Cunha: o quanto é nossa responsabilidade?

A Presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Defesa, Jaques Wagner, participam da cerimônia comemorativa do Dia do Exército, no Setor Militar Urbano (Antônio Cruz/Agência Brasil)
A Presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Defesa, Jaques Wagner, participam da cerimônia comemorativa do Dia do Exército, no Setor Militar Urbano (Antônio Cruz/Agência Brasil)

Esses dias eu postei no facebook algo que era uma resposta velada a várias coisas que ando vendo e que têm me deixado muito chateado e revoltado. O que postei foi o seguinte: Acho curioso (pra não dizer preocupante) como as pessoas andam mais preocupadas em deslegitimar o discurso alheio e julgar (em geral recorrendo aos mais rasteiros recursos, como o ad hominem) os defeitos do outro que reforçar seus próprios discursos e argumentos para, aí sim, constituir uma crítica consciente. O dedo na cara tem sido o “argumento” mais comum de todos os lados, mas a reflexão que é bom e faz crescer está guardada na gaveta aguardando uma curtida para garantir que vale a pena. E para tudo que exige ação direta, aí sim problematização, reflexão, mimimis… passa-se mais tempo debatendo pelo em ovo que tirando o pelo do ovo. Não ando com tempo e nem paciência, mas se fosse mesmo dizer tudo que penso ia perder amigos. Ou sei lá, ganhar respeito… a gente nunca sabe.

Por isso, por esse medo, demorei para decidir se efetivamente escrevia esse texto. Antes disso, claro, não o fiz pela falta total de tempo, algo que de certo modo melhorou um pouco agora. Mas com certeza eu tenho plena consciência de que esse texto vai, de algum modo, contra várias ideologias professadas por grandes amigos e amigas e que, de alguma forma, isso pode gerar para mim até inimizades. Porém, tendo em vista que fui dotado da capacidade e liberdade de expressão, sejam elas fruto do livre arbítrio que alguma divindade nos dotou, sejam um direito social necessário para a boa convivência em sociedade, o fato é que decidi finalmente que iria falar, a despeito de tudo isso. E se alguém efetivamente achar que esse texto é ofensivo, que ele fere seus princípios, que ele seja qualquer coisa nesse sentido, estou aberto a críticas CONSTRUTIVAS. Do contrário, não irei dialogar com qualquer ad hominem, argumentum ad ignorantiam, ou quaisquer outras falácias, porque tenho mais o que fazer. A paciência uma hora acaba, até a de Jó.

Por isso, esse texto vai ter muitos trechos de coisas que já postei no facebook e que, de um modo ou de outro, convergem para o que pretendo expor. Muito do que escrevi aqui muita gente já leu, em outro formato, mas eu resolvi aglutinar tudo num texto só, enorme. Não deveria fazer isso, mas não aguentei, e vou ter que desabafar do jeito que mais sei fazer: sendo verborrágico.

Ah, e claro, antes que eu me esqueça: se você é um conservador, machista, olavete, coxinha, leitor de Veja ou coisa similar e acha que esse texto é de alguma forma argumento para o que você defende, pra atacar “a esquerda caviar”, então vá embora daqui, esse não é seu lugar e esse texto não é pra você. Se você o usar para justificar seu fascismo você estará sendo mau-caráter e cometendo desonestidade intelectual, pois eu não estou do seu lado e não corroboro com a sua visão de mundo. Então desde já peço que pare de ler, vá embora daqui, abrace seu volume de Mises e chore no seu canto, ao lado do seu cartaz do Aécio, e não me encha o saco.

Enfim, vamos lá, pra quem tem paciência de ler um texto de 7 laudas.

O texto surge de fatos bem concretos, bem objetivos, exemplificados por uma coisa básica: o crescimento da direita fascista, da mais conservadora e atrasada visão de país, capitaneada pelo senhor deputado federal Eduardo Cunha e cia de Jesus. Primeiro que já não há mais como sustentar a tese de que não haja crescimento efetivo, mesmo que a manifestação dessa direita conservadora seja ainda reminiscente de preconceitos já arraigados na mentalidade cotidiana brasileira. Ao primeiro momento, talvez, o aparecimento do conservador extremista que ora apoia Cunha e cia pode ter sido apenas a exposição de feridas abertas pela facilidade de expressão que todos angariamos com a popularização da internet. Não nego isso, a priori, mas rejeito essa tese diante do que vemos agora. Claro, sempre estivemos diante de uma sociedade na qual 87% das pessoas são a favor da redução da maioridade pena, quem não enxerga isso ou é ingênuo ou é néscio. Na verdade, provavelmente, os 13% ali sejam frutos das conquistas de direitos humanos e de algum avanço educacional. Mas esperar algo diferente num brasil em que pessoas ainda acham que a melhor forma de educar alguém é com enxada e cinto, bom, aí é querer demais.

O problema é que fechamos os olhos para o que, a meu ver, já é fato consumado: o país é majoritariamente conservador. E não é algo que mudaremos em alguns tweets, nem com movimentos, campanhas ou mesmo com este texto. Quer dizer que devamos desistir? Com certeza não! Mas talvez devamos por ora olhar para o que fazemos, para nossas estratégias, e começar a redesenhar nossas caminhadas a curto e longo prazo.

A partir daí a primeira coisa que as esquerdas e os movimentos sociais devem fazer é olhar para seus próprios erros nesses últimos tempos. Digo mais: olhar para o quanto há de responsabilidade no surgimento de Cunha lá no poder.  E é disso que esse texto fala, essencialmente, a respeito de erros que não queremos enxergar. E eu vou apontar todos os que eu acho que fazem sentido, e se não gostarem, não posso fazer nada.

Em primeiro lugar, e acho que o maior problema de todo, a divergência interna. Qualquer pessoa com o mínimo de noção de como se estrutura um confronto contra instâncias de poder sabe o adágio mais velho e até clichê do mundo, ou seja, “a união faz a força”. Mas há tempos que estamos mais preocupados com os problemas dos aliados que com unirmo-nos contra os adversários de verdade. E, diante da evidente organização da direita conservadora em torno de seus temas mais caros, brigar entre nós é a maior burrice que um grupo poderia fazer. Estamos numa guerra, caramba! Mulheres, homossexuais, sem terra/teto, negros, etc…. pessoas morrem, MORREM, por causa do que conservadores defendem. E agora vou dar exemplos doídos, mas necessários.

O primeiro é de uma corja mau-caráter disfarçada de partido chamada PCO. Tenho amigos decentes e inteligentes que caíram nessa armadilha mas, acreditem, esse texto não é contra vocês ou contra seus ideais. Minha raiva contra o tal Partido da Causa Operária é que eles não têm outro objetivo que não seja destruir a própria esquerda.

PCO

Vi algumas postagens, motivadas muito por essa postura desagregadora do PCO atacando o PSOL pela decisão de não pedir o cargo do Daciolo, deputado eleito pelo partido que queria mudar a expressão da Constituição “todo poder emana do povo” para “todo poder emana de Deus”. Claro, é um ataque violento ao estado Laico, e eu concordo plenamente com a decisão do PSOL de expulsá-lo do partido. O Daciolo, se é um cara que levanta bandeiras contra o Partido, tem que ser mesmo desligado.

Daciolo traz atrelado, na nossa sociedade, toda uma série de problemáticas que temos de parar de ignorar, da qual eu destaco a fundamental: a maior parte dos mais pobres é ligada a correntes evangélicas fundamentalistas. Não dá para gente simplesmente tacar pedra na cruz e esperar que essas pessoas vão abandonar a alienação causada por seus pastores, da mesma forma que não dá pra jogá-las pra fora do sistema político como se elas não tivessem voz. A maior parte da população brasileira é religiosa e conservadora, e só a educação pode ajudar a combater as bases do fundamentalismo.

Agora tirar o mandato de um trabalhador eleito pelo povo? É sério que pessoas “de esquerda” defendem isso diante de um congresso como o nosso, que dia após dia tenta subjugar os trabalhadores e minar a voz das ruas? Sim, há uma ala da esquerda que não assume, mas não está efetivamente do lado do trabalhador, e um dos exemplos disso é justamente (e ironicamente) o PCO! Porque o PCO de operário só tem o nome, e Daciolo é o que muitos “esquerdistas de gabinete” do partido fingem defender, mas rejeitam: trabalhador, vindo de classes populares e conservador. E não digo que o PSOL seja o mar dos trabalhadores, porque não é. Mas não finge ser também, ao menos.

O caso Daciolo é um paradoxo que temos de encarar de frente. Diante disso, ser Trotskista ou Leninista é a mesma coisa que torcer pra Corinthians ou Flamengo, ou seja, só faz diferença dentro da partida de futebol. E é claro, é justamente essa briga de torcidas o que faz a anomalia política chamada PCO, que cada dia mais me faz ter certeza que nunca vamos ter uma esquerda revolucionária séria no Brasil. Enquanto atacam o PSOL e o PSTU por tudo que eles fazem de bom ou de ruim (não é porque eu o defendo que eu acho que o PSOL não erre, por favor), fazem textos em defesa… do Levy Fidélix! Duvidam? Então leiam o texto e me digam se há qualquer coerência na defesa da “liberdade de expressão” do Fidélix (além é claro de confundirem todo o já combalido direito à liberdade de expressão). Afinal de contas, tanto o PRTB do Fidélix quanto o PCO parecem ser no fundo a mesma coisa: partidecos que vivem do fundo partidário.

Mas o PCO é só um exemplo dos vários dessa total falta de rumo dos movimentos “de esquerda”, “sociais” ou “progressistas”. Há coisas ainda mais graves: esses dias uma amiga comentou comigo que, numa discussão de um grupo feminista, moças estavam brigando por conta de uma situação na qual uma mulher branca teria sido “atacada” por negras que intentavam tirar dela um turbante que usava. O turbante seria, para as militantes negras, uma “apropriação cultural”, e a branca não teria o direito de usá-lo. O que me assusta, no caso, nem é a violência do ato de invadir o espaço do outro de tal maneira, mas o fato de que, segundo minha amiga, várias pessoas aplaudiram a ação das militantes com justificativas como “ódio de branca” ou “quando uma negra fala, a branca cala a boca”. Sinceramente, que movimento contra um discurso de ódio (machismo/racismo) se sustenta em ódio!? Qual a coerência nisso?

Eu entendo a lógica: sou negro, e sofri com o ódio de brancos, e esses brancos nunca me deram voz, sempre negaram a legitimidade do meu discurso. Daí, depois de muitos e muitos anos de luta, eu consigo espaço para falar, para fazer valer a minha opinião, porque um grupo abriu esse espaço para o diálogo, para que eu me expressasse. E eu vou lá e descarrego toda essa energia acumulada. É claro que quem teve e ainda tem o poder maior do discurso, o do branco no caso, que vai reagir ao meu discurso e, de certa forma, tentar dar a sua visão. Mas como eu nunca tive voz, não posso agora permitir que discurso do branco (contra mim ou do meu lado) mais uma vez deslegitime o meu. E eu vou lá e impeço o diálogo, alegando que “agora é a minha vez” e, nisso, construo o discurso de reação violento.

Não desconsidero a importância do debate, sobre apropriação cultural, pelo contrário. É um tema fundamental diante do evidente apagamento que sofre a cultura do negro diante da opressão do branco. É histórico, não é mera ocasião ou oportunismo por conta de uma suposta “vitimização” do negro, como setores conservadores insistem em apregoar. Amy Whinehouse, Elvis Presley, brancos cantores de música negra, terem feito sucesso enquanto uma Sharon Jones e um Arthur Crudup ficam nas sombras até hoje, independentemente de suas qualidades, são demonstrações claras desse movimento de apropriação cultural. Há dois textos que eu destaco que apresentam com clareza essa questão, só clicar nos links aqui e aqui. Mas destaco, principalmente, esse texto aqui do blog Caraminholas de Karola, que observa um ponto que acho crucial nesse debate: “não seria mais fácil informar as brancas sobre a importância do turbante para a comunidade negra, e que usá-lo como simples acessório modista é desqualificá-lo e desqualificar toda a cultura e beleza da resistência das mulheres negras”. Pra mim a coisa e resume a isso: educar! E, como disse acima, eu entendo a lógica de como isso se transforma em discurso violento, mas não é por conta disso que é correto agir com violência contra outras pessoas, especialmente mulheres dentro de um espaço de debate do feminismo, que deveria ser um espaço de conscientização e educação.bcee3e8e98d4bd2553df364bf11a1e9b

No caso do feminismo mais combativo é a mesma lógica, em relação principalmente a opinião do homem. Claro, todo homem se beneficia da lógica da opressão que por séculos, milênios, colocou a mulher num espaço de submissão que legitima ainda violências que vão desde a diferença de salários até o estupro. Porém, eu penso que no caso do feminismo, como homem, a postura que eu deveria assumir seria “eu não TENHO que opinar, mas eu posso TER a minha opinião”, ou seja, eu posso falar, mas a necessidade de que eu fale não é o que dá legitimidade ao discurso e, muitas vezes, pelo lugar que eu ocupo, é o que RETIRA a legitimidade do discurso. Sob esse aspecto, eu assumo a postura de adjuvante, de apoiador, mas nunca de EMISSOR, de ENUNCIADOR de um enunciado que não diz respeito diretamente a mim. Concordo plenamente, e respeito isso. Mas daí a tirar não apenas o PODER de discursar de mim, mas de outras colegas, porque elas são mulheres brancas? Para que isso serve senão para desagregar a luta e impedir que o movimento tenha força real para enfrentar os inimigos maiores, que é essa própria sociedade conservadora? Enquanto discutem e acusam as próprias companheiras pela “apropriação cultural” dos turbantes, mulheres brancas e negras morrem por conta de abortos ilegais, são estupradas, apanham em casa, etc.

Outro exemplo? Há uma parte do movimento feminista – que, acredito e espero, seja pequena ainda – que demonstra clara e evidente transfobia! Discurso de ódio mesmo, por considerarem que trans não podem ser efetivamente mulheres, não nasceram com útero, não tem como “se passarem” por mulheres. Chegam ao cúmulo de dizer que o desejo de afirmar sua sexualidade abertamente, de questionar os valores atribuídos por uma sociedade, é “delírio queer”. Negam anos e anos de lutas pelos direitos do outro, reproduzindo discurso de ódio contra o movimento trans… e querem com isso derrubar o patriarcado! Muito coerente, de verdade.

Sabem o que é isso? Falta de leitura. Pessoas que constroem seus discursos baseadas no que leem em meia dúzia de blogs e páginas do facebook e que não se dão ao trabalho de ir na biblioteca da própria universidade e retirar um livro do Foucault ou da Simone de Beauvoir. Vão me chamar de academicista, não me importo. Não se entra numa discussão dessas sem alguma leitura, alguma noção mais profunda do que se está discutindo. Claro, o poder popular de mobilização não depende apenas de acadêmicos, pelo contrário, mas militância cresce com de esclarecimento, e não podemos simplesmente achar que a vitória de um movimento contra a máquina opressora se dará com murros em ponta de faca sem reflexões profundas. Na verdade, estudar é justamente uma das mais poderosas armas contra a opressão, que ninguém parece estar disposto a exercitar, não sei se por preguiça ou por conveniência. E quando você não é o pobre coitado que não teve acesso à educação e não sabe do que eu estou falando, você não tem desculpa para falar bobagem. E falando bobagem, quem se empodera? A direita conservadora fascista. O Cunha.

Jean-Paul Sartre and Simone de Beauvoir. Their first picture together, Paris, june 1929. At a fair, Porte d'Orleans. Mandatory Field © Seuil/Jazz - Taken from the book 'Simone de Beauvoir'
Jean-Paul Sartre and Simone de Beauvoir. Their first picture together, Paris, june 1929. At a fair, Porte d’Orleans.
Mandatory Field © Seuil/Jazz – Taken from the book ‘Simone de Beauvoir’

Exemplo? Eu sei que podemos todos ter visões consideravelmente diversas sobre alguns assuntos, mas acho que, até para que haja possibilidade de se compartilhar informação segura, é importante indicar para pessoas abertas ao debate e ao diálogo certos contrapontos. É o caso da chamada “ideologia de gênero”, por exemplo, termo cunhado recentemente para englobar uma série de posturas, saberes, militâncias e correntes teóricas tão diversas entre si que algumas até conflitam. Na verdade, não existe tal “ideologia de gênero”, e nenhuma corrente teórica ou militância advoga as supostas “ameaças” que o termo engloba. Esse termo, uma verdadeira falácia, foi inventado por teólogos cristãos para aglutinar todas as perspectivas supostamente contrárias ao modelo tradicional familiar cristão sob uma ótica consideravelmente reducionista e pejorativa, que ignora a natureza de cada viés dentro das teorias que debatem as questões de gênero. Esse reducionismo vem sendo usado politicamente para minar avanços progressistas em relação a direitos civis e, paulatinamente, vem desconstruindo de modo perigoso uma série de propostas que garantem os direitos de milhões de pessoas. Além disso, a discussão sobre “ideologia de gênero” justamente por seu reducionismo traz confusão e desinformação a respeito das reais demandas de movimentos sociais e dos estudos de diversos teóricos que há décadas se dedicam ao tema. Se quiserem ler mais sobre os problemas dessa proposta, eu indico um texto de Flávia Biroli, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

E aí? A culpa é de quem? O facebook permitiu-nos sair do armário, assumir nosso lado na batalha contra o preconceito e posicionarmo-nos diante dos absurdos que são cometidos contra a comunidade LGBT. Permitiu-nos festejar a liberdade de ser o que se é, de amar, de ser feliz. Eu acho maravilhoso ver meu facebook lotado de fotos com arco-íris no rosto de cada um, hétero, homo, bi, etc, em comemoração à vitória que foi a aprovação do casamento entre LGBT nos EUA. O arco-íris na sua foto é simbólico; ele diz para o homofóbico: aqui tem uma pessoa que se importa, que ama, que não quer abandonar a luta e que comemora a felicidade do próximo como a sua própria! Porque, enfim, eu fico feliz quando vejo a alegria de meus amigos LGBT, quando percebo que a eles finalmente vem sendo permitida a possibilidade de amar, de ser feliz, de viver a vida como todos. Que eles podem beijar na boca em público, andar de mãos dadas, se abraçar, ter filhos. Mas não nos enganemos: a beleza do facebook “gay” não é sinal de mudança alguma, não sem enfrentarmos quem nos faz chegar aqui e ter que nos posicionarmos claramente contra quem propaga essas ideias? Gente como Olavo de Carvalho, de quem já falei aqui e que parte da esquerda continua a tratar como bufão ao invés de se opor de verdade.

O “filósofo” da direita é um fenômeno há anos, liderando listas de vendas de livros e com milhares de acessos e compartilhamentos de seus textos. Ele lançou uma postagem esses dias em comemoração às 150.000 pessoas que curtem seu perfil no facebook. Ele é talvez o ponto nevrálgico de toda uma rede que cada vez mais ganha força e se articula em torno de um discurso de direita assustadoramente raso e perigoso, de que falei no início. Foi o primeiro, que eu me lembro, a cunhar o termo “gayzismo” para se opor contra o crescimento dos movimentos pelos direitos LGBT. Ele é o grande mestre, por exemplo, do comediante direitista Danilo Gentili, curtido por mais de 11 milhões de pessoas! ONZE MILHÕES que acompanham postagens mentirosas e fascistas desse cara, além de compartilharem diariamente suas baboseiras. Podemos continuar a lista ad infinitum: 2 milhões de pessoas curtem #Orgulho de ser Hetero; Marco Feliciano é curtido por mais de 2 milhões e quinhentas mil pessoas; Jair Messias Bolsonaro por mais um milhão e trezentas mil; Silas Malafaia chega também a um milhão e o Padre Paulo Ricardo tá quase lá. Todas essas páginas são a origem da ignorância que hoje toma conta das redes e assusta todos aqueles realmente preocupados com uma sociedade efetivamente igualitária. Essas páginas são aquelas que pregam o ódio, o preconceito, a desinformação, que propagam mentiras e boatos, que visam a construção de um país cada vez mais distante do que queremos. Eu acredito e defendo, acima de tudo, os Direitos Humanos, e pra mim isso só poderá existir plenamente se assumirmos uma guerra contra a desinformação e a propagação das opiniões dessas pessoas. Continuaremos a perder as batalhas pelos direitos civis e por uma sociedade mais justa e igualitária se não assumirmos de vez uma luta feroz contra a ignorância. E essa luta envolve união, e não propagação de mais ódio. Essa luta não contempla “ódio a branca” ou “trans não é homem”. Ou a gente entende isso, ou os olavetes vão continuar crescendo como a praga que são.10171100_489287904556622_5173610516174415929_n

De qualquer modo, a questão que me ponho é: quem é realmente responsável pela adesão dos conservadores à ideologia de gênero? Em primeiro lugar e acima de tudo, a direita conservadora, claro, e não se pode negar isso. Mas são os únicos, ou as dissidências e a confusão que as posições de acadêmicos e principalmente militantes geram têm sua parcela de culpa no surgimento do Frankenstein? Será que, mais preocupadas em policiar o companheiro que o inimigo, as pessoas não estão confundindo a necessária problematização com confrontamento? Porque, ao que me parece, as pessoas preferem atacar o aliado que defende a Judith Butler ao invés de confrontar o parente que defende o Bolsonaro. Preferem achincalhar o Boechat porque ele falou em “procurar uma rola” que atacar o verdadeiro inimigo, o Silas Malafaia, o criminoso que está mandando mais no congresso que a própria Dilma.

Aliás, o caso do Boechat é emblemático da completa falta de rumo da maior parte dos movimentos sociais de esquerda. E o exemplo que eu dou, claro, é outro que eu já postei no facebook (estou fazendo Ctrl+C, Ctrl+V sim).

Lembram do Yudi, do Bom dia & Cia? Pois ele cresceu, virou cantor (!) namora umas moças aspirantes a Panicats ou coisa similar e vez ou outra aparece por aí, especialmente no SBT. Mas no facebook o rapaz vive uma sina… uma sina chamada Playstation. Por conta da brincadeira da roleta, na qual as crianças por telefone podiam ganhar vários prêmios incluindo o videogame, o grito de “Playstation, Playstation!” viralizou de tal forma que hoje o cara não pode postar uma foto, um comentário, absolutamente nada sem que coloquem um Playstation no meio. Onde quer que ele vá ele carrega consigo a sina de ter sempre alguém o zoando pelo Playstation. Ele é perseguido por isso, e será por muito tempo, a ponto de ninguém quase dar ouvidos ao que ele faz ou pensa.

Agora pense se usássemos isso como estratégia para desconstruir o discurso de algum criminoso homofóbico, especialmente pastores de certas entidades religiosas que pregam seu fascismo diariamente na TV?

Pois então, o escracho como um todo do Boechat foi lindo mas, diferente de muita reclamação que eu li, foi ÓTIMO que o “vá procurar uma rola” tenha gerado tanta repercussão. Pois é a estratégia do humor desestabilizando o discurso de ódio! Agora o Malafaia não vai ter sossego, vai sempre ter que lidar com isso, nas redes sociais, ao vivo, etc. O meme pode tornar a vida dele um inferno, e isso é ótimo! A ROLA é o grande canal de desestabilização do discurso do Malafaia. É a piada que cola, que ridiculariza, que humilha, que transforma o discurso em caricatura e, nesse caso, estamos vendo o meme fazendo seu papel social! A Rola é o Playstation do Malafaia! (aliás, repetindo pra não esquecer: VAI PROCURAR UMA ROLA, Silas Malafaia!)

Mas por que, mesmo com isso tudo, decidiram atacar o Boechat? Porque precisamos problematizar os discursos. Mais uma vez, eu concordo, e sou a favor, mas não estamos pondo o carro na frente dos bois? Não estamos esquecendo da luta franca e objetiva em prol de nossas dissidências internas, em prol da defesa de ideais que só efetivamente serão capazes de se construir com a desconstrução do discurso majoritariamente opressor? Não falo para ignorar o companheiro “de luta” que usa “viado” como ofensa, nem para abraçar o militante “de esquerda” que te assedia na baladinha do movimento. Só que os extremistas do lado do Malafaia já estão em um patamar de força e barbárie tal que as armas do diálogo civilizado não estão mais funcionando. E, ok, eu concordo com ação direta, mas em direção AO ALVO CERTO! Não digo que temos que parar de debater com profundidade entre nós, de divergir, divergência faz crescer. Mas o que eu digo que temos que parar de debater COM ELE, COM O MALAFAIA! A gente aqui debate “rola” e aponta o dedo um para o outro e os filhotes de Malafaia tacam pedras em meninas candomblecistas, sabe? E enquanto os caras estão rasgando a constituição e enfiando a bíblia em tudo que é estado democrático, muita gente está preocupada com os níveis de discurso do que o Boechat falou. Na minha opinião está faltando guerrilha sim, e acho que tanto no caso de um ataque direto quanto no caso do humor podemos, ao menos, expor o tal ao ridículo. A coisa precisa ser mais ação direta, mais dedo na cara e escracho mesmo, é a minha opinião, mas não dedo na cara do companheiro!

E sabe qual é o fruto disso tudo? Cunha, Eduardo Cunha, pisando na gente.

No fim das contas, enquanto a maioria das pessoas continuar a considerar problemas de ordem social como sendo falhas pessoais de caráter, os verdadeiros mau-caráteres continuarão vencendo. E, se estamos mais preocupados em usar X ou E no lugar da flexão de “gênero” que em lutar objetivamente contra o inimigo de verdade, se estamos mais preocupados em criticar o companheiro porque ele é Leninista e eu sou Trotskista, porque ela é cis e eu sou trans, porque ela é branca e eu sou negra, etc., é por isso que estamos perdendo. Sim, mesmo com muitos avanços, estamos perdendo. E parte é por burrice nossa.

Dói ler isso, dá raiva de mim? Na boa, vocês não imaginam o quanto dói em mim escrever tudo isso. Sou um socialista idealista e não nego para ninguém o meu lado da coisa. Eu, aliás, tenho até a tendência a deixar os meus ideais suplantarem a minha razão. Então, esse texto gigantesco não é um desabafo feliz e libertador, é mais um corte que faço em meu próprio peito, para sangrar por um tempo esse sofrimento todo de olhar para as pessoas que defendem o mesmo que você se engalfinhando até a morte, enquanto os lobos comem a nossa carniça. Por isso não posso ignorar, não posso.

Vivemos chamando os direitistas, coxinhas e olavetes de “pombo enxadristas”. Mas nesse jogo, infelizmente, acho que nós é que estamos cagando no tabuleiro.

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