Inflação


Atualmente só se fala em inflação. As pessoas que falam, em geral, estão comendo e vivendo bem, e não estão devendo até suas calças pra bancos e financeiras. Além disso, como eles enxergam todo problema como responsabilidade única do governo atual, ignoram a responsabilidade na crise de sonegadores, por exemplo, que fizeram um rombo de R$500 bilhões só em 2014. Cortar todos os ministérios, prender todos os políticos acusados e fechar todos os cargos comissionados provavelmente não vai bater esse valor da sonegação fiscal. Mas, nas últimas manifestações, dava pra ver gente defendendo a sonegação, por considerarem que nossa carga tributária é abusiva. Não que não seja, mas com R$500 bilhões vazando a cada ano por sonegação fica difícil termos serviços decentes.
A verdade é que a sonegação é um crime muito, mas muito mais danoso que a corrupção. Só que a corrupção é uma válvula de escape muito mais eficaz pra indignação seletiva que a sonegação, claro.
Pra vocês terem noção do quanto se perde com sonegação, coloco aqui o link para um estudo sobre os desvios. Nesse texto, o autor (que não tem nome, aliás) chama a atenção para o seguinte:

“Os resultados indicaram que, mantendo todos os demais parâmetros constantes, a arrecadação tributária brasileira poderia se expandir em 23,9% caso fosse possível eliminar a evasão tributária cujo indicador médio para todos os tributos apontado neste trabalho foi da ordem de 8,4% do PIB. Na hipótese ainda de se levar em conta apenas a média dos indicadores de sonegação dos tributos que têm maior relevância para a arrecadação (ICMS, Imposto de Renda e Contribuições Previdenciárias) poder-se-ia estimar um indicador de sonegação de 28,4% da arrecadação (percentual muito próximo do indicador de sonegação para o VAT em países da América Latina que foi de 27,6%), que equivale a 10,0% do PIB, o que representaria o valor de R$ 415,1 bilhões caso levado em conta o PIB do ano de 2011. Tomando-se em consideração esse último indicador para a sonegação, poder-se- ia afirmar que se não houvesse evasão, o peso da carga tributária poderia ser reduzida em 28,4% e ainda manter o mesmo nível de arrecadação. Esses R$ 415,1 bilhões estimados de sonegação tributária são superiores a tudo o que foi arrecadado, em 2011, de Imposto de Renda (R$278,3 bilhões), a mais do que foi arrecadado de tributos sobre a Folha de Salários (R$ 376,8 bilhões) e a mais da metade do que foi tributado sobre Bens e Serviços (R$ 720,1 bilhões).”

E não quero dizer que as coisas estejam boas e que eu ame o modo PT de governar. Pelo contrário, eu não sou a favor de resolver essa crise com arrocho fiscal, com cortes nos direitos trabalhistas e sem relar a mão nos bancos. Esse PT que está aí, se salvou a economia brasileira da falência do governo FHC, foi responsável direto por essa crise atual e manteve os piores hábitos dos tucanos. Estamos aqui aguardando sentados a taxação de grandes fortunas e a auditoria da dívida pública. Enquanto isso, o governo do PT bate em manifestantes, entrega a vida dos índios pra ruralistas e lambe as botas do PMDB. Não dá pra defender um governo no qual a população não pode comprar remédios mas os bancos tem lucro recorde.
A questão é outra, é entender que se vivemos agora uma crise e uma recessão, não estamos nem perto de Grécia e muito menos do que vivemos no passado. E, acima de tudo, se não é com PT que vamos sair da crise, tampouco o faremos com o PSDB.


Copio abaixo dados do Almanaque Folha Dinheiro, relativos aos mais importantes eventos econômicos dos anos 90. Se é isso que falta, algumas aulinhas de passado, vamos lá:

1990 – A inflação acumulada do ano de 1989 foi de 1.782,90%
15.mar.1990 – Maílson da Nóbrega deixa o Ministério da Fazenda, em seu lugar assume Zélia Cardoso de Mello
16.mar.1990 – O Plano Collor decreta o bloqueio das cadernetas de poupança e das contas correntes por 18 meses, com promessa de liberação posterior. Salários e preços são congelados. A moeda volta a se chamar Cruzeiro (Cr$), mantida a paridade com o Cruzado Novo
1991 – A inflação acumulada do ano de 1990 foi de 1.476,56%
31.jan.1991 – O governo Collor promove seu segundo choque econômico. O Plano Collor 2 decreta novo congelamento de preços e salários, eleva os juros e reduz tarifas de importação. É extinto o BTN e criada a TR (Taxa Referencial de Juros)
11.mar.1991 – Entra em vigor o Código de Defesa do Consumidor brasileiro
26.mar.1991 – É assinado o Tratado de Assunção, que cria o Mercosul, que tem Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai como parceiros comerciais
10.mai.1991 – Zélia Cardoso de Mello deixa o Ministério da Fazenda. Marcílio Marques Moreira assume o cargo
1992 – A inflação acumulada do ano de 1991 foi de 480,2%
29.jan.1992 – Na gestão de Marcílio Marques Moreira como ministro é assinada uma carta de intenção com o FMI. Sai empréstimo de US$ 2 bilhões, em seis parcelas
12.ago.1992 – Estados Unidos, México e Canadá fecham o acordo de criação do Nafta (North American Free Trade Agreement), zona de livre comércio que abrange os três países
set.1992 Com a crise provocada pelo impeachment de Fernando Collor, o programa, que previa a redução drástica da hiperinflação, é suspenso. Do valor acordado, apenas 170 milhões entram no país
02.out.1992 – Marcílio Marques Moreira deixa o cargo de ministro da Fazenda, em seu lugar assume Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho
16.dez.1992 – Gustavo Krause deixa o Ministério da Fazenda e Paulo Roberto Haddad passa a responder pela pasta
1993 – A inflação acumulada do ano de 1992 foi de 1158,0%
01.mar.1993 – Paulo Roberto Haddad deixa o Ministério da Fazenda. Em seu lugar assume Elizeu Resende
19.mai.1993 – Elizeu Resende deixa o Ministério da Fazenda e Fernando Henrique Cardoso assume o cargo
01.ago.1993 – O Cruzeiro Real (CR$) substitui o Cruzeiro, que perde três zeros
01.nov.1993 – Entra em vigor o Tratado de Maastricht, que cria a União Européia. A partir dessa data, a Comunidade Européia deixa de ser apenas uma zona de livre comércio e inicia sua unificação política e econômica
07.dez.1993 – O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, anuncia o programa de estabilização econômica. O chamado Plano FHC cria a URV (Unidade Real de Valor), indexador que será base para a nova moeda, o Real
1994 – A inflação acumulada do ano de 1993 foi de 2.780,6%
Maria da Conceição Tavares publica “Em Defesa do Interesse Nacional” e “Lições Contemporâneas de uma Economia Popular”
jan.1994 – É fundado o Instituto Monetário Europeu, futuro Banco Central Europeu, com a missão de implantar a moeda única
28.fev.1994 – Entra em vigor a URV, que equivale a CR$ 2.750,00
03.mar.1994 – Rubens Ricupero assume o Ministério da Fazenda
01.jul.1994 – Com o Plano Real, entra em circulação a nova moeda, o Real (R$). Os preços, então expressos URV, são convertidos para Real, mantendo a paridade
06.set.1994 – Rubens Ricupero deixa o ministério da Fazenda, em seu lugar assume Ciro Ferreira Gomes
dez.1994 – Crise cambial no México. A moeda mexicana, o peso, é desvalorizado 40% em quatro dias
07.dez.1994 – A fabricante de aviões Embraer é privatizada por R$ 154 milhões, em leilão realizado na Bovespa
09 a 11.dez.1994 – A Cúpula das Américas, reunião de governantes de 34 países do continente realizada em Miami (EUA), decide pela criação da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) a partir de 2005
30.dez.1994 – O Banco Central decreta intervenção no Banespa e Banerj
31.dez.1994 – Ciro Gomes deixa o Ministério da Fazenda, em seu lugar assume Pedro Sampaio Malan
1995 – A inflação acumulada de 1994 foi de 1.093,8%
01.jan.1995 – O Mercosul começa a existir
A Organização Mundial do Comércio (OMC) entra em funcionamento com a função de regular o comércio de bens e serviços mundiais
jan.1995 – Áustria, Finlândia e Suécia tornam-se membros da União Européia
02.jun.1995 – Depois de quase 30 dias, termina a greve nacional dos petroleiros. A paralisação, que causa desabastecimento de gás de cozinha, é considerada abusiva pelo Tribunal Superior do Trabalho e as reivindicações dos sindicalistas não são atendidas
11.ago.1995 – O Banco Central decreta intervenção no Banco Econômico, sétimo maior do país, que apresentava rombo de R$ 3 bilhões
08.nov.1995 – O Senado extingue o monopólio estatal do petróleo. A Petrobras perde, assim, o monopólio da pesquisa, lavra, refino e transporte do petróleo e gás natural, que mantinha desde sua criação
1996 – A inflação acumulada de 1995 foi de 14,7%
O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Interunion, do empresário Arthur Falk. O Interunion controla a venda dos títulos de capitalização Papa-Tudo
1997 – A inflação acumulada de 1996 foi de 9,3%
26.mar.1997 – O Banco Central decreta intervenção no Banco Bamerindus
15.ago.1997 – Como reflexo da crise nos países asiáticos (Tailândia, Malásia e Filipinas), a Bolsa de Valores de Nova York sofre queda de 3,11% em um só dia —a maior queda desde 1987— e detona a chamada crise asiática
27.out.1997 – O dólar de Hong Kong sofre ataque especulativo, o que ocasiona queda das bolsas em todo mundo. A Bolsa de Nova York cai 7,18%, com a maior queda em pontos de sua história até então (554,26)
17.dez.1997 – A Petrobras anuncia ter ultrapassado, pela primeira vez, a marca de 1 milhão de barris de petróleo produzidos em um único dia
1998 – A inflação acumulada de 1997 foi de 7,4%
Celso Furtado publica “O Capitalismo Global”
21.jul.1998 – O sistema Telebrás, dividido em 12 empresas de telefonia, é vendido em leilão por R$ 22 bilhões
17.ago.1998 – Estoura a crise da Rússia. O governo russo anuncia um pacote que inclui virtual desvalorização do rublo e moratória de 90 dias nos pagamentos externos
02.dez.1998 – Dificuldades externas a partir das crises asiática (outubro de 97) e russa (agosto de 98) levam governo FHC, com o ministro Pedro Malan à frente do ministério da Fazenda, a negociar novo acordo, devendo receber US$ 18 bilhões do FMI. O socorro financeiro ao país previa, ainda, US$ 23,5 bilhões do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), BIRD (Banco Mundial) e BIS (“Bank for International Settlements”- Banco de Compensações Internacionais), num total de US$ 41,5 bilhões
1999 – A inflação acumulada de 1998 foi de 1,7%
Celso Furtado publica “O Longo Amanhecer – Reflexões Sobre a Formação do Brasil”
01.jan.1999 – O euro se converte em moeda oficial da Bélgica, Espanha, Finlândia, Alemanha, França, Áustria, Grécia, Holanda, Itália, Irlanda, Portugal e Luxemburgo . Apesar de integrarem a União Européia, a Suécia, o Reino Unido e a Dinamarca decidiram não adotar a moeda única
13.jan.1999 – O governo federal altera sua política cambial e promove a desvalorização do Real frente ao dólar
15.jan.1999 – O governo libera o câmbio e deixa o dólar flutuar pela primeira vez desde o início do Plano Real. A moeda norte-americana é vendida a R$ 1,44
06.jan.1999 – O governador Itamar Franco, por meio de nota oficial, anuncia a moratória de Minas Gerais por 90 dias.
mar.1999 O banco Crefisul, do empresário Ricardo Mansur, tem a liquidação decretada pelo Banco Central
16.mar.1999 – Após auditoria que apontou evidência de sonegação de impostos, desvio de dinheiro, uso de caixa-dois e prejuízo de R$ 380 milhões, é decretada a falência Encol e pedida a prisão preventiva de seu proprietário, Pedro Paulo de Souza
01.jul.1999 – As duas maiores fábricas de cerveja do país, Brahma e Antártica, se unem e criam a Ambev (Companhia de Bebidas das Américas)
jul.1999 – Justiça paulista decreta a falência do Mappin
2000 – A inflação acumulada de 1999 foi de 19,9%

Fonte: http://almanaque.folha.uol.com.br/dinheiro90.htm

PS: E o que aconteceu depois disso?

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