A fé que soterra a razão: é urgente intervir nas Neopetencostais para salvar o Brasil

Fonte: Site de Edir Macedo

No meu doutoramento, concluído há dois meses, dediquei-me ao estudo, dentre outros temas, de dois aspectos singulares da cultura humana: magia e religião. Meu estudo focava-se em uma obra literária específica da Antiguidade grega, mas dada a natureza do trabalho optei por enveredar-me pelos estudos acerca desses temas fora da minha área de atuação, as letras. Especificamente, dediquei-me a ler obras de antropólogos, como Marcel Mauss e Lévi-Strauss, sociólogos como Émile Durkeim e historiadores da religião como Mircea Eliade, além dos especialistas em religiões gregas, como Jean-Pierre Vernant e Walter Burkert. O estudo desse tema me fazia, por vezes, voltar meus olhos para além do universo do politeísmo grego, posto que vivemos em uma sociedade que, mesmo tendo conquistado um espaço grande para o pensamento laico, ainda é muito religiosa. É inegável que a religião ainda é o centro moral da sociedade humana. E, não por acaso, ainda dita as regras em parcelas da nossa sociedade que, supunha-se, já teriam se libertado dessa influência, especialmente a política. A separação dessas esferas é, em uma democracia representativa como a brasileira, algo fundamental para que não aconteça o que está na foto abaixo, da cerimônia de inauguração do chamado Templo de Salomão, uma obra (polêmica) da Igreja Universal do Reino de Deus.

Fonte: R7
Não surpreende que nessa foto se encontrem Dilma Rousseff e Geraldo Alckimin, visto que ambos não são apenas presidenta e governador do estado mais rico do país, mas acima de tudo candidatos em plena corrida por suas reeleições. Longe de compactuar de coração com qualquer prática religiosa, eles estão lá marcando terreno em meio a um eleitorado fundamental, composto pelos mais de 1,873 milhão de fiéis da IURD (dados do IBGE). Fosse a inauguração de uma catedral católica, de um centro espírita ou de um terreiro de umbanda, ambos estariam lá. É o pragmatismo de uma política que, a cada dia mais, preza mais pela governabilidade que pela coerência e pela ética. Nisso, PSDB e PT não se diferenciam em praticamente nada: se o vice de Dilma é o PMDBista Michel Temer, o vice de Aécio é o ruralista e “guerrilheiro arrependido” Aloysio Nunes. Isso não é nada a se assustar, nenhuma novidade.
O que me causa arrepios são as presenças de representantes de todas as instâncias de poder nessa imagem. Temos STF, STM, o prefeito de São Paulo e a Polícia Federal. E, no centro disso, com sua nova e pomposa barba branca e um sorriso, o líder da IURD, Edir Macedo. A mensagem que isso passa, independente do que digam, é uma só: todos esses poderes reverenciam o todo-poderoso Macedo.
A imagem representa o tamanho do perigo que é a força de uma instituição religiosa como a Igreja Universal no país. Quando forças militares, policiais, políticas e jurídicas referendam uma obra cheia de problemas, capitaneada por um líder religioso conhecido por escândalos, elas simbolicamente apresentam ao país um sinal verde para Macedo seguir com seu trabalho sem ser incomodado. E, mais que isso, para que outros vários como ele sigam tranquilos, em sua missão de destruir o país. O neopentecostalismo é tão somente isso: mais que uma fé, uma máquina de estelionato, curandeirismo, atraso e que conduz o país para uma idade das trevas pior que àquela famosa pelas cruzadas. 

Não há instituição religiosa neopentecostal de sucesso que não tenha crescido sem investir na Teologia da Prosperidade. Do que eu estou falando? Como observa, em entrevista à Folha de SP, o professor do departamento de ciências da Religião, Ricardo Bitun:

A Universal é descrita por sociólogos e pesquisadores da religião como pertencente ao chamado neopentecostalismo – pentecostais que se distanciaram da antiga matriz pentecostal clássica como por exemplo as Assembleias de Deus e tantas outras. Utilizam a Teologia da Prosperidade -teologia que interpreta os textos bíblicos a fim de que os fiéis creiam que Deus tem saúde e bênçãos materiais para entregar ao seu povo-, como sua principal alavanca na conquista de novos fiéis, prometendo-lhes a riqueza terrena ao invés das futuras riquezas celestiais. As benesses do céu são para o “aqui e o agora”.
Essa é uma filosofia que nada tem a ver com alguns dos principais princípios defendidos pelo próprio Cristo, como atesta o próprio São Mateus: “Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões'” (Mateus, 21, 13). Bem, além dos ladrões de sempre, Macedo reuniu outros de vários partidos em torno de si. Palmas pra ele.
Mas, quando se tira o foco de Macedo, não encontramos nada de bom, pelo contrário. Figuras como Silas Malafaia, Marco Feliciano e outros já se acostumaram a achincalhar as conquistas democráticas do país como se fossem os novos autores das tábuas da lei. Em sua cruzada homofóbica – e não adianta o quanto argumentem, o que eles fazem não tem outro nome que não seja homofobia -, em sua luta pela criminalização do aborto, no cerceamento de direitos de minorias, no esforço preconceituoso contra as religiões afrodescendentes, essas figuras empreendem a principal missão do Neopentecostalismo, que é subjugar a democracia à sua moral conservadora e anacrônica. E sempre amparados em algo que eu chamo de sequestro psicológico da vontade de seus fiéis, dominando-os com um discurso opressor e sensacionalista. A promessa do sucesso em vida, da cura de doenças, de uma vitória em Cristo, é uma maneira de aprisionar o fiel, fazendo de seu desespero moeda de troca. E, claro, como tudo é uma relação meramente monetária, o fiel se vê endividado pela eternidade com a Igreja.
Fonte: R7
Nesse ponto, a fé se cruza com a magia, e enubla-se a distinção entre o sacerdote religioso e o feiticeiro. Como um curandeiro, o pastor vende seus poderes de cura em troca de dinheiro, de influência e prestígio. Macedo sabe disso, e sua parafernália atual recupera justamente o imaginário do sacerdote procedural, aquele que utiliza-se da imagem para conquistar a legitimidade de seus superpoderes. Não quero dizer que a barba longa e branca esteja remetendo a um Merlin ou Gandalf, mas que estrategicamente assemelha o bispo à figura do sábio antigo, especialmente o próprio Salomão. Não sabemos se o Salomão da Torá usava uma longa barba, mas esse arquétipo do sábio antigo se revela similar na maioria de suas representações, e de outros sábios como Moisés, Sócrates e Aristóteles. Salomão, mais que uma figura bíblica ligada às origens de Israel – e aí a indumentária judaica que o bispo ostentava no ritual e os candelabros de sete velas são fundamentais na construção imaginária -, é sobretudo um mago. E, como mago, Salomão é referenciado como subjugador de demônios – é a ele atribuída toda uma prática de dominação de seres demoníacos, o Lemegeton -, e essa incumbência cabe bem ao líder da IURD, e a todo o procedimento legitimado de exorcismo praticado nas neopentecostais. E, claro, o exorcista tem que ter seu demônio, e ele tem que ser bem palpável: doenças, problemas de locomoção, insucesso financeiro, insucesso amoroso e outros problemas são causados por demônios, em geral frutos de distorções de imagens sagradas da fé afrobrasileira. E, de tal modo, enquanto legitima seus poderes mágicos, o mago ganha mais poderes no mundo terreno.
De tal modo, o poder dos neopentecostais chegou a um ponto no qual, na minha singela opinião, se faz urgente uma intervenção. Não posso afirmar categoricamente sobre o dano psíquico que essa fé ocasiona – e é algo que eu gostaria muito de me debruçar sobre -, mas o dano que vem sendo causado à democracia brasileira, esse é inegável e precisa ser parado antes que não tenhamos mais volta – se é que ainda temos. A minha proposta não é apenas prender os criminosos, auditar as instituições e cercear os abusos. Penso que se faz necessário repensar a presença de certo discurso religioso dentro do estado democrático de direito. Longe de cercear liberdades, repensar como o estado deve lidar com o controle de mentes imposto por um discurso como o de IURD e companhia, que atenta contra os direitos da pessoa e lucra com isso. Isso passa pelo combate irrestrito ao neopentecostalismo, ou pelo menos, às instituições que usam da Teologia da Prosperidade. É uma filosofia nociva, que serve tanto a um país democrático do século XXI quanto Hitler. Não é uma questão de fé, mas de bom senso. Constituímos um modelo de sociedade fundamentado em direitos plenos e irrestritos, e eu sou contra o cerceamento da fé. Mas antes da suposta moralidade religiosa, vêm os direitos humanos, contrato social que foi estabelecido como um norte moral para a humanidade e que deve prevalecer sobre qualquer discurso, incluindo o da fé.
Acho que o simbolo maior desse dano reside justamente numa descoberta recente sobre o Templo de Salomão da IURD. Boa parte da terra contaminada que ameaça a área da USP Leste, em São Paulo, é dejeto do aterramento da área de construção do Templo. A fé soterrando a razão: uma triste simbologia para o nosso momento atual. E é dever de um estado democrático garantir que seus cidadãos não sofram o tipo de abuso que é PROCEDIMENTO da IURD e similares. Há países que já proibiram a operação das neopentecostais brasileiras, enquanto aqui Dilma, Alckmin e companhia dizem “sim senhor” pro mago Macedo. Passou da hora de expulsarmos os vendilhões do templo.
– E, por fim, interessante dissertação sobre a cura na IURD e os problemas psíquicos.
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