Rolezinhos: um diagnóstico de uma sociedade doente

Essa foto na verdade é do antigo Cinema Marabá, em São Paulo, mas serve como ilustração de como era o Cine Itapetininga
Eu não tive uma adolescência em shoppings. Eu morava em Itapetininga, cidade do interior de São Paulo, que na época não tinha um estabelecimento do tipo. Quando ia a algum shopping era com meus pais, em Sorocaba, pra fazer algumas compras, especialmente no Carrefour. Quando eu saí de Itapetininga, começaram a construir o shopping da cidade. Hoje o prefeito de lá é justamente o dono do shopping.
Só me lembro de uma coisa que esse shopping fez: o cinema antiquíssimo da cidade foi demolido e transformado em um estacionamento. O cinema dava pra um calçadão enorme, que desembocava numa praça. Demorei para querer assistir cinemas em shoppings justamente por isso, por revolta mesmo. Achava um absurdo demolir um cinema pra substituir por essas salas pequenas e padronizadas de shoppings. Eu juro pra vocês: o cinema de Itapetinga tinha uma sala em que cabiam umas 200 pessoas, bem espaçadas. Possuía um mezanino gigante em cima, e uma arquitetura que lembrava  uma versão mais modesta dos grandes teatros do início do século XX. Sua tela era o triplo dessas de cinema de shopping (eu conheci o IMAX bem antes de muita gente). Assisti lá desde os filmes dos Trapalhões mais clássicos até Rei Leão. Haviam sessões de cinema que eram pagas com passe escolar, pra estimular a molecada a ver filmes, e muitas vezes você podia ficar no cinema de uma sessão pra outra pra ver dois filmes em seguida. Ninguém sabe o que é isso hoje em dia.
Essa, se não me engano, foi a primeira vez na minha vida que eu senti certa consciência política contra algum tipo de símbolo capitalista, ou que eu reconheci no avanço do capital um perigo que podia minar as coisas que eu amo e que fazem parte da minha vida. Posso dizer que foi uma das primeiras vezes que eu me revoltei de verdade contra o sistema.
E sim, esse texto é sobre os rolezinhos.

Todo mundo deu opinião sobre os rolezinhos. Não sei se tenho algo mais pra contribuir pro debate, de verdade, cheguei tarde nele. Eu destaco quatro excelentes textos para refletir antes de falar sobre isso: do amigo Victor Caparica, no Cego em Tiroteio, do Leandro Beguoci, no OENE, de Gabriela Leite, na Carta Capital e o da jornalista Vanessa Bárbara, da Folha de S.P. Com esses quatro, você já terá argumentos suficientes para entender o cerne da questão.
Mas, talvez o texto mais importante para qualquer discussão sobre o tema seja mesmo o de Rodrigo Constantino, colunista da Veja, o qual eu me recuso terminantemente a por o link. O texto dele é um exemplo de como pensa uma parcela das pessoas que apoiaram as ações da polícia e dos shoppings contra os tais rolezinhos. Não vou reproduzi-lo porque ele é muito mais um diagnóstico que uma reflexão: é um diagnóstico de uma sociedade doente. E esse texto vai ser sobre isso: sobre como uma parcela significativa de nossa sociedade enlouqueceu.
Se você duvida de mim, leia o seguinte parágrafo do texto de Constantino, o único que eu me permitirei reproduzir:
“Não toleram as “patricinhas” e os “mauricinhos”, a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização”
Parte da população pensa assim, afirma que os jovens do rolezinho são seres inferiores, bárbaros que tem inveja da civilização. Eu queria sinceramente saber se a Veja e o senhor Constantino podem mesmo, numa sociedade democrática, defender claramente que uma parcela dos seres humanos do país é inferior à outra por causa de sua posição social. É aquele tipo de texto que deveria sempre servir de exemplo pra quando alguns setores da chamada nova direita – que só é formada por gente velha, aliás – dizem que a esquerda banalizou o uso do termo fascismo. Mas, como eu disse, isso não é uma reflexão, é um diagnóstico.
Eu acho interessante pensar em como funciona a cabeça de pessoas que defendem algo assim, ou seja, alguém que defende um cidadão que olha pra cara de qualquer pessoa e diz “eu vou arrebentar você” e, na sequência, a agride deliberadamente. Excetuando no contexto de um ringue de lutas, que se pode considerar como um contrato social no qual as duas partes concordaram em se agredir – e se isso é válido ou não, não é a questão aqui – gostaria de saber em que contexto agredir deliberadamente alguém é algo válido, justificável! Em que contexto uma agressão deliberada, um chute, um tapa na cara, um cacete na cara é algo diferente de uma mera agressão deliberada? Se eu uso da força e do poder que me outorgaram para defender alguém contra a violência da sociedade, e acabo desferindo um golpe em um meliante, eu estou com a razão. Minha ação violenta foi meramente uma consequência, uma necessidade da situação urgente. Agora, se eu bato por bater, porque eu acho que aquela pessoa merece apanhar e ainda afirmo com todas as letras que “eu vou arrebentar” aquela pessoa, isso demonstra apenas que eu sou alguém com sérios problemas psicológicos, no mínimo. E eu posso confiar, de verdade, em alguém que tem a coragem de ameaçar um moleque de 15-17 anos, de agredi-lo e humilhá-lo apenas porque ele estava onde, supostamente, não deveria estar?
O que me chama mais a atenção é essa defesa cega do uso de violência contra alguém, contra qualquer um. Defende-se amplamente por aí que se deve matar, agredir e torturar seres humanos por seus crimes. Policiais que matam bandidos são vistos como heróis. Gente como Conte Lopes faz parte da câmara de vereadores de São Paulo. Manifestantes pelos direitos dos animais queriam submeter prisioneiros a testes de remédios e cosméticos no lugar dos bichinhos. As pessoas que agem assim, que defendem esse tipo de postura, assimilam um discurso perigosíssimo, no qual segurança não é proteger e prevenir, mas retaliar, se vingar, agredir. Toda vez que um acusado de estupro vai preso, por exemplo, dezenas de pessoas cercam as cadeias e pedem o “Judas” para linchar! Vivemos numa sociedade que legitimou a vingança e o linchamento como práticas morais, punitivas e efetivas. Pessoas que não tem medo de falar que bandido bom é bandido morto, ao contrário, tem orgulho. E nesse contexto a polícia me parece ser exatamente os agentes que vingam os “cidadãos de bem”, não os que os protegem. Isso é LOUCURA!
Em 1992 a polícia invadiu o presídio do Carandiru em São Paulo e matou 111 presos. Muitos aplaudiram, ate hoje aplaudem. Viram naquilo uma solução para os problemas da violência? Não, estavam apenas saciando sua sede de sangue, sua vontade de se vingar da violência, uma violência sem rosto, apenas com cor… geralmente negra.  O falecido coronel Ubiratan, que comandou a ação, chegou a se eleger vereador da cidade com o macabro número 14111 e foi tratado com herói por muitos. O que ele fez surtiu algum efeito? Bem, o evento trouxe apenas uma consequência: o crescimento de um movimento organizado dentro dos presídios que deu origem, dentre outras coisas, ao PCC. Nenhum presídio brasileiro sofreu mudanças significativas em sua estrutura e no modelo de tratamento dos presos, nem pra pior, nem pra melhor. O resultado… bem, é só ver o que está acontecendo no Maranhão.
Toda vez que a solução aventada para resolver o problema da criminalidade no país foi reagir com violência, a solução não veio. Se veio, foi algo paliativo que em pouco tempo originou uma situação pior que a anterior. Isso porque, e aí vem o ponto mais crítico, as pessoas não querem efetivamente resolver nada.  Se eu chego com um plano que claramente resolve o problema, mas ele não é derivado desse pensamento de “bandido bom é bandido morto”, essas pessoas não vão querer saber se o plano é bom. Elas não querem mais segurança, elas querem vingança. Praticamente ninguém que ostenta esse discurso se importa com a segurança de verdade, a maioria deles não tem uma visão distorcida do que é segurança. Na verdade, eles não querem é ter contato com o problema. Eles não querem efetivamente que se prenda e julgue criminosos, eles querem que o incômodo vá embora, que não sejam obrigados a conviver com algo que os faz lembrar que são humanos como eles os criminosos. Na verdade, e aí eu taco a merda no ventilador mesmo, tem muita gente que sequer se importa em distinguir marginalizado de marginal. Eles não querem evitar que as lojas do shopping sejam quebradas, que os seus pertences sejam roubados, eles querem evitar de ter que ver e ouvir e cheirar o moleque da periferia. Os vidros de carros blindados não são escuros apenas pro bandido não ver o que tem dentro, é pra quem está dentro não ver o que está fora.
Aqui perto da minha casa tem um centro de apoio a deficientes físicos, na calçada do qual desde mais ou menos metade do ano passado mora um mendigo. Ele só tem poucas roupas velhas e um colchão, e o máximo de contato que tenho com ele é quando passo por algum lugar e ele dá um seco “bom dia” e quando ele pede comida ou dinheiro. Ele não faz efetivamente nada que incomode alguém, vive a vida dele. Se ele destrói algo, é a si mesmo, pois como muitos mendigos ele é usuário de drogas. Mas eu já ouvi muitos vizinhos aqui dizendo que ele rouba pra comprar as drogas, algo que eu até não duvidaria, mas nunca vi acontecer. Muita gente, inclusive, já defendeu que se deveria tirar ele de lá, pois ele representava um perigo. Eu acho que, se por um acaso ele realmente fosse um bandido, um cara desnutrido e alterado pelo entorpecente como ele, se tentasse me atacar de alguma forma eu botaria ele no chão com facilidade, e eu tenho a habilidade de luta de um pepino-do-mar. Mas ele é uma ameaça por existir, porque a madame passa lá e vê ele, sente o cheiro, e a sua presença grita na cara dela que o mundo dela não é limpinho e perfeito. O mundo dela não é um shopping.
Eu optei escrever esse texto por essa perspectiva porque é isso que mais me incomoda. O rolezinho em si é uma convocação à farra, à diversão, à festa hormonal da adolescência. Ostentar é fazer-se ver, é ser visto, nenhum desses moleques quer fazer a revolução “marxista cultural” que tanto amedronta Olavetes de plantão. Esse moleques querem dançar, causar e dar uns amassos nas suas gatinhas, só isso. E quem não quer, com seus 15 anos? Eles não foram pro shopping nem pra roubar, nem pra fazer a revolução: eles foram porque, no universo deles, as gatinhas curtem um cara com boné da Oakley e um Mizuno. Na minha adolescência era assim também, só mudava o produto. Eles querem impressionar e curtir, fazer a festa que é ser um moleque. Isso é o básico, faz parte do crescimento, é o direito a ser um adolescente, a se divertir. Não vou comentar isso porque é o óbvio, o direito à diversão, algo que todo mundo tem mas que a gente não consegue exercer, porque a maioria das cidades tem mais praças que shoppings, mas as praças são em geral um buraco pior que o outro.

Mas, se tudo isso, pra você, é mera “defesa de bandido”, eu não tenho mais argumentos. Você é simplesmente alguém que não sabe do que está falando e eu não vou debater com você. Você faz parte dessa sociedade, de Constantinos e Ubiratans e não merece meu respeito.

Eu só queria que vocês pudessem ter visto os rolezinhos de 97, pra ver um filme no Cine Itapetininga, depois curtir um tempo na praça do calçadão comendo um bolinho de frango e gastando umas fichas no fliperama. Eu só queria que vocês lembrassem como a vida era antes dos shoppings, sem nostalgia barata, só pra lembrar. Só pra lembrar que vocês também já quiseram impressionar um gatinho ou uma gatinha.

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