ENEM e o “ideologismo mercantil”

Do facebook do Pastor Marco Feliciano
Do facebook do Pastor Marco Feliciano

Boa parte (senão todos) dos críticos à questão do Enem sobre Simone de Beauvoir construíram seu discurso baseados na ideia de que se trataria de uma questão motivada ideologicamente, argumento que é facilmente desmontado pela análise atenta do que se pede. Vou mostrar o que falo usando um exemplo diferente:

“A Alemanha tem todas as oportunidades de arrebatar a Ucrânia a Russia soviética porque o comunismo e dirigido pelos judeus: ora, a longo prazo, os judeus não saberão conservar o estado potente. Ele não é um elemento organizado, não passa de um fermento de decomposição. O fim do domínio dos judeus sobre a Rússia será também o fim da Rússia como estado. Fomos eleitos pelo destino para assistir a uma catástrofe que constituía a prova mais sólida da exatidão das teorias racistas no tocante as raças humanas.”
(HITLER, Adolf. Mein Kampf: Minha Luta. 1925)
Na década de 30, a proposição de Adolf Hitler contribuiu para estruturar um modelo de estado que teve como marca:
a) O incentivo estatal ao crescimento econômico e à liberdade econômica.
b) Pressão do poder público para diminuição da carga de trabalho dos judeus nas fábricas alemãs.
c) A supressão da comunidade judaica alemã através do extermínio dessa população.
d) Aliança com os Estados Unidos contra a Rússia comunista
e) A adoção de políticas públicas de incentivo à tolerância racial.
Essa questão que elaborei se trata de algo extremamente similar ao proposto no Enem (inclusive, deixei também a alternativa “c” como sendo a correta). No caso, apenas não mencionei a palavra “nazismo” para que a dedução se desse pela reflexão do aluno (assim como a questão do Enem não menciona a palavra “feminismo”). A questão em nenhum momento aponta para o “convencimento” dos alunos de que as teorias racistas sejam “exatas”, ou de que os russos ou os judeus devam ser destruídos, ela apenas exige que o aluno relacione (1) o nome do autor do texto ao período histórico do nazismo (2) a ideologia nazista como responsável pelo extermínio dos judeus para chegar a conclusão de que (3) o texto de Hitler estimula o modelo de estado [nazista] que teve como marca (c) a supressão da comunidade judaica alemã através do extermínio dessa população. É algo lógico, que depende exclusivamente de conhecimentos de história e interpretação de texto.
Jean-Paul Sartre and Simone de Beauvoir. Their first picture together, Paris, june 1929. At a fair, Porte d'Orleans. Mandatory Field © Seuil/Jazz - Taken from the book 'Simone de Beauvoir'
Jean-Paul Sartre and Simone de Beauvoir. Their first picture together, Paris, june 1929. At a fair, Porte d’Orleans.
Mandatory Field © Seuil/Jazz – Taken from the book ‘Simone de Beauvoir’

Da mesma forma, na famosa questão sobre Simone de Beauvoir, ao aluno cabe apenas mobilizar seus conhecimentos de história e interpretação de texto para indicar que a frase da filósofa aponta para certos tipos de ações coletivas, as manifestações por direitos relativos ao gênero. Isso de modo algum é uma pergunta ideologicamente motivada, é apenas o esperado de um aluno de nível superior, ou seja, que ele seja capaz de fazer associações entre períodos históricos, personagens, fatos e questões em voga na época e nos dias atuais. Ele não precisa CONCORDAR com nada que o texto apresenta, ele não precisa aceitar que “ninguém nasce mulher, torna-se”, ele apenas e tão somente precisa associar isso com a “organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero”. Aqueles que atacam a questão – e eu os marco sem receio -, como o Marco Feliciano, o Jair Messias Bolsonaro e o vereador Campos Filho e seus colegas membros da Câmara Municipal de Campinas, não estão preocupados com a propagação de ideologias das quais eles discordem. O que eles querem é impedir a mera menção à existência (e ao valor histórico) de pessoas como Simone de Beauvoir. A campanha desses senhores contra a questão do Enem revela não uma posição contrária a certos temas, mas a vontade de que eles não sejam expostos, que sejam eliminados da nossa história. É uma postura contra a ciência, contra o conhecimento, em prol de uma sociedade na qual não se reflita, não se debata, não se pense. Quando se lê “Menos Marx, mais Mises”, o que eles querem não é uma alternativa, mas a exclusão daquilo com o que não concordam. Aos cordeiros que os seguem e que abaixam a cabeça para seus discursos inflamados, fica a dica: não há doutrinação ideológica aqui. Há apenas a exigência mínima de associação de ideias que se espera de um futuro universitário.

Cerca de 2 mil manifestantes, incluindo grávidas e mães com bebês, protestaram ontem (29) no Rio. Fonte.
Cerca de 2 mil manifestantes, incluindo grávidas e mães com bebês, protestaram ontem (29) no Rio. Fonte: Rede Brasil Atual
Mas, claro, assim como outras figuras como o Padre Paulo Ricardo, Olavo de Carvalho e similares, eles também devem achar que a universidade é apenas um antro de comunistas, que querem negar a moralidade cristã. Olha, pra mim está claro que isso não passa de uma tentativa de minar o avanço da ciência que de algum modo diverge e confronta seus ideais monolíticos e, claro, o seu poder. Quanto mais gente tacando pedra nas universidades, mais gente nas suas igrejas e cursos, mais gente votando neles e os garantindo mais poder. Nesse jogo de poder, a imbecilização do coletivo não é mera consequência, é na verdade objetivo. Da mesma forma que o governador Geraldo Alckmin quando decide destruir o ensino público de São Paulo não está fazendo isso apenas por ser um péssimo gestor (pra quem tem dinheiro, ele é um baita gestor), da mesma forma que o deputado Eduardo Cunha não quer tirar os direitos das mulheres apenas pelo aborto confrontar a sua fé. Essas pessoas querem manter seu poder, e para isso uma população ignorante e incapaz de compreender o mínimo de interpretação de texto é fundamental. Diferente do que pensam, ingenuamente, seus seguidores, a vitória do pensamento desses cidadãos não é a vitória de uma divergência de pensamento, mas uma conquista pessoal de mais poder e garantia de impunidade na prática de seus crimes cotidianos. São ideólogos que praticam o que eu chamo de “ideologismo mercantil“, ou seja, um movimento derivado de premissas superficiais, cujo objetivo é apenas o de submeter a universidade e os direitos da sociedade ao mercado. Os defensores desse ideologismo mercantil tem um projeto, que parte de percepções superficiais dos eventos e discussões realizadas na sociedade e, por intermédio de uma perspectiva enviesada e desonesta intelectualmente, constroem um discurso que violento. A luta contra a “questão do Enem” não é uma defesa da liberdade de pensamento. É uma luta contra o pensamento, contra o conhecimento e, ironicamente, contra a liberdade.
PS: Enquanto escrevia esse texto, o corretor de texto do Google Chrome marcou “filósofa” como palavra inexistente, e sugeriu a substituição por “filósofo”. Vocês acham que isso é mera coincidência?
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