O país frustrado chamado São Paulo

Do facebook do MSPI.


Em 2012 escrevi um texto chamado “São Paulo: mostra a tua cara!“, no qual eu disse a seguinte frase: “Se o governo federal fosse menos bunda mole (e interesseiro), interviria em São Paulo.” Diante dos eventos das últimas semanas, continuo pensando da mesma forma.



O preconceito

O mapa da vereadora do RN Eleika Bezerra Guerreiro
Manifestação de uma Vereadora. Fonte: DCM.

Claro que quem me olha pensa: “esse cara não sofre preconceito! É um homem branco e heterossexual”. Eu não ignoro isso: sou nascido na capital de São Paulo, mudei-me muito pequeno para o interior, para Itapetininga. Mas minhas origens, minhas células, são 100% nordestinas, pois sou filho de pai e mãe paraibanos. Desde pequeno aprendi a conviver com a rica cultura do Nordeste em conjunto com a riqueza caipira inestimável do interior do Estado de São Paulo. Minha infância foi dividida entre o coco de Jackson do Pandeiro e a moda de viola de Tião Carreiro e Pardinho. 
Porém, além disso, desde pequeno também convivi com o preconceito. Lembro-me como se fosse hoje dos garotos da escola me pedindo para pronunciar o nome do estado, só para ouvirem – e rirem – quando dizia “Sum Paulo”, fruto da parcela do sotaque que absorvi dos meus pais. Demorei a perceber qual era o motivo da graça e, como todo bullying, quando a ficha caiu eu senti na pele a marca de ser ostracizado.
Durante um tempo colegas na escola me chamavam de “Pará”, um diminutivo de Paraíba e, claro, faziam piadas com isso. Como faziam com o menino negro, com o mais afeminado da sala, e assim por diante. Eu mesmo, admito, cheguei a praticar maldades contra colegas, reproduzindo cegamente esse círculo vicioso que é o bullying na adolescência – e ainda bem que a gente cresce. Mas hoje, quando olho pra trás, sinto uma angústia difícil de descrever, mas agora com uma origem mais clara para mim.
Dizer que paulista é preconceituoso não é generalização, é consciência histórica. – e, por favor galera, é óbvio que isso não quer dizer que todos sejam, sequer a maioria, e sim que o preconceito está lá, na raiz dessas relações, e se propaga. Posso dizer que eu não sou machista, mas a raiz do preconceito contra a mulher está na heterossexualidade masculina da qual faço parte, não se relativiza isso. Por isso, inclusive, que inicio esse texto comentando sobre o que me torna parte do grupo opressor: sou homem, branco e heterossexual. A única forma de eu entender a lógica do preconceito é reconhecendo que eu sou parte do grupo que é privilegiado por esse preconceito. Não se trata, porém, e aí há um ponto fundamental, de se ver como agressor, mas de se ver NO agressor, como parte do sistema de agressão e, consequentemente, como beneficiário desse sistema. Quando um negro perde a vaga de emprego pra mim mesmo sendo mais competente que eu, não apenas ele foi vítima do preconceito da sociedade, mas eu também preciso entender que sou privilegiado pelo mesmo preconceito. Reconhecimento é fundamental para podermos ter consciência crítica de como a luta funciona.
Aí você pode perguntar: “mas e quando uma mulher é escolhida no meu lugar? Isso não é preconceito reverso?” Isso é uma falácia, como dizer que um cara que xinga um branco pratica “preconceito reverso”. Se quer uma versão mais engraçada do que eu estou falando, tire dez minutinhos para acompanhar o grande Chris Rock botando as cartas na mesa, e depois volte para o nosso texto:


De volta? Ok, continuando:
Além de falácia, “racismo invertido” ou “preconceito reverso” é um argumento muito ofensivo. Esse é o argumento mais usado pelos preconceituosos hipócritas, que teimam em enxergar um equilíbrio de forças onde não há. A mulher em questão foi escolhida porque a sociedade é machista, meu caro, e prefere julgar a beleza dela ao invés da competência. Isso é tão óbvio que chega a assustar pensar que alguém ainda tenha a desfaçatez de colocar-se como vítima numa situação dessas. Mas pode ter certeza, acontece sempre: “fui preterido por causa das cotas” ou “os pobres vagabundos tem mais direitos que eu, que trabalho” ou ainda “bandido come e dorme às minhas custas”. Todas, TODAS essas sentenças tem a mesma origem, preconceito puro.
Além disso, há aquele também velho argumento de que não falar sobre o assunto o eliminaria por completo. Ou seja, a opção pela total passividade. É aquele mesmo que o ator Morgan Freeman expressa num vídeo que, olhem só, quase só vejo brancos compartilharem. Esse argumento é uma completa ignorância da essência do preconceito (que o próprio Freeman sofre, aliás), uma ignorância da lógica relação entre preconceito e opressão, que alguns tentam apagar por conta do suposto “discurso socialista/marxista” que o precede. Não se engane, isso não é um discurso de esquerda, mas um discurso de reconhecimento: o preconceito acontece do opressor em relação ao oprimido, ou seja, do rico contra o pobre, do branco contra o negro, do homem contra a mulher, do hétero contra o homossexual e, sim, do paulista/sulista contra o nordestino. Inverter essa equação é desonesto com a história de opressão desses grupos, e é necessário entender que o preconceito é uma via de mão única e, portanto, só existe um lado praticando preconceito, o do opressor; todo o resto é reação. Por isso que diversos militantes e estudiosos da questão afirmam que falar sobre racismo e qualquer tipo de preconceito é urgente, necessário e imperativo, posto que é uma das únicas formas de diminui-lo. Falar sobre isso envolve educação, não falar só gera o efeito contrário.
Ouvi piadas com a minha ascendência nordestina a vida toda e não tolero que se relativize preconceito, pois é o primeiro passo para a sua normalização. Quem defende o outro lado, em geral, age de má fé, querendo reverter a já desequilibrada balança do preconceito, como se houvesse um “outro lado do preconceito”. Cabe ao lado opressor reconhecer seu lugar e lutar contra isso com todas as suas forças, ao lado de quem sofre, e não relativizar o preconceito como se ele fosse apenas um jogo de futebol. E nós, oprimidos – e sim, a opressão é um FATO, não uma teoria -, quando aceitamos esse discurso, o legitimamos e permitimos a banalização da violência. Porque preconceito é violência, e ela tem que ser combatida o tempo todo.


A História



João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque
Fonte: Wikipedia
Ainda falando da minha ascendência, não sei se todos conhecem a história de João Pessoa, o homem que deu o nome à capital paraibana. Ele era um político importante da famosa época da República do Café-com-Leite, que rejeitou a opção feita por Julio Prestes para próximo presidente do país. O fato é que, segundo o rodízio que as oligarquias sustentavam, sempre um mineiro sucederia um paulista no governo, mas São Paulo quebrou esse rodízio. Essa política foi uma das principais responsáveis pelas diferenças entre Sudeste e Nordeste. 
Se você não lembra das aulas de História, cito a Wikipedia:



Ao manter para si a riqueza gerada pelas exportações, São Paulo, mais ainda que Minas Gerais, investiu fortemente em sua infra-estrutura e em seu próprio mercado. Criou, desta forma, um crescimento artificializado – segundo alguns analistas – ao contratar enorme dívida para manter o alto nível de exportações, São Paulo, portanto, financiava seu próprio sucesso através de empréstimos, depois pagos pelo Governo Federal por Getúlio Vargas. Sua infra-estrutura foi durante o período imensamente melhorada. O mesmo não ocorreu com outros estados, especialmente no Nordeste, ainda mais empobrecidos devido, não somente a sua falta de adaptação ao sistema capitalista do século XX, mas, também, à fraca distribuição de recursos por parte do Governo Federal.4 Assim, passaram a fornecer migrantes para o estado de São Paulo e outros da região Sudeste.
Tudo isso somado à grande e rápida concentração populacional explica as posições de destaque que Minas Gerais e São Paulo hoje possuem entre os estados brasileiros.

Pois bem, esse rodízio acabou quando o presidente paulista Washington Luiz apoiou a candidatura do também paulista Júlio Prestes, o que afrontava os mineiros. Minas aliou-se então à Paraíba de João Pessoa e ao Rio Grande do Sul, lançando o gaúcho Getúlio Vargas como candidato à presidência. O grupo formou a chamada Aliança Liberal, que gerou grande revolta nos paulistas. Em discurso na tribuna do Senado do Congresso Legislativo do Estado de São Paulo, em 24 de setembro de 1929, o senador estadual de São Paulo Cândido Nanzianzeno Nogueira da Mota disse essas palavras:

“A guerra anunciada pela chamada Aliança Liberal não é contra o sr. Júlio Prestes, É contra nosso Estado de São Paulo, e isso não é de hoje. A imperecível inveja contra o nosso deslumbrante progresso que deveria ser motivo de orgulho para todo o Brasil. Em vez de nos agradecerem e apertarem em fraternos amplexos, nos cobrem de injúrias e nos ameaçam com ponta de lanças e patas de cavalo!”
Cândido Mota citou ainda o senador fluminense Irineu Machado que previra a reação de São Paulo:

“A reação contra a candidatura do Dr. Júlio Prestes representa não um gesto contra o presidente do estado, mas uma reação contra São Paulo, que se levantará porque isto significa um gesto de legítima defesa de seus próprios interesses!”

Apesar da disputa, não houve pleito. No dia 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado por João Dantas, em Recife, o que foi o estopim para a mobilização armada, a chamada Revolução de 30, que depôs o governo e instituiu a ditadura de Getúlio Vargas. A capital da Paraíba ganhou o nome do político e bandeira paraibana traz, hoje, em grandes letras brancas, a palavra NEGO, que se refere ao verbo “negar”. O telegrama em que a homenagem da bandeira se baseia virou um símbolo da recusa de Pessoa a aceitar a imposição do governo de Julio Prestes:

Bandeira da Paraíba. Fonte: Wikipedia.

“Paraíba, 29-julho-1929

Deputado Tavares Cavalcanti:

Reunido o diretório do partido, sob minha presidência política, resolveu unanimemente não apoiar a candidatura do eminente Sr. Júlio Prestes à sucessão presidencial da República. 

Peço comunicar essa solução ao líder da Maioria, em resposta à sua consulta sobre a atitude da Paraíba.

Queira transmitir aos demais membros da bancada essa deliberação do Partido, que conto, todos apoiarão, com a solidariedade sempre assegurada.

Saudações:

João Pessoa, Presidente do Estado da Paraíba.”

O conflito Prestes-Pessoa é muito significativo para mim. Primeiramente por questões pessoais – se Pessoa é paraibano como meus pais, Prestes é paulista de Itapetininga, cidade onde cresci. Mas, mais importante, as palavras do senador Cândido Mota reverberam até hoje. Inveja do progresso, orgulho, defesa dos interesses… o discurso parece similar ao que vemos hoje? Não, não é mera coincidência, como comprovaremos pela sequencia dos eventos.
Durante o governo Vargas, ocorreu a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, na qual São Paulo se levantou com o objetivo de derrubar o governo de Vargas e elaborar uma nova Constituição para o Brasil. Em meio aos revoltados, surge um movimento forte pedindo a separação do Brasil. Um dos mais entusiasmados defensores da causa foi o escritor Monteiro Lobato, como deixa claro em um de seus textos, intitulado “A defesa da vitória de São Paulo”:

Após a vitória de São Paulo, na campanha ora empenhada, se faz mistér que seus dirigentes não se deixem embalar pelas ideias sentimentais de brasilidade, irmandade e outras sonoridades.[…] Ou São Paulo desarma a União e arma-se a si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional a seu talento e em seu proveito, ou separa-se.[…] Trata-se de uma guerra de independência disfarçada em guerra constitucionalista…’

Já falei bastante em outro texto sobre Lobato, figura polêmica de nossa história, capaz de ser ao mesmo tempo nosso maior escritor infanto-juvenil e um racista defensor da Klux-Klan. Ele chegou a afirmar, sobre o Brasil: “País de mestiços, onde branco não tem força para organizar um Kux-Klan (sic) é país perdido para altos destinos”(…). A partir daí se vê como o preconceito e o separatismo paulista andam lado a lado.
Apesar de terem sido derrotados, as marcas desse movimento permaneceram fortes no ideário paulista. Comemora-se em 9 de julho o feriado da Revolução, que traz a tona todo o ideal ligado ao pensamento separatista – e racista. É a enaltação da independência paulista, que se orgulha de sua imagem de locomotiva nacional, de seu lema “non ducor, duco“/”Não sou conduzido, conduzo”, estampado no seu brasão. É esse espírito que sempre volta a tona quando os paulistas se sentem ameaçados, como agora, com a reeleição de Dilma Roussef. Agora, paulistas saem às ruas pedindo a queda da presidenta e intervenção militar. Além disso, ouvem-se várias manifestações racistas contra nordestinos – os supostos “culpados” pela reeleição -, e vários pedidos de separação do estado. Nada disso é novidade, faz parte da alma paulista. Você, que me lê, pode pensar “mas eu não sou assim”. Mas lembre-se: reconhecer-se como parte do grupo opressor não te torna automaticamente um agressor, mas te faz ter a dimensão crítica da situação. 

Do facebook do MPSI.
São Paulo não tem água, não tem um bom sistema de transportes, sofre com corrupção e com uma educação cada vez pior e, mesmo assim, se orgulha de ter reeleito o Governador símbolo do partido anti-PT. São Paulo, preconceituoso por excelência, elegeu o PT como um aglutinado de tudo que odeia e rejeita, pois está tudo lá, sejam os nordestinos, na figura de Lula, sejam os movimentos revolucionários, na figura de Dilma. O PT é um amálgama do que São Paulo renega, mesmo que o partido tenha surgido no seio de sua capital, e por isso para o paulista a eleição de Alckmin é um orgulho, mas a de Dilma é uma afronta. Nunca importou quem era Aécio Neves, importava ao paulista que ele era o anti-PT, o símbolo de seu orgulho vazio e de sua impertinência sórdida. Também nunca importou a tal “democracia” ou a “alternância” que eles defendem – se importasse, o estado seria governado por outra pessoa agora. Paulista não gosta de democracia, gosta de mandar, como todo “sinhozinho”. Quando não manda, sobram duas opções: mudança à força ou abandono. Se a mudança não foi conquistada nas urnas, pede-se o impeachment da presidenta e a intervenção do exército, pois desde 32 São Paulo só sabe defender seus interesses na bala – talvez por isso a PM faça tanto sucesso aqui.
O paulista que vocifera contra o Nordeste hoje é da mesma estirpe de Lobato e Mota, é aquele que não consegue ver além dos próprios privilégios e interesses, que acha que todo o país tem uma dívida eterna com ele e que, por isso, quer decidir sozinho os rumos do país. Nem que pra isso crie uma nação de frustrados, um país triste chamado São Paulo. Nesse sentido, concordo com o jornalista Paulo Nogueira, do DCM: antes que seja tarde, o Estado precisa proteger a democracia. São Paulo aparece como ponta de lança de um movimento perigosíssimo, que pode fazer vítimas não apenas o nosso estado democrático, mas pessoas como meus pais, à mercê de tanto preconceito.
Eu, do meu lado, faço como João Pessoa: NEGO.
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