A mudança às vezes não parte de você

A mudança está a venda aqui.

Vejo muita gente falar em mudança. Vejo textos pregando renovações na vida, busca por novas metas, objetivos, verdadeiras revoluções do ser. Esses textos motivacionais em geral são genéricos e vazios, sustentando-se ora em esoterismos baratos, ora em clichês da gestão administrativa – eca – e de um pseudo-psicologismo reducionista. Isso porque a maior parte dos gurus que pregam a mudança lidam com a vida como se ela fosse regida por fórmulas, por modelos que são aplicáveis a todos os seres, como num gigantesco quebra-cabeças cujas peças estão demarcadas e cujo desenho final é sempre igual, pois todos nós sofremos as mesmas angústias do mesmo jeito. Esse “lego” da autoajuda serve como um discurso acalentador para alguns, mas pra mim é algo que soa cada vez mais hipócrita.

O que esses textos suscitam na maioria das vezes não são reflexões sobre o nosso lugar no mundo e sobre nossa percepção de nós mesmos, mas sim um reconhecimento de fracasso pessoal aliado a uma busca por uma realocação de nossas existências em relação a esse universo de sentido – um universo artificial, delimitado por padrões muitas vezes comerciais. A maior parte dos textos desperta nas pessoas ou um imenso comodismo, em aceitar as coisas como elas são e esperar que as verdades caiam do céu – ou venham pelo pensamento positivo – ou eles nos levam ao equívoco de queremos mudar o que não precisa ser mudado, e mantermos tudo aquilo que poderíamos efetivamente mudar. Isso é muito culpa de darmos mais valor as impressões que os outros tem da gente – e, no caso, as impressões que certas pessoas tem de que todas as pessoas são iguais – ou as impressões que temos dos outros, que efetivamente jogar um olhar objetivo sobre o que somos, o que podemos e o que queremos de verdade. Não se traçam planos na vida baseados apenas em adversidades, mas não se faz nada sem levar em consideração que elas existem. 
O que eles, os gurus motivacionais, querem – além do seu dinheiro – é te incutir na cabeça que o erro é seu, que o problema é pessoal e que a saída é responsabilidade sua. Eles jogam o peso do mundo nas suas costas, e te dizem que se você não consegue carregar, a culpa é sua. Oras, como posso ser um Atlas moderno se não tenho forças para me erguer, se me falta dinheiro, comida, oportunidades? É como vender um livro a um analfabeto e esperar que ele vá aprender a ler só por ter o livro em mãos. Eu odeio esses textos que tiram o foco do “nós” e levam o foco pro “eu”, como se todos os problemas do mundo fossem coisas individualizáveis. Como aquele cara que diz “antes de mudar o mundo, mude a si mesmo”. Isso, na verdade, acaba sendo uma maneira de deixar o mundo em segundo plano, não é? Individualizar um problema não é apenas fugir dele, mas delegar ao mérito algo que muitas vezes é consequência de um contexto social, cultural ou mero azar! Nada mais é que uma visão reducionista e individualista da vida.
Atlas

Além disso, mudanças não são necessárias, elas acontecem simplesmente porque nós, os objetos, a vida, o universo, tudo muda mesmo. Nós não somos obrigados a mudar junto, nem a nos adaptarmos, mas temos sim que entender as mudanças, buscar reavaliar-nos diante delas e repensar a cada momento nossas ações. Entender e depois construir algo partir disso, seja construir sentidos novos para nós, seja recuperar sentidos perdidos ou ainda manter aqueles que ainda fazem sentido. Ou as três coisas! Não comprem o discurso dessas pessoas que pregam a revolução pessoal, essa revolução não existe. Não se muda nada de dentro pra fora, isso é um discurso vendido com o único objetivo de não permitir que você mude efetivamente nada. É claro que uma boa transformação é importante, e às vezes, nos momentos de angústia, ela parece necessária. O que eu estou querendo dizer é que essa mudança de atitude, de comportamento, não é uma mudança do ser, é apenas uma realocação por conveniência. A hora em que VOCÊ achar que deve mudar algo, mude! Mas não caia no conto do vigário, de que SOMENTE uma mudança pessoal pode mudar as coisas. O que existe, o que pode ser fomentado, transformado, repensado é o nosso senso crítico, consciência, autoanálise e autocrítica. Precisamos nos enxergar como seres redondos e não como peças de um quebra-cabeças falho. Precisamos ter um olhar holístico para conosco e com o mundo e, se necessário, intervir. E quem decidirá o necessário não será o guru da autoajuda.
Acima de tudo, a opção por mudar efetivamente é assumir um compromisso. Não é simplesmente comprar um livrinho na banca, ler um texto na internet e passar a ser uma pessoa melhor. Mudar é efetivamente se libertar de recalques, de preconceitos, de filosofias. É abrir os braços para o novo, o desconhecido, o incerto. Uma pessoa que se casa muda de lar, muda de companhia, muda de nível de relação com os pais e com o parceiro. Toda mudança implica numa responsabilidade que não podemos delegar ao outro, ela é responsabilidade nossa. Mas ela acontece mediante confiança: em si e nos outros. Não somos seres individuais, somos seres sociais. Não se muda nada, nem no mundo, nem em nós, sem confiarmos parte dessa mudança para os que nos circundam. Por isso obrigar-se a mudar, e principalmente, a mudar para um modelo que não nos é natural, para algo que não nos agradará e não nos proporcionará frutos, não é mudança de verdade. Você só sabe que mudou quando alguém diz que você está mais bonito? Então você não mudou nada, você se adequou. Mudar é superar a adequação com criatividade.

O que eu acho da mudança? Bem, eu não enxergo mais as coisas na minha vida como espectros estanques e indivisíveis. Eu corroboro o Morrin quando ele fala que o “todo é ao mesmo tempo maior e menor do que a soma de suas partes”. A perspectividade não é uma opção, todo olhar é perspectivo. Então eu enxergo a mudança sob duas perspectivas básicas, que quis expor nesse texto: a primeira, a mudança interna, como eu já dissertei, eu acho que não é peremptória como querem fazer-nos crer os discursos dos gurus; a segunda, a mudança externa, é urgente. Vivemos numa sociedade na qual este texto que eu estou escrevendo é um produto, no qual ele pode ser vendido como “remédio” para os males da mente humana. Isso é odioso. A paz em nossas vidas não deve depender de um produto cuja única função é nos dizer que somos fracassados ou vitoriosos e que devemos ou tomar atitudes ou aceitar o que nos é imposto. Não somos marionetes, somos seres de vontade. Por isso eu acho que mudar é necessário no que tange ao mundo, mas não é obrigação de cada ser vivente, muito menos essa mudança mágica na qual o interior muda o exterior. A nossa obrigação, a meu ver, é refletir ou estimular a reflexão. Aqueles que quiserem, com criatividade, mudar algo, irão atrás de mudar. Mas, no caso, precisamos avaliar com muita clareza o que efetivamente precisa ser mudado ou não. E, é claro, não se muda nada sozinho – isso outros livros de autoajuda irão também te dizer. O que estou tentando dizer é que não devemos fazer disso uma evangelização, mas sim uma oferta de possibilidades de mudança.

A transformação almejada, por exemplo, é muitas vezes uma confusão quase terminológica. Muitos que falam em mudança estão, em verdade, falando em despertar, ou seja, em abrir os olhos para coisas que já estão aí. É aprender que devemos abrir nossas mentes, expandir consciências e compreender as coisas de modos diferentes dos que estamos acostumados. É experimentar, fazer da vida algo empírico, enfrentar as possibilidades de mudança abertamente e decidir se vale a pena ou não. Muitos se enfurecem porque sua vida parece sempre igual, ou porque ela parece uma sequência infinita de incertezas. Na verdade, nos habituamos com um modo de vida e não nos expomos efetivamente ao mundo sem um empurrãozinho, que é justamente o que os gurus motivadores transformam em palestras e livros: o empurrãozinho. Eles falam em segredos para a felicidade, chaves do sucesso, atitudes para a mudança, mas tudo dentro da esfera do hábito e do senso comum, sem qualquer ousadia ou criatividade, sem qualquer perigo. Eles excluem propositalmente o perigo da equação para a vida feliz pelo mesmo motivo que um produtor prefere diminuir a violência de um filme: atingir mais pessoas. São produtos, afinal de contas. Funcionam como dietas milagrosas: evitam dizer que você tem que parar de comer o que gosta e fazer milhares de horas de exercício, pois isso não vai atrair ninguém pra comprar a dieta. Oferecem soluções milagrosas, a curto prazo e com resultados visíveis. Enfim, oferecem mentiras. Mas a vida não te oferece outra coisa que não sejam oportunidades e/ou pancadas. Apanhar da vida é comum, é cotidiano, não é um problema em si; o problema é o que fazemos disso. Não adianta nada querer uma mudança em qualquer coisa e não se expor às intempéries com o peito aberto, tentar compreender por outros ângulos, buscar ser mais honesto e humilde na nossa abordagem das coisas. É essencial desabitualizar a vida!
Mas, antes de almejar a mudança, é preciso saber parar. Não paramos, somos levados pelo discurso dos tempos modernos e continuamos a “apertar os parafusos” mesmo quando deveríamos relaxar. Não se pode optar pela mudança ou não mudança sem a necessária pausa. A diminuição do ritmo das coisas, o tempo dedicado a esperar, a paciência: tudo isso são coisas que vem muito antes de qualquer decisão pela mudança. É nessa pausa que coletamos o que é importante ou não para as nossas decisões, e essa pausa pode ser para a leitura de um livro, para a meditação, para uma cerveja, para uma conversa, etc. Eu, muitas vezes, sento para jogar videogame para poder pensar antes de escrever algo. Não estou efetivamente fugindo da responsabilidade, estou dando tempo para que a minha ação mediante as minhas responsabilidades não sejam ações impensadas. É claro que não dá pra fazer isso de uma hora pra outra e nem o tempo todo: nossa sociedade é baseada em prazos. Mas praquelas mudanças que terão por consequência algo realmente diferente, essa pausa é fundamental. Nossa busca por remédios práticos e rápidos para nossos problemas é consequência justamente da impaciência, e devemos sempre lembrar que todo remédio tem efeitos colaterais. Nisso, nos esquecemos que a vida muda sem querermos, que tudo pode ser mudado a todo momento e sem aviso, que não adianta tentar remediar, como a sabedoria popular ensina, mas sim prevenir. É um treinamento.

Então a escolha pela mudança, pela mudança efetiva, passa pela decisão de que algo tem de ser mudado, e que esse algo não é essencialmente você. É muito mais fácil – e cômodo – o mundo te mudar que você mudar o mundo, e é justamente isso que o discurso do guru da autoajuda enfatiza: ele te oferece um mundo bonito pra você se iludir e achar que mudou. Se houver a necessidade de mudança, ou ela será realizada ou pela própria natureza, ou por sua vontade ou pela sua vontade junto a de outros tantos que querem essa mudança. Ela se dará por ações efetivas, mas também por mudanças de percepção, de compreensão e de abordagem do mundo. Sempre dirão que primeiro deve-se mudar internamente para mudar externamente. Pois eu digo que não há mudança interna sem mudança externa também. Até porque, muitas vezes, mudar não é uma opção. Assim se lembrarmo-nos que, às vezes, a mudança não parte de nós, entenderemos melhor os processos e poderemos decidir com mais clareza o que e se queremos efetivamente mudar.
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