Conjuntura


I.
Do dicionário Caudas Aulete online:
conjuntura (con.jun.tu.ra) sf.
1. Situação não duradoura, resultante da combinação de diversos fatores ou circunstâncias: A atual conjuntura econômica é um desastre.: “Seus próprios pais com ela se aconselhavam nas conjunturas difíceis.” (Franklin Távora, O matuto))
2. Fato, acontecimento, ocorrência que modifica ou caracteriza determinada situação concreta.


II.
Eu me lembro muito de quando o outrora grandioso programa de humor Casseta & Planeta Urgente tinha, dentre suas esquetes, a sátira ao então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, o “Viajando” Henrique Cardoso, que geralmente se focava no seu suposto excesso de viagens internacionais. Nos idos de 1997, o presidente passou a ser representado pelo programa constantemente carregando um pacotinho, piada gerada pela série de medidas econômicas, os chamados “pacotes”, instituídas diante de uma grave crise econômica e por pressão do FMI. Para explicar claramente do que se trata, copio texto da Veja (observem) de novembro de 1997, que achei no Blog do Antonio Mello:
 (…) O pacote não foi a primeira nem a última intervenção do governo nos últimos dias contra a crise financeira. Ponto central da atuação de Brasília para esfriar o nervosismo, o pacote foi costurado num fim de semana, e essa confecção às pressas aparece em várias passagens infelizes que incorporou. Tanto tem furos que a cada dia o governo faz uma nova correção. A última é a edição de uma medida provisória com 75 artigos que visa aliviar um pouco o item do pacote que aumenta o imposto de renda das pessoas.
(…) No dia 29 de outubro, um dia antes do aumento dos juros, a equipe econômica falou, pela primeira vez, num pacote fiscal. Pensava cortar 10 bilhões de reais. Seis dias depois, como os juros não acalmaram o mercado, o corte pulou para 12 bilhões. No dia seguinte, 16 bilhões. Quando a bolsa afundou na sexta-feira, 7 de novembro, os técnicos partiram para o pacote de 20 bilhões.
(…) Diante da televisão, os técnicos do governo avisaram pura e simplesmente que o governo estava aumentando em 10% o IR na fonte e limitando as deduções com educação, previdência privada e saúde, entre outras, a 20% da renda. Dizendo assim, deram a impressão de que os contribuintes pagariam apenas uns reais a mais. Nada disso. Nos casos mais graves, haveria gente pagando até treze vezes mais imposto do que agora.
(…) No pacote, aumenta-se também o imposto sobre produto industrializado, cortam-se 2 bilhões nos investimentos das estatais, em especial Petrobrás e Telebrás, e adia-se, mais uma vez, o reajuste salarial do funcionalismo [do BdoM: sem aumento desde o início do governo FHC].
A crise era consequência de vários fatores, mas à época estávamos saindo de uma situação de suposta bonança, com o advento em 94 do Plano Real, que controlou a inflação galopante que impedia o crescimento do país. Eu não sou especialista em economia mas, a meu ver, vivemos ciclos de tempestade e bonança, às vezes uns maiores que os outros. Se durante os anos posteriores à 94 o Dólar era equiparado ao Real em uma escala quase 1:1, a economia parecia começar, em 97, uma queda vertiginosa, que culminou na Desvalorização do Real em 1999. Essa crise se estendeu até o início dos anos 2000, e talvez tenha sido a grande responsável pela vitória de Lula no pleito de 2001. Lula representava uma eterna esperança de mudança e o PT, estrategicamente, aprendeu com as sucessivas derrotas a fazer um discurso que se não abandonava certas bandeiras do passado, como a preocupação com políticas sociais, se mostrava mais preocupado em agradar  a todos, mesmo os que temiam sua tradição de militância de esquerda. O Lulinha “Paz & Amor” surge, aí, como uma opção razoável ao “Empacotando” Henrique Cardoso, e a ascensão econômica experimentada pelo país naquele momento, mesmo diante do prelúdio da gigantesca crise mundial, foi um marco na política nacional. E marcou, também, pela primeira vez desde o início de nossa tão recente liberdade democrática, o ponto de surgimento do PSDB como oposição. Esse movimento é importantíssimo, a meu ver, para entender porque a crise atual é muito mais política que econômica.
Ambos os governos, Lula e FHC, vivenciaram momentos de bonança e crise. A diferença crucial é que apenas o governo FHC sucumbiu a uma crise efetivamente econômica, posto que não fez um sucessor. Por outro lado, o governo Lula quase sucumbiu a uma outra crise, uma crise efetivamente política, relacionada a uma série de escândalos políticos que vitimaram toda a cúpula articuladora do PT e que tornaram o governo cada vez mais um governo do Lula, e não do PT. Apesar disso, o partido seguiu com uma inegável força até os dias de hoje, mesmo apanhando diariamente na mídia, o principal palanque contra os governos. A Veja, que sempre foi uma revista mais de denúncia que de jornalismo, assumiu seu papel de panfleto de oposição, junto a outros portais, muitos filhotes da relação promíscua entre militares e empresários da imprensa e telecomunicações. Não sou capaz de afirmar com certeza o quanto a postura de nossa mídia é defesa de interesses econômicos ou adesão ideológica, mas as coisas acabam se misturando facilmente diante da urgência de extirpar do poder o governo do PT. E poucas vezes se viu uma força tão grande mobilizada em prol de algo sofrer derrotas tão acachapantes.
Mas, nem tudo são flores. O crescimento do PT no país acompanhou também o crescimento de outra dinastia, a dinastia do PSDB frente ao Estado de São Paulo. Por ser o último reduto de apoio ao partido de real significância – e o gigante econômico que é -, São Paulo acabou assumindo a ponta de lança de um movimento de oposição ao governo e passou a contar como o atirador de elite em todos os casos que surgiram nesse tempo, a ponto de, na última eleição presidencial, o senador Aécio Neves ser mais votado em SP que em seu próprio estado de origem! E é claro que o centro econômico do país possuía as armas para fazer pressão e barulho: as principais centrais midiáticas estão lá, o mercado está lá. E como SP é historicamente um estado ligado ao pensamento reformista conservador e, por vezes, preconceituoso, a coisa ganhou ares até de xenofobia, com os clamores de “separação” do Nordeste após a eleição de Dilma Roussef para um segundo mandato. A pólvora foi acesa, ainda, quando o governo da presidenta, preocupado com a pressão de mercado, mídia e oposição, fez de seu segundo mandato o contrário do esperado por muitos de seus apoiadores, entregando ministérios estratégicos importantes a pessoas como Kassab e Kátia Abreu e reforçando o PMDB, partido sempre a espreita, que muda de aliados como quem muda de cuecas – Renan Calheiros, presidente do Senado, que já foi também assessor de Collor e ministro da justiça de FHC, que o diga.

III.


Uma das coisas que marcou o governo FHC foram as privatizações. O plano de privatizar para melhorar a oferta dos serviços do Brasil ainda é uma página nebulosa da nossa democracia, posto que são várias as acusações contra os envolvidos nos processos e que pouco ou nunca foram a efetivo julgamento. Também há uma questão ideológica ali, pois a venda de empresas nacionais ligadas a áreas estratégicas e a abertura ao capital estrangeiro geram, claro, críticas dos defensores de um estado forte. Esse embate entre estado forte e mercado é constante, e mesmo que eu ideologicamente seja contrário a privatizações por minhas concepções “socialistas” de mundo, não sou capaz de afirmar categoricamente que toda privatização gera problemas reais para a população. Não dá pra ser também futurólogo: ninguém seria capaz de prever as consequências reais de uma privatização como a da telefonia, que foi parcialmente responsável pelo barateamento e expansão da telefonia. Apesar disso, hoje são as empresas de telefonia que lideram o ranking de reclamações por parte dos consumidores. Na época, se aventou também a privatização da Petrobrás, como hoje. A crise era grande, mas houve uma pressão enorme contra esse movimento. E, no Governo Lula, a Petrobrás acabou por se tornar a maior empresa brasileira. Isso quer dizer que as privatizações foram um erro? Talvez, mas as medidas econômicas que seguraram o Brasil durante a crise econômica mundial dos anos 2000 dependem da segurança dada pelo plano Real ainda na época de FHC e, talvez, das privatizações feitas na época. Não sei dizer se é um caso do errado que dá certo, ou se é o contrário.
De qualquer forma, a Petrobrás hoje vive uma afamada “crise” decorrente de um período de “equívocos” cometidos pelas suas gestões recentes. Ao mesmo tempo, há um aparentemente gigante caso de corrupção envolvendo a empresa e diversas empreiteiras, que estão sendo desvelados pela Operação Lava-Jato. E aí que aquela polarização evidenciada nas últimas eleições (e ouço ecos de uma profética Marina Silva quando digo isso) se apresentou de sua forma mais perversa.
Desde o estouro do escândalo do mensalão, setores da mídia e da oposição conseguiram construir uma imagem do PT como um partido corrupto. E alçaram a prática da corrupção a um nível de rejeição nunca dantes visto na história desse país (como diria o companheiro Luiz Inácio). Não que a corrupção seja algo bom, mas a expressão “político corrupto” sofreu um processo de elisão do termo político, tornando as palavras sinônimas. Muito por consequência da falta de educação política e cidadã do povo brasileiro, o discurso do senso comum reproduziu e fomentou a ideia de que toda a nossa classe política é indistintamente corrupta, e que a corrupção é o nosso maior mal, um crime hediondo, maior que assassinatos – ou até passível de ser punido com pena de morte. Vamos com calma.
A corrupção é um crime que, em primeiro lugar, gera lucros para duas pessoas no mínimo: corruptos e corruptores. Não sempre lucros financeiros imediatos, mas conquista de poder e influência. Todos os presos e indiciados da Lava-Jato são empresários, não políticos, e isso é sintomático de um problema que as pessoas custam a enxergar: a iniciativa privada é criminosa. Nossos empresários não visam o bem estar de ninguém, eles visam o lucro, eles querem é que a balança do mercado penda para o lado deles. Se nossa classe política é pouco preocupada com o bem estar da população, isso não significa que os empresários sejam santos. Muitos deles escravizam pessoas, em pleno século XXI, para fazer mais e mais dinheiro. E não duvidem que a íntima relação entre empresários e políticos não seja justamente a responsável pela prática da corrupção ter se alastrado como uma mazela indissociável de nosso sistema político.
Mas os empresários não são criminosos apenas por praticar o ato da corrupção: eles sonegam impostos. E a sonegação é um crime muito mais danoso ao erário que a corrupção, posto que os nossos serviços públicos dependem de impostos. Ou seja, antes de dizer que é a corrupção que tira dinheiro dos hospitais públicos, pense que a Rede Globo é acusada de sonegar 180 milhões de reais. Aliás, como aponta esse texto do Brasil de Fato, a Globo deve mais de “11 mensalões”:

Ao todo, o imposto de renda devido chega a R$ 183 milhões de reais. Esse valor foi calculado com base no preço pago pelos direitos de transmissão na época, que chega a R$ 732 milhões. Porém, a Receita Federal informa que a emissora vai ter que pagar multa pesada, de mais de R$ 274 milhões, além da atualização dos juros de mora, que ultrapassam os R$ 157 milhões. Dessa forma, os valores devidos pela principal empresa de comunicação do país devem chegar a uma fortuna de R$ 615 milhões.
Ou seja, será que esses R$ 615 milhões de reais que a Globo deve não faltam em hospitais, em escolas, na segurança pública?
IV.

A ignorância em relação à sonegação e a obsessão de uma parcela do povo brasileiro com a corrupção, a meu ver, tem relação com a natureza das duas ações. A primeira é o ato de não pagar uma dívida e, no imaginário popular, o calote é uma prática que não afeta a moral da mesma forma que o ato de traição que a corrupção representa. Temos uma grande carga de impostos, juros pesados e não vemos o retorno desses gastos em nossas vidas. Ou seja, se você paga o imposto e não vê o retorno, por que pagar? Já no caso da corrupção, há uma traição envolvida: você deposita sua fé no caráter de um cidadão e ele o engana, em prol de seus interesses. De um lado, portanto, temos uma pessoa que não paga o que ele deve, do outro alguém que pratica uma traição. A cultura brasileira lida muito mal com a traição; a gente tem até um nome popular pro homem traído, o corno (e só pro homem, claro). E o PT cometeu uma traição gigantesca: se envolveu com uma prática que ele mesmo criticava. Aliás, é uma dupla traição, e por isso se elege o Maluf, corrupto contumaz, mas se rejeita veementemente o PT. A ideologia do PT era o combate ao modelo estabelecido, ao status quo, e se adequar a isso tudo que ele criticava é um movimento inaceitável para quem depositou nas urnas um dos bens mais preciosos que as pessoas cultivam: a esperança. Já a Globo pode sonegar a vontade, pois ela sempre arranja um jeito de fingir que o problema não é dela.
Nesse ínterim, por conta dessa fúria contra a corrupção, criou-se um espantalho extremamente útil, no qual se vem batendo há algum tempo ao invés de atacar o que realmente importa. Por isso, por exemplo, que pessoas interessadas mais em desestabilizar o seu inimigo que efetivamente salvar o país tem insistido no discurso de supervalorização da corrupção como crime hediondo. Essa massificação da visão de que “político é tudo igual” faz com que, por exemplo, o Dirceu seja considerado o maior bandido de todos os tempos e o Renan Calheiros esteja, ainda, no comando do Senado. O primeiro e o segundo foram julgados pela mídia e pela população, foram alvo de chacota, de repulsa, são tidos como exemplos de corruptos, mas somente um foi punido, o líder do PT. Por quê?
A impunidade não reside apenas em não punir os corruptos, mas aprender mais sobre política. Vejam o caso do Guido Mantega: o ex-ministro não tem absolutamente nada a ver com a situação da saúde no país, sua atuação não tem qualquer reflexo na má gestão dos hospitais. Mas o ódio generalizado conduz à agressão e, consequentemente, a dissipar-se a percepção de quem comete efetivamente crimes e quem é mau gestor. E por isso pessoas pedem impeachment de uma presidenta contra a qual não pesam quaisquer acusações formais acerca de nenhum crime.
V.
 
O atual maior baluarte dessa falta completa de perspectiva da realidade, a meu ver, é a página de facebook chamada de Revoltados Online. Um exemplo? Veja a imagem abaixo, publicada pela página:

 A imagem traz uma das mais hediondas faces desse movimento de ódio ao PT. Explicando: trata-se de uma imensa mentira. Primeiro porque as duas pessoas das duas fotos não são a mesma pessoa, apenas o ângulo que dá a entender isso. Segundo porque, pra chamar alguém de “sociopata”, espera-se que haja alguma real motivação para essa alcunha, e o tal “sociopata haitiano” nada mais é que um dos vários exilados acolhidos pelo Brasil depois da tragédia no Haiti. Como explica a página do Yahoo, WandNews:
Em seu perfil no Facebook, o haitiano informa que mora no interior de Santa Catarina e trabalha na Aurora Alimentos. Está empregado e mora bem longe do Rio de Janeiro.
A publicação associando o haitiano à confusão no ato em favor da Petrobrás teve quase 40 mil compartilhamentos. Ou seja, a imagem de um batalhador, um pai de família, está sendo espalhada na internet ao lado dos seguintes dizeres: “sociopata haitiano contratado por Lula para espancar brasileiros que querem o fim dos roubos”, “pitbull haitiano”, “contratado para fazer o mal”. É assim que Lubain está sendo retratado.
E aí eu pergunto: quem se aproxima mais da sociopatia? O suposto militante, ou o dono de uma página capaz de manipular informações de tal forma apenas para atacar o que ele pensa ser o maior mal da humanidade? Capaz de fazer milhares de pessoas se revoltarem contra um cidadão que nada fez? Pois esse é o ofício atual do senhor Marcello Reis: denunciar o PT partindo de mentiras. Não é a primeira, nem será a última vez que ele fará isso.
Outro exemplo de uma amiguinha Revoltados, o Comando de Caça aos Corruptos:
images

O que a imagem tenta demonstrar, quando relacionada à informação sobre os haitianos, é que o PT estaria formando um exército para proteger-se das mobilizações da população contra seu governo. Leiam a descrição da imagem:

Força Nacional de Segurança 
O Departamento da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), criado em 2004, pelo então presidente Lula, e com sede em Brasília, no Distrito Federal, é um programa de cooperação de Segurança Pública brasileiro, coordenado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), do Ministério da Justiça (MJ). É um órgão que foi criado durante a gestão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, idealizado pelo Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos.
Minhas considerações:
Todos tem acompanhado pela mídia a grande repercussão dos manifestos pacíficos dos nossos compatriotas caminhoneiros, o que pouca gente sabe é que o tal “acordo” não passa de uma tramoia maligna desse governo covarde e opressor, na verdade os desbloqueios das estradas esta acontecendo da forma mais violenta possível e graças a ajudinha da,por que não dizer, milícia criada pelo ex-presidente Lula, nossos irmão estão sendo covardemente espancados e presos pelo simples fato de estar exercendo a democracia! o governo PT esta reprimindo toda e qualquer tipo de manifestação contraria ao governo e estão usando do nosso próprio dinheiro para conseguir isso.
ATENÇÃO!! A FORÇA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA RESPONDE DIRETAMENTE AOS COMANDOS DO GOVERNO! 
são cães treinados e armados com um único propósito,causar terror e medo em qualquer cidadão com ideias revolucionarias na luta contra a ditadura PTista, é chegada a hora, precisamos do Exército Brasileiro nas ruas do lado do seu povo e honrar seu juramento cumprindo assim os deveres militar! 
ajude a nossa causa! curta,compartilhe divulgue!!
FORÇA E HONRA ,SEMPRE!!
Primeiro que esse é um daqueles movimentos conservadores saudosistas da Ditadura Militar. Vê-se não apenas pela valorização da “Força e Honra” ou pelo eterno clamor ao Exército Brasileiro (com maiúsculas), mas pela própria natureza do nome da página, evidentemente construído para fazer referência ao CCC, o infame Comando de Caça aos Comunistas. E, é claro, a substituição do termo Comunista pelo termo Corrupto também não é mera coincidência.
Agora vamos ver o que a postagem não diz (ou mente):
A FNSP é acionada quando um governador ou ministro de estado requisita ou determina auxílio para conter atos que atentam contra a lei e a ordem, e que saem do controle da segurança local. Ela é ligada intimamente ao Ministério da Justiça e a SENASP, como o cabeçalho do texto, copiado da Wikipédia, descreve. Ela responde sim aos comandos do Governo, ASSIM COMO AS FORÇAS ARMADAS! Ou seja, dizer que “precisamos do Exército Brasileiro” é uma balela, pois quem é o chefe das Forças Armadas é justamente a Presidência da República, segundo o art. 84 da constituição, inciso XII:
Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:

XIII – exercer o comando supremo das Forças Armadas, nomear os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, promover seus oficiais-generais e nomeá-los para os cargos que lhes são privativos;

E, no Estatuto Militar:

Art. 2º As Forças Armadas, essenciais à execução da política de segurança nacional, são constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, e destinam-se a defender a Pátria e a garantir os poderes constituídos, a lei e a ordem. São instituições nacionais, permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República e dentro dos limites da lei.

Ou seja, ao MENTIR, dando a entender que a FNSP seria um exército paralelo, subjugado às ordens da presidência a página cria confusão e fomenta ódio irracional contra o governo. TODOS OS MILITARES RESPONDEM DIRETAMENTE AOS COMANDOS DA PRESIDENTA! Além disso, valem-se da iconografia para construir essa imagem: de boinas avermelhadas, parecem um exército de “Guevaras”. Una-se, a isso, o exército dos haitianos, dos médicos cubanos e dos movimentos sociais que realmente ainda estão aparelhados pelo PT, como o MST e os sindicalistas da CUT: temos o “exército vermelho”, pronto para impedir o povo de “tirar” o PT do poder (só precisam avisar pra esse povo que isso é golpe de estado, não democracia).

O que esse tipo de postagem demonstra, com uma clareza muito grande, é que há uma tremenda desonestidade nessa tentativa cruel de infundir medo na população. Levando em conta que não temos motivos para um real impeachment, o que o que pode acontecer agora, dia 13 de março, é uma tentativa de golpe.
Mas peraê, não era dia 15 o ato? Não, mudaram, dizem eles, que por ser dia de semana, mas provavelmente foi uma reação à convocação feita pela CUT de uma marcha em “defesa da Petrobrás, Democracia e Direitos”. Esse ato foi justamente uma reação ao movimento pró-impeachment, que não poderia ser mais desastrosa. Pensando estar marcando posição com esse ato em defesa do governo (vamos ser francos, né CUT?), Lula saiu falando em “exército do Stédile”, coisa que só gera mais confrontos e prepara o cenário de uma verdadeira praça de guerra para o dia 13, quando os olhos do Brasil estarão voltados para a Avenida Paulista. Temo por um conflito.

VI.

Pode ser que o Estado não angarie a receita devida para a saúde, a educação, etc. por conta de sonegação, mas o cidadão vai sempre culpar os corruptos, como se só eles danificassem o país. Em verdade, eu acredito que a corrupção tem o valor que tem hoje porque é uma estratégia política muito mais útil para atacar um inimigo. Outro argumento: corrupção é muito mais facilmente associada a falha de caráter que a sonegação, posto que é uma traição da fé depositada em alguém, que se desvia sua conduta para benefício próprio. Em outra ponta, o imposto é algo que possui um valor negativo intrínseco, e quem não o paga não está violando uma regra efetivamente valorizada pela população. Nesse sentido, a atual “crise” vivenciada pelo país não é em si uma crise tão grande – ou tão diferente – quanto as que já enfrentamos anteriormente, nem a corrupção na Petrobrás é o maior caso de corrupção do país – haja vista, ainda, a falta de investigação acerca de diversos outros casos de corrupção. O fato é que temos um governo frágil, mitigado por sua própria incompetência e pelo distanciamento dos ideais que o forjaram, sendo vítima de um ataque baseado em desonestidade similar àquela que aprisionou alguns de seus membros. Apesar disso, a mobilização que se convoca para o dia 13 de março, em prol do impeachment da presidenta Dilma, não é só mais um capítulo da degeneração do PT como força política, mas um movimento com claro teor nacionalista (no mal sentido) e, até, fascista. Odeio usar esse termo, mas nesse caso, o penso na sua definição mais objetiva, que aparece na Wikipédia, por exemplo: “é uma forma de radicalismo político autoritário nacionalista”. Diante das atitudes de gente como Marcello Reis, é algo que cumpre bem seu papel: o projeto de Marcello e seus Revoltados é tirar o PT do poder, custe o que custar. Vão jogá-lo nas mãos de quem? Pouco importa. O quem importa é fazer o papel de justiceiros, de baluartes de uma moral cega que reflete algo ainda mais sério, que é a falta de educação política do povo brasileiro.
Temos vivenciado um crescimento significativo do poder de compra do brasileiro, desde o início do governo Lula. Esse é um plano do ex-presidente, fazer a ascensão social do pobre à classe média por intermédio de garantir-lhe maior poder de compra. O problema é que, por trás desse crescimento, residem as velhas ideologias ligadas ao modelo escolhido de ascensão: ao garantir à população uma ascensão baseada na valorização do consumo, o governo deu uma facada no próprio peito.
O que é esse movimento anticomunista, inspirado pelas sandices de Olavo de Carvalho e mobilizado pelas mentiras de Marcello Reis e cia, senão um fruto da alienação causada pela massificação do poder de compra? Não que eu não ache uma maravilha ter conseguido comprar um microondas para a minha mãe depois de tantos anos, mas quando o produto assume valores que não apenas os utilitários e os financeiros, a coisa desanda. O comprador encara a sua nova tevê, o seu novo tênis, seu carro, como um símbolo de sua independência e parte de sua nova identidade. E a irresponsabilidade de provocar uma ascensão veloz sem a devida educação do povo para lidar com esse novo patamar de consumo criou um efeito mola, no qual a população de classe média é justamente aquela a emular o discurso das elites e tramar contra o governo que a fez ascender. Posto que o comunismo é, grosseiramente, a negação do valor da propriedade privada, e os brasileiros ainda não sabem a diferença real entre o que é o privado, o que é o público e o que é de ninguém, o recém dono de uma casa própria não vai querer perder essa casa para o governo “bolivariano” da camarada Dilma.
E assim cria-se uma lenda que serve apenas à desinformação e ao caos. Por isso, os mobilizadores dessa crença insistem em um suposto plano comunista para tomar o país: instaurar o medo é uma das melhores formas de controlar a manada que não é capaz, ainda, de pensar autonomamente. É um plano desonesto, mas que ganhou adesão de uma massa alienada, que descobriu o poder da mobilização ontem (melhor dizendo, desde junho de 2013), e que agora se acha provida de condições para, baseada em mentiras, demandar a saída de uma chefe de estado democraticamente eleita. Essa é a conjuntura nacional: mais crise política, menos crise econômica. E diante desse quadro, a revolta só serve para aqueles interessados em desequilibrar a nossa já tão desmoralizada democracia.
Anúncios