Caso eu seja agredido por ser de esquerda

Briga entre apoiadores de Dilma e Aécio, em frente ao Theatro Municipal (Foto: Michel Filho/Agência O Globo)


Pelo visto – ao menos pelas pesquisas, nas quais pouco confio -, Dilma Roussef será reeleita presidenta do país. E, com sua reeleição, acho que alguma reflexões deverão ser encampadas, especialmente por aqueles preocupados com a real mudança, não a alardeada por Aécio e Marina, mas aquela que posiciona-se além do que o PT conquistou – e das concessões nefastas que fez para tanto. E acho que, do meio dessa campanha louca, saímos com ao menos um saldo imediato muito negativo: o aumento da criminalização paranoica do pensamento de esquerda.

Podem até argumentar que há militantes doentios em todos os lados e sim, o há. Porém eu acho que a maioria dos militantes de esquerda mais radicais já migraram para legendas que melhor representam suas visões de mundo, como PSTU, PCB e PCO. No meio do caminho, com seu socialismo mais light e mais pé-no-chão, encontramos o PSOL. No PT os que bradam furiosos são poucos, em geral iludidos por uma ilusão chamada lulismo, que consumiu sua capacidade de reconhecer os erros inúmeros do partido. E não, não é o mensalão tampouco a Petrobrás, como querem nos fazer crer os que ainda acham que denúncia de corrupção ganha eleição. Os problemas são como o PT e aliados tratam os nossos índios, os gastos e a desocupação de famílias pobres para a Copa do Mundo (e as Olimpíadas, que estão chegando), a violência repressora dos movimentos que um dia encabeçaram, dentre outros absurdos. Eleitor que vote Dilma no domingo e esqueça disso ou é inocente ou é hipócrita.

Ademais de tudo isso, o que vemos é que a tal polarização que a Marina denunciava veementemente fez germinar a semente do ódio paranoico em muitos corações, especialmente aqueles que são atingidos apenas pelo filtro de Veja, Estadão e Globo, e que acham que o paradigma do bom homem é o Luciano Huck. Essa parcela da população que brada aos quatro ventos que, apoiando Aécio, “luta” contra o comunismo, precisa, a meu ver, ser observada com atenção. Claro que, à primeira vista, é um grupo de pessoas que sustenta um arremedo de Macartismo que, de tão anacrônico, soa vexatório. Mas com os eventos violentos que temos presenciado direcionados principalmente aos eleitores de Dilma Roussef, temo que possamos entrar num período de caça às bruxas – ou aos comunistas, como eles chamam todo o espectro de esquerda do país.

A postura infantiloide de muitos é reflexo direto de seus ídolos, todos crianças crescidas a fazer birra contra “tudo que está aí”, como Danilo Gentili, Lobão, Roger, Reinaldo Azevedo, Jabor, Constantino e outros. Todas pessoas ricas que sabem tanto de história quanto a religião do mercado lhes permite. E, como definiu muito bem Paul Krugman num texto chamado “Sobre a negação da desigualdade”, acima de tudo são sicários da plutocracia, ou seja, defensores incólumes dos seus ricos patrões, que incorporam uma paranoia absurda em seus discursos, seja por pura incompreensão da realidade, seja por interpretação de texto, ou por pura desonestidade intelectual. Querem um Brasil aos moldes dos EUA – não o que se recupera agora, mas o que quebrou há alguns anos, pela especulação financeira e a subserviência aos empresários. Uma imprensa que publica suas peças paranoicas não é apenas ruim, como inconsequente. Faz de seu poder, que deveria sustentar o que supõe-se seria seu papel, a informação e a reflexão séria sobre a sociedade, uma plataforma para a incompreensão da realidade. São criminosos, estelionatários da consciência.

E as pessoas moldadas dentro desse paradigma de paranoia anti-esquerdista nos saem verdadeiras bestas-fera, capazes de agredir um militante cadeirante, ou de bradar sem medo da sua própria desumanidade que eleitores de Dilma “voltem para a favela”. Acredito que há, como amigos já apontam, uma epidemia, quiçá uma histeria coletiva, que incha a votação do Aécio com uma multidão dessas bestas-fera, prontas para “lutar” contra o Foro de São Paulo, o Bolivarianismo, a Luta de Classes (inventada pelo PT), os Black Blocks (porque anarquistas também são petistas, claro) e outras sandices. Quando a adesão cega de uma parcela da população a um pensamento toma ares de esquizofrenia, é necessário refletir. Pois se Dilma vencer, essas pessoas terão que conviver no seio da “Revolução Bolivariana”, e eu temo pela sanidade de quem grita de olhar arregalado contra o comunismo em pleno Século XXI. São pessoas que são capazes de afirmar (e eu vi isso em uma postagem no facebook) que “votaria em qualquer um, até no Hitler, mas não votaria na Dilma Cubana”. Ou seja, são pessoas que não temem dizer que, contra o espantalho que construíram, votariam em HITLER.

O papel da esquerda, a partir de agora, é desconstruir uma parte do discurso do PT, por uma esquerda de verdade, que não solidarize com PMDB, com bancada ruralista e evangélica. E, por outro lado, tentar dirimir os danos dessa paranoia, que parece conduzir-nos para um caos que espero seja apenas mais um alarmismo meu.

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