Precisamos falar sobre Olavo

O astrólogo Olavo de Carvalho, na Veja.

Um dia desses, compartilhei esse texto do Diário do Centro do Mundo sobre o autointitulado filósofo e ex-astrólogo Olavo de Carvalho. Dentre os comentários ao texto, um grande e inteligentíssimo amigo – daqueles que fazem você ainda ter vontade de permanecer no Facebook – ofereceu-me uma peça para a reflexão: a fama do pensador conservador é responsabilidade de seus seguidores, apelidados de olavetes, mas também da esquerda dá ibope para ele, rebatendo as coisas que ele diz, que são evidentes inverdades, baseadas numa percepção simplista da relação de forças entre esquerda e direita. Segundo esse amigo, Olavo tem ideias tão fracas que deveria ser ignorado pelos seus detratores.

Eu penso o exato contrário, e esse texto serve pra explicar o porquê.

Antes, preciso fazer um recapitula.
Eu estava esses dias acompanhando discussões internéticas acaloradas num dos grupos do Facebook dedicados à universidade onde estudo. A motivação? Uma postagem de um homem, defensor ferrenho do livre mercado, adepto das teses de Ludwig Von Mises e, acima de tudo, detrator de todo pensamento de esquerda. Na mesma época, repetiam-se diariamente os exemplares de oratória conservadora da jornalista e âncora do Jornal do SBT, Raquel Sheherazade, até o ponto em que ela defendeu abertamente a ação de justiceiros no RJ, que decidiram agredir, mutilar e imobilizar um menor que supostamente havia cometido crimes naquela região. Também acompanhamos o caso da médica cubana Ramona Matos Rodríguez que desistiu do programa federal “Mais médicos” e pediu ajuda ao deputado do partido DEM Ronaldo Caiado, conhecido opositor do governo, para entrar com uma ação trabalhista contra o governo, acusando-o de ferir seus direitos no contrato com Cuba. E, falando em deputados, vimos notícias do término do polêmico mandato do deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano como líder da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que gerou nova polêmica pela possibilidade de seu substituto ser o deputado Jair Bolsonaro, ferrenho defensor do regime ditatorial militar, opositor ainda mais pesado das causas da comunidade LGBT que o próprio pastor. Além disso tudo, há mais ou menos uma semana, acompanhamos o primeiro beijo entre dois personagens homossexuais masculinos em uma novela da Rede Globo, o que gerou tanto elogios e comemorações como diversos ataques de setores inconformados com a “propaganda” a favor dos gays. E, para terminar essa sequência não cronológica de eventos, ocorreu no sábado, dia 1º de fevereiro, uma invasão de torcedores ao centro de treinamento do Corinthians, na qual diversos homens realizaram furtos, ameaçaram e agrediram jogadores e funcionários do clube, pela situação complicada que o time vive na lanterna do Campeonato Paulista de Futebol.
Todas essas situações, aparentemente não associadas diretamente, geraram manifestações na internet. E as manifestações, de apoio ou rechaço, são todas em geral tão explosivas quanto as bombas da polícia militar na repressão de manifestações: nem sempre matam, não impedem a continuidade das manifestações, mas causam danos graves e mais revolta. O fato é que a acirrada disputa que surge nas redes sociais e na mídia entre esquerda e direita é reflexo, a meu ver, da popularização do discurso de certos pensadores, especialmente o Olavo de Carvalho. E, mais que isso, todas essas situações e as reações que elas geraram também são consequência do que ele e seus seguidores tentam impor ao pensamento nacional. O que alguns enxergam como uma fanfarronice, eu enxergo como uma agenda política, clara, mas desorganizada. E os seus alvos são o pensamento tradicional da esquerda, os movimentos sociais, que ganharam força com a subida do governo do PT ao poder, e o próprio governo. E por isso penso que, ignorando Olavo, estamos ignorando algo que pode ser muito mais nocivo que qualquer Feliciano ou Bolsonaro, porque está por trás deles, dando munição para as suas sandices.
Olavo não é aceito em nenhuma universidade brasileira séria do país – até porque o próprio afirma que nenhuma universidade brasileira presta e que ele é maior que todos os nossos pensadores – , mas ele já está entrando sorrateiramente nelas por meio de seus admiradores. Eu escrevi um texto, há um tempo atrás, sobre o jovem da UFSC que escreveu um “manifesto” contra a exigência de Marx no seu curso. A carta desse jovem era um exemplar de todo o pensamento de Olavo, e expunha claramente como os seguidores dessa filosofia anti-esquerdista estão efetivamente se organizando de alguma forma: o jovem em questão escreve para um blog chamado União Conservadora da UFSC. O que soaria anedótico no universo de nosso ensino superior é apenas um diagnóstico de que Olavo tem influência, importância e principalmente espaço para agregar seguidores em qualquer nível de escolaridade. Seus tentáculos se estendem para além de seus vídeos no YouTube.
Nesse mesmo texto, comentei como a popularização e a ampliação da internet promoveram o acesso de muitas pessoas a vários pensamentos diversos dos conteúdos presentes nas universidades, e como as redes sociais permitiram o contato entre pessoas com ideias similares. Olavo de Carvalho está presente no universo nacional há muito mais tempo que o YouTube, mas foi o fato dele ter um site para divulgar suas ideias e uma série de vídeos que o popularizou para além do universo dos admiradores do pensamento conservador. Como observei no texto supracitado – e advogo o direito de copiar as conclusões que realizei nesse texto -, com a dinamicidade do acesso a informações que a internet promove, diversos pensadores que se alinhavam a um espectro conservador direitista começaram a tomar conta de espaços midiáticos virtuais e assimilar o discurso do Olavo. É só prestarmos atenção que veremos que não apenas o discurso do jovem da UFSC, como a maior parte dos discursos conservadores de Sheherazade, Feliciano, Bolsonaro, Caiado e etc. se alinha em maior ou menor grau ao que o Olavo de Carvalho professa, com a mesma exata terminologia – à exceção de alguns palavrões.
Uma das motivações desses seguidores de Olavo é a suposta marginalização de qualquer projeto de pensamento que divirja do modelo assumido e professado nas academias universitárias brasileiras. O conhecido compadrismo da academia mina qualquer reflexão divergente daquela consagrada nos departamentos universitários, sejam eles de esquerda ou direita. Apesar de sabermos que há uma tradição a zelar – e não se deve esperar a substituição do pensamento de Celso Furtado pelo de Von Mises, mesmo que o último seja um economista sério e não um conhecedor superficial das teses que defende, como Olavo -, é importante salientar que nossos professores e pesquisadores da universidade brasileira em geral buscam garantir os seus privilégios em relação ao pensamento intelectual produzido. Por isso, inclusive, que muito desse pensamento é mera reprodução, com pouca novidade em relação ao que se produziu nos anos 60 e 70.
Essa postura gera revolta nos setores que advogam a mínima representatividade no debate intelectual brasileiro, e os faz rejeitarem o modelo de universidade que se construiu no Brasil. É evidente, para qualquer observador, que a universidade é alinhada ideologicamente, e que há um conflito sério em sua estrutura, consequência do crescimento dos valores ligados ao universo do mercado dentro dos cursos universitários. Há um conflito inevitável entre a universidade como produtora de bens de consumo e mão-de-obra especializada, a necessidade do sistema capitalista, e como fomentadora de filosofia, educação e estimuladora de reflexão, na sua base iluminista clássica. E é por isso que comumente se dá um valor muito maior a um profissional de uma área tecnológica que a um historiador, sociólogo ou geógrafo que, quando reduzidos ao seu papel de força de trabalho, se encontram com sua atuação restrita ao universo da educação. A lógica de mercado, imediatista, exclui o pensamento ideológico tradicional da universidade, especialmente aquele que fundamentou os cursos de humanas, em sua maioria alinhados ao pensamento de esquerda, e os substitui pelo seu imediato contrário – que não raro encontra nos argumentos completamente descabidos de Olavo de Carvalho um sustentáculo filosófico superficial para a sua cruzada. Olavo é mais maquiagem de pensamento que pensamento em si, mas encontra brecha na fraqueza filosófica da lógica mercantil para impor uma teoria toda fundamentada em incongruências e histrionismo.
Mas há uma outra motivação, que está por trás do ataque ao jovem no RJ e da defesa de Raquel Sheherazade ao ato: a nossa enraizada cultura do linchamento e do vigilantismo. Há um excelente texto de José De Souza Martins, Professor do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP, compartilhado por amigos meus no Facebook – como eu disse, por eles que eu não largo essa rede social – que traz um quadro bem claro dessa cultura, com histórico e dados das ocorrências. A conclusão do texto é exatamente o que liga Sheherazade, os justiceiros e Olavo de Carvalho:

A crítica conservadora ao mundo moderno, que seria o mundo da multidão, presente na interpretação leboniana, não tem condições de revelar que o próprio mundo do conservadorismo e das concepções tradicionais ganha uma força patológica evidente nos casos de linchamento. As concepções totalizantes e orgânicas que mediatizam três quartos dos casos de linchamento, que são concepções conservadoras, têm nos linchamentos um desdobramento sombrio. Não só pelos crimes em si que os linchamentos efetivamente são. Mas, sobretudo porque os linchamentos nos revelam que esta sociedade é incapaz de abranger em laços de tipo contratual, na reciprocidade de direitos e deveres, grandes parcelas de sua população: mais de 260 mil brasileiros participaram de linchamentos nas duas últimas décadas. Nesse cenário de urbanização inconclusa, insuficiente, patológica e excludente, de relações sociais essencialmente mediadas por privações, os processos sociais regeneram com facilidade significações arcaicas que revestem de alguma coerência um modo de vida que, mais do que contraditório e excludente, é carente de sentido. Como vários depoimentos revelam, é o que dá à consciência dos protagonistas da injustiça do linchamento a certeza de que participaram de um ato moralmente justo.

Essa crítica conservadora ao mundo moderno, calcada no conceito do moralmente justo, é o que fundamenta a filosofia de Olavo e dos demais. É um modo de conceber as coisas no qual a moralidade – especialmente a cristã, conservadora e liberal – substituiu a ética e a ideologia, e atribuiu a essa última a responsabilidade pelo estado atual das coisas, especialmente a violência e a suposta degradação moral. É claro que essa é uma crítica circular: a degradação moral é consequência direta de se conceber que certo comportamento é degradante em relação a uma moral escolhida. Um exemplo disso é a crítica ao comportamento homossexual, que depende exclusivamente de uma moral que considere a existência de um comportamento “normal” e penalize seus desvios. Todas as teorias levantadas para defender um suposto desvio no comportamento homossexual são subjugadas a essa moralidade, mas o desvio só existe porque se elegeu essa moralidade como ponto de partida. É uma postura que é defendida como algo irrefutável – e a irrefutabilidade é central no pensamento de Olavo – porque recai sobre si mesma. De tal modo, é dogmática e acaba por se mostrar uma não-filosofia.
A defesa do linchamento, da vingança, do justiçamento, estão ligadas de modo patológico ao pensamento conservador. Isso não quer dizer que todo conservador necessariamente é defensor dessas práticas, até porque elas foram assumidas por defensores do pensamento libertário também, em dados momentos. Mas o específico universo da jornalista do SBT, dos invasores do CT do Corinthians, dos espancadores do menino no RJ, é centrado numa maneira conservadora de ver o mundo. E isso tem paralelos com o pensamento de Olavo na medida que este, em seus inflamados discursos, defende o linchamento moral de todo o pensamento de esquerda. A mesma bandeira de que bandido é mau por natureza se ergue para o “marxista” – termo entre aspas pela banalização que Olavo faz dele -, pois este, defensor de “assassinos” como Che e Stálin, defensor do regime castrista ou chavista, é cúmplice e propenso criminoso. A mesma lógica se aplica ao termo “esquerdopata”, com o qual o articulista da Veja Reinaldo Azevedo demoniza todo o pensamento de esquerda. Ao considerar o pensamento de esquerda uma “patia”, ele interioriza a ideia de que o esquerdista é um doente, que pode ser “curado” com a filosofia contrária – se não quiser se curar, é mau-caráter e merece ser execrado e expulso de qualquer debate. Para não dizer que a única defensora dessas ideias dentro da tevê brasileira é a âncora do Jornal do SBT, a mesma emissora traz, em suas afiliadas, gente como Luis Carlos Prates e Paulo Eduardo Martins, que reproduz o pensamento de seu mentor no vídeo abaixo:

O fanatismo dessa ala conservadora não seria tão perigoso se não estivesse presente e conquistando cada vez mais espaços. A minha compreensão, que conduz esse texto, é de que é um movimento que, mesmo desorganizado e com bases filosóficas e argumentativas falhas, tem força de convencimento e por isso seu crescimento é extremamente nocivo. Não se via tanta gente fora dos meios universitários mencionar Von Mises antes de Olavo e cia o elegerem como guru do conservadorismo, e isso demonstra que o filtro de Olavo funciona muito bem. Se fala pouco e quase nem se debate com seriedade o crescimento desse pensamento mais fanático por se considerá-lo algo evidentemente farsesco e carnavalesco, mas essa postura é um pouco ingênua. O Roda Viva, por exemplo, clássico programa de entrevistas pelo qual já passaram grandes pensadores, se tornou porta voz da revista Veja quando foi assumido por Augusto Nunes. Lá, desfilam conservadores, como o músico Lobão e Tuma Jr. E tudo isso passa, de alguma forma, pelo crescimento de Olavo de Carvalho como uma figura referencial para essas pessoas. E não demora muito para que, motivados pelo histrionismo de seu líder, esse grupo exija espaços como o da universidade, participem da vida política nacional e se coloquem como porta-vozes de uma parcela da população que tem visto neles a salvação da “esquerdopatia”. Não é paranoia, ainda mais se considerarmos como o próprio grupo evangélico radical conquistou espaço dominando a mídia e a política, e fez impor-se sua vontade em questões fundamentais dos direitos humanos no país. Se Olavo de Carvalho saísse de sua torre de cristal americana e se candidatasse a um cargo legislativo no momento atual, provavelmente ganharia. Debate-se na universidade o seu “pensamento”, em paralelo à pesquisa científica séria produzida no âmbito acadêmico. Para mim, é notório que a sua influência deixou de ser restrita ao universo das polêmicas virtuais e começou a se expandir para outras frentes, especialmente o discursos de figuras midiáticas. Uma coisa é alguém compartilhando isso na minha timeline do Facebook, outra é Gentili, Lobão, Scheherazade e outros falando essas coisas na tevê, pra milhões de pessoas que não tem a nossa instrução nos assuntos que ele aborda. Como outro amigo disse, ele é um ser caricato e paspalhão, mas quando a maioria das pessoas é mal informada politicamente, isso pode ser perigoso. Meu medo é aquela velha máxima da mentira que repetida diversas vezes vira verdade.

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