento.

E isso é justamente o que os adversários da justiça social fazem.

Em 2015, publiquei um texto na revista Cadernos de Campo do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unesp de Araraquara, sobre Alteridade e Empatia nas ciências humanas. Nesse texto chamo a atenção para a imensa dificuldade em delimitar-se um ou mais paradigmas que unam todas as humanidades, especialmente no século XXI. Alguns vêem nisso um movimento a-científico, porém, o fato é que isso é consequência da própria natureza do trabalho das ciências humanas, que em si é muito diferente do das Ciências Exatas e Biológicas, como bem observa uma autora que cito no meu texto, Barros (2010, p. 433):

O universo das ciências sociais e humanas, enfim, oferece desde cedo aos seus praticantes uma complexa rede de paradigmas e posicionamentos teóricos que devem ser escolhidos, caso a caso, para a prática da produção de conhecimento em cada um dos campos de saber. Não é com a sucessão de paradigmas que suplantam uns aos outros, e que fazem a ciência avançar a partir de rupturas irreversíveis, que lidam os cientistas sociais e humanos, mas sim com a possibilidade de estabelecerem uma comunicação entre mundos distintos.

Ou seja, a problemática posta quando se opõem ciências exatas/biológicas e humanidades não é senão uma questão de método, que acaba sendo reduzida a uma briga infantil sobre quem seria a “ciência de verdade”. Esse conflito reflete algo que já se popularizou em discussões de facebook, que é a suposta cisão entre “pessoas de humanas” e “pessoas de exatas e biológicas”. Por mais risível que possa ser, é esse o esteriótipo que fundamenta uma afirmação tão esdrúxula quanto “O protagonismo se consagrou como o novo dogma dos charlatães em ciências sociais e humanas“. É só olhar os comentários na própria postagem do texto do Bule no facebook (devidamente censurada pois não tenho o objetivo de expor ninguém):

SJW

O texto apresenta algo a que fui exposto, como parte do “povo de humanas”, mais de uma vez. Eu sou um estudioso de literatura, não duvidem que eu não tenha ouvido por diversas vezes o clássico “pra que serve” a respeito do trabalho que eu faço. Essas críticas ao “povo de humanas” se fundamentam em uma visão utilitarista, superficial e preconceituosa, muito mais baseada em casos particulares e que, ao fim, apresenta-se como um gigantesco reducionismo. A questão dos problemas de favorecimento e relacionamento dentro das universidades não é um mal das humanidades, mas da universidade brasileira, e conheço casos em todas as áreas. Mas, claro, estimulada pelo texto do Bule, a pessoa acaba reproduzindo essa visão de que “Humanas são importantes até certo ponto”.

Não sei o que quer dizer com ser importante, no caso, mas há já estudos – e aqui vem uma provocação – que indicam que a falta do senso crítico questionador estimulado pelas ciências humanas conduziria as pessoas a se voltarem para um espectro cada vez mais conservador e extremista. Uma pesquisa do Brittish Counsil apresentada pelo jornal The Guardian traz dados interessantes: “Quase metade (48,5%) dos jihadis recrutados no Oriente Médio e norte da África teve um ensino superior de algum tipo (…); destes 44% tinham formação em engenharia . Entre jihadis ocidentais – recrutados esse número subiu para 59%.” E mais: “um estudo de 18 muçulmanos britânicos envolvidos em ataques terroristas revelaram que oito haviam estudado engenharia ou TI, mais quatro ciência, farmácia e matemática; apenas um tinha estudado humanidades.” Isso quer dizer que os cientistas das áreas de exatas e biológicas são necessariamente propensos a serem extremistas e terroristas? Não, eu não estou aqui escrevendo esse textão para fazer uma rasteira falsa simetria. A questão na verdade não são as ciências em si, mas certo modo de pensar as coisas, a lógica binária, como esclarece Martin Rose, o consultor sênior do British Council para o Oriente Médio e a Africa do Norte:

A cultura do ensino das ciências, diz Rose, se resolve muito facilmente em um binarismo de certo e errado, correto e incorreto. Isso danifica a capacidade dos alunos de ciências e engenharia a desenvolver as habilidades de análise crítica. (…) O que Rose tem feito é destacar três características específicas que caracterizam a “mentalidade de engenharia”: primeiro, ela pergunta: “por que discutir quando há uma melhor solução?”; segundo, ela afirma que “se as pessoas fossem racionais, soluções (remédios) seriam simples”; e terceiro, ela apela para aqueles com um desejo subjacente de uma ordem perdida, que está no cerne de ambas as ideologias Salafi e jihadista.

O curioso é que uma das principais reclamações de quem critica os SJW é justamente de que a postura dos movimentos teria se tornado muito binarista, numa lógica em que há mocinhos e vilões. No caso do feminismo, por exemplo, seria aquela postura pela qual todo homem é um estuprador, no caso do racismo, todo branco é racista, e assim por diante. Essas posturas existem? É claro que sim, e já salientei que é algo que eu considero muito nocivo inclusive pros próprios movimentos. Mas temas como “lugar de fala”, “protagonismo”, “identidade” não apenas são questões que exigem um olhar mais profundo e reflexivo, como não dá pra reduzir toda a miríade de vozes dos movimentos sociais a uma de suas facetas, seja a que mais grite ou não. Seria como dizer que todos os cientistas do mundo são ateus baseando-se no Richard Dawkins, ou ainda que todos os americanos são xenófobos por o Donald Trump liderar intenções de voto à presidência de uma parcela do eleitorado americano. A lógica que Rose salienta no trecho que destaquei é, justamente, a do reducionismo, que remete ao binarismo aristotélico em que só existem verdades e mentiras, fatos e falácias, racionalismo e irracionalismo, evidências e achismo.

E, pra terminar, comento aquela que me parece ser o maior exemplo do que eu estou apresentando: a página chamada Aventuras na Justiça Social. Ela foi fundada, dentre outros, por Eli Vieira, biólogo que se notabilizou por confrontar figuras fascistas e ignóbeis como Silas Malafaia e Olavo de Carvalho, se tornando um porta voz da ciência e do ceticismo na internet. Na página do facebook, eles se descrevem da seguinte forma: “Você tem alguma teoria esdrúxula para defender os fracos e oprimidos? Quer fazer fama como campeão da problematização? Então é HORA DE JUSTIÇA SOCIAL!” O reducionismo aqui é melhor explicado na descrição presente no site deles:

“Aventuras na Justiça Social” é uma página que se dedica a fazer piada com todo ativismo exagerado, burro, contra-producente ou mesmo criminoso daquela galerinha indesejável, histérica e completamente incapaz de diálogo que a Internet convencionou chamar de “Guerreiros da Justiça Social”. Você conhece o tipo. São aqueles militantes com o vocabulário padronizado (sempre usam os termos que o líder estiver usando no momento, sem tirar nem pôr: “uzomi”, “piroco”, etc), que dividem o mundo em opressores e oprimidos em uma luta irreconciliável, que vêem racismo em casa uso dos termos “negro” ou “escuro” (“mercado negro”, “buraco negro”, etc), que falam em “apropriação cultural”, que dizem que “só quem tem vivência pode falar” e que são viciados em problematizar.

O que salta aos olhos são duas coisas. A primeira é a insistência em uma linguagem ofensiva caricatural, que constrói um espantalho – uso a falácia como imagem didática, porque esse pessoal adora falácias – baseado em certo grupo que, se realmente existe e tem cooptado diversas pautas de movimentos, não pode ser reduzido às terminologias e vocabulários. A ideia é produzir humor, sim, mas me parece muito mais um humor infantil que um humor crítico de verdade. Cria-se, ali, a ideia de que qualquer pessoa que usar palavras como “uzomi” necessariamente seria a tal SJW e, por consequência, seu discurso seria digno de se fazer piada. Fazer piada aqui não parece ser desenvolver uma crítica real – apesar de a página ter sim movimentos de crítica embasada, independente de se concordar com eles ou não – mas ridicularizar os alvos da piada, retirando o valor do que eles dizem porque, em suma, o que eles dizem não teria valor. O que eles chamam de “vocabulário padronizado” até existe de fato, mas não é sinônimo de um específico grupo de pessoas, ou mesmo a redução exata e concreta de certa postura diante das coisas, especialmente da miríade de militâncias e teorias das ciências humanas. Da mesma forma, a divisão do mundo em opressores e oprimidos é apenas uma questão de percepção do real a partir de uma perspectiva ideológico-crítica, não é mera opinião. A não ser que você seja um liberal conservador que defenda a meritocracia e ache que a opressão é uma falácia da esquerda, a postura que se evidencia por essa crítica é de que não há, nos críticos da SJW, qualquer noção do que seriam realmente os fundamentos das ciências sociais.

Daí vem, e eu sou obrigado a apontar o dedo diretamente, a seguinte postagem de Eli Vieira (não censurei a autoria do texto pois é uma postagem pública):

Eli

Sou totalmente contra censura, e acho vergonhoso que se denuncie alguém por dar a sua opinião – concorde-se ou não, ele não ofendeu ninguém diretamente, ao que tudo indica. Mas é assustador ver uma pessoa tão admirada e seguida como ele falar em “racismo contra brancos” e justificar sua postura contra cotas usando argumentos tão rasos. Porém, claro, ele se vale de sua carta fiel na manga, a genética, para dar a impressão de que tá tudo certo. A ciência surge como a verdade absoluta e dogmática, e só a genética dá “evidências” para justificar algo. Logo, todos os estudos e proposições de diversos sociólogos e antropólogos são “falta de base objetiva”, algo posicionado no seio da irracionalidade.

Na verdade, os detratores da SJW não passam de um grupo de “cientistas céticos” que se acham superiores às humanidades porque, de algum modo, humanidades não seriam ciência. Não chamo o que eu faço, teoria literária, de ciência – mesmo que possuamos metodologias científicas diversas e bem fundamentadas para abordar nossos objetos – mas essa briguinha entre “povo de humanas” e “povo de exatas/biológicas” já virou palhaçada. E, quanto mais se mexe, mais as verdades e preconceitos vão surgindo e montando um quadro bem evidente: o ceticismo de Bules e Aventureiros tem muito mais a ver com conservadorismo que com ciência em si.  Seguem a risca a cartilha inaugurada por Richard Dawkins, que num momento foi minha referência ceticista maior e, hoje, é a prova cabal que ser um erudito não o impede de ser uma pessoa ignorante. Além da já conhecida islamofobia, o nobre cientista já criticou pesadamente os “pós-modernos” falando absurdos sobre vários teóricos renomados, apenas porque desafiavam as suas “verdades”.

De fato, essa postura aproxima pesadamente Eli e cia sabem de quem? Dos conservadores racistas/sexistas que eles dizem criticar! Não o Malafaia, mas Gentilis da vida, que dizem que são adversários do “politicamente correto” e, com essa justificativa, adoram perpetuar preconceitos contra negros, mulheres e LGBT. Não o Olavo de Carvalho, mas os machistas psicopatas que também dizem combater os SJW ao perseguirem e ameaçarem blogueiras feministas como a Lola. Não o Bolsonaro, mas Demétrio Magnoli, que o Eli cita nominalmente, e que falou barbaridades respondidas com elegância e propriedade pelo professor Kabengele Munanga.

Termino, portanto, com uma referência a um dos teóricos geralmente postos sob a ótica da tal “pós-modernidade”. Antes, um histórico: em 1996, um físico da Universidade de Nova York chamado Alan Sokal decidiu expor os pós-modernos como sendo falaciosos através da submissão de um falso artigo para uma revista acadêmica supostamente muito bem conceituada, que acabou aceitando. Depois da publicação, Sokal revelou sua farsa e argumentou que a academia fora tomada por um grupo de estudiosos pós-modernos que eram na verdade críticos da ciência que não teriam a menor ideia do que estavam falando. Jacques Derrida escreveu, em resposta, um texto para o Le Monde (que traduzo porcamente do inglês):

Isso tudo é um pouco triste, você não acha? Para o pobre Sokal, para começar. Seu nome permanece ligado a um hoax – “a farsa Sokal “, como eles dizem nos Estados Unidos, e não ao trabalho científico. Triste também porque a chance de uma séria reflexão parece ter sido arruinada, pelo menos em um amplo fórum público que merece algo melhor.

Ao fim, como afirma sabiamente Derrida, o público merece algo melhor. E, como observou muito bem o Judão a respeito de um caso envolvendo SJWs, “se colocar ao lado de um bando de babacas conservadores com tendências racistas/sexistas e ainda compartilhar seu conteúdo, bom, não é exatamente a melhor coisa pra sua imagem“.

Como eles, eu digo: se pra essa galera eu sou um SJW, então estou bastante satisfeito em ocupar esta posição. E que continue assim por um bom tempo.

Anúncios