Carta aberta a um jovem conservador

Símbolo da UFSCon.
Caro jovem da UFSC,

Sempre houve uma parcela significativa da população que defendeu ideias mais alinhadas com o pensamento conservador, mesmo o Brasil inserindo-se num contexto um pouco mais à la gauche desde a redemocratização. Eu digo que somos na nossa origem uma oligarquia ainda, com todas as mazelas derivadas de nossa história escravocrata e colonizada, mas possuímos uma semente revolucionária. Acho que a natureza colonial da América trouxe uma grande multiplicidade ao seu povo e desde sempre o colonizado busca, de alguma forma, livrar-se desse papel. Não acho que isso seja um padrão estrito, genético, mas que a história da América é uma constante luta pela liberdade, isso é.

De qualquer modo, nosso país enfrentou uma ditadura tão severa que, ademais de já termos Prestes e outros antes de 64 a defender ideais comunistas, a mobilização em prol de uma filosofia de esquerda floresceu mais nesse período. E o cenário de construção desse ideário, o motor disso tudo, sempre foram as universidades.  Mesmo que a origem de nossas universidades nem sempre esteja ligada a algum tipo de filosofia que não a perspectiva europeizante da nossa elite – no nosso caso, francesa -, nossa história universitária é essencialmente de esquerda, e não podemos negar a história. Podemos questioná-la, repensá-la, aprender com ela, mas nunca negá-la. A universidade brasileira é um projeto elitista, mas construiu-se e firmou-se com uma forte filosofia esquerdista. Nossos principais intelectuais, Antônio Cândido, Paulo Freire, Celso Furtado, Milton Santos, só pra citar alguns, são todos esquerdistas notórios na mesma medida que são conhecidos e respeitados mundialmente.
Poderão dizer muitos que eu, sendo também esquerdista assumido, apenas estou enxergando a parcela que me apraz do espectro. Não, minha perspectiva aqui é fundamentalmente histórica; historicamente a universidade brasileira é tão alinhada filosoficamente à esquerda quanto nossa elite é alinhada ao escravagismo e oligarquicamente constituída. E por isso me assusta muito o crescimento do pensamento conservador de direita dentro das universidades brasileiras.
A revista Época trouxe, apesar de a matéria ser bem superficial, um pequeno perfil de alguns dos militantes da assim chamada direita universitária. Acho, antes de tudo, importante ler e tentar compreender o espaço aberto por essa parcela de jovens da “nova direita” – que de nova só tem o fato de serem jovens – dentro das universidades, pois há muito ela deixou de ser apenas a movimentação de alguns para assumir ares de mobilização efetiva. Muitos, incluindo eu, compartilharam no Facebook e rechaçaram o seu texto, aluno da UFSC, pois você se posicionou contrário a realizar um trabalho sobre Marx, tido por muitos como o grande pai do pensamento de esquerda moderno. Mas poucos atentaram para o fato de que seu texto aparece num blog chamado “União Conservadora da UFSC”, da qual você diz ser um dos membros. A diferença desses jovens para aqueles que, vez ou outra, surgiam como voz isolada do conservadorismo é justamente o fato deles estarem buscando a mobilização. Duvida? Leia o trecho a seguir, tirado do próprio site da UFSCon:

Tive a ideia de criar tal movimento na UFSC após ter entrado em contato com o blog da Juventude Conservadora da UnB, de Felipe Melo. Via a urgência de levar tal ideia para o sul do Brasil, em virtude da delicada situação em que vive o povo brasileiro após uma década de um governo abertamente comunista, que apoia toda sorte de regimes autoritários, como Cuba, Venezuela e Iran.
Não atente para ao fato do seu amigo não saber escrever o nome do Irã, mas sim para a rede que se forma a partir do contato entre grupos organizados sob uma filosofia conservadora. Eu não considero isso atitudes isoladas não, isso já é um fenômeno do meio universitário.
Eu creio que esse fenômeno deriva de três fatores, que apresento a seguir.
O primeiro é justamente espelhar-se nos grupos de mobilização de esquerda históricos das universidades, que não apenas fazem barulho mas abriram diversos espaços de diálogo e conquistaram a muito custo alguns benefícios. Esse grupos sempre foram aparelhados pelos partidos políticos como PT, pois a origem desses partidos remonta justamente a esses grupos universitários – e aos movimentos sociais e sindicais. Essa aparelhagem aliada à perspectiva à la gauche que discuti nos parágrafos acima deu origem a um tipo de universitário que, ademais do esteriótipo, não é uma criatura imaginária: o universitário de esquerda protestante – não no sentido religioso. Esse universitário tomou conta de todas as discussões políticas da universidade que não passassem pelas instâncias de decisão superior, além de muitos dos professores das universidades serem em sua origem estudantes de esquerda protestantes. Aqueles que não se alinhavam a esse modelo de estudante ou eram os “alienados”, a grande maioria, aqueles que não se importavam com o jogo político da universidade, enxergando-a exclusivamente como uma continuidade do ensino médio com vistas a uma entrada de sucesso no mercado de trabalho, ou eram os que não tinham voz, os alinhados ao pensamento conservador menos incisivo, como militantes filiados a um PSDB, por exemplo – mesmo que na sua origem o PSDB também seja derivado de uma esquerda universitária. Ultraconservadorismo, daquele explícito em sua carta-manifesto, era algo quase inexistente, senão algo pessoal e retraído diante de uma filosofia estritamente esquerdista da universidade.
Agora veja o que propõe o movimento da UFSC:

Para barrar esse avanço do marxismo em nosso continente cabe aos conservadores atuar também nessas duas frentes: mídia e universidades. Pois dessas duas frentes sairá o apoio para uma posterior atuação política. Seremos derrotados? Isso não importa, pois ao menos não incorreremos no pecado da omissão. Porque ver o mal e nada fazer é já praticar o mal.

A partir disso vem o segundo fator, e pra mim o mais influente, que é a popularização e a ampliação da internet, que promoveu o acesso a vários outros pensamentos diversos dos conteúdos presentes nas universidades, e das redes sociais, que permitiram o contato entre essas pessoas com ideias similares. É óbvio, por exemplo, que várias pessoas já conheciam o pensamento de Ludwig Von Mises ou mesmo de Olavo de Carvalho, mas o fato do último ter um site e uma série de vídeos no YouTube o popularizou demais, por exemplo. Antigamente o máximo de ultraconservadorismo que nós tínhamos acesso era a revista Veja, alguns jornalões e o Manhattan Connection (que poucos tem acesso, pois faz parte da rede fechada de canais televisivos). O resto da mídia era, sim, conservadora, mas mais por interesses econômicos e influência. Com a dinamicidade do acesso a informações que a internet promove, porém, diversos pensadores que se alinhavam em um espectro conservador direitista começaram a tomar conta de espaços midiáticos virtuais. É só olharmos bem que veremos que não apenas o seu discurso, jovem da UFSC, como a maior parte dos discursos conservadores se alinha ao que o Olavo de Carvalho professa, com a mesma exata terminologia – à exceção dos palavrões.
Além disso, esses pensadores ganharam espaço dentro da grande mídia, ela toda conservadora. Pondé é o maior exemplo disso: se não fosse colunista da Folha e, por conta disso, não ocupasse espaços de discussão na tevê também, provavelmente seria um marginalizado dentro da academia. E não achem que eu pense que sua marginalização é, digamos assim, necessariamente “mérito” dele, pois sabemos que qualquer projeto de pensamento que divirja do modelo assumido pelas academias universitárias é rechaçado e morto em sua origem. Às vezes isso é bom, como no caso do Pondé – não me venha dizer que o pensamento dele deve ser considerado em relação à nossa sociedade, pois não deve; ele pode até ser estudado, mas não levado em conta -, mas muitas vezes rola um extremo compadrismo na academia que mina qualquer reflexão distante do que os iluminati dos departamentos universitários querem, sejam eles de esquerda, direita, acima ou abaixo. Até porque nossas cabeças pensantes da universidade necessitam garantir os seus privilégios também.
O terceiro fator, que na verdade não é exclusividade da Universidade é o governo do PT. O PT era a grande promessa de mudança, de um discurso que se distanciava da corrupção da direita e dos neoliberais do PSDB. A absorção da cúpula do partido pela lógica do pragmatismo eleitoreiro e da máquina da corrupção, que deu origem a diversos escândalos e a alianças escusas, criou uma sensação de traição que eu já salientei nesse texto. Lá eu cito uma fala do pensador Vladimir Safatle que diz muito sobre isso.
Há várias maneiras de despolitizar uma sociedade. A principal delas é impedir a circulação de informações e perspectivas distintas a respeito do modelo de funcionamento da vida social. Há, no entanto, uma forma mais insidiosa. Ela consiste em construir uma espécie de causa genérica capaz de responder por todos os males da sociedade. Qualquer problema que aparecer será sempre remetido à mesma causa, a ser repetida infinitamente como um mantra.
Isto é o que ocorre com o problema da corrupção no Brasil. Todos os males da vida nacional, da educação ao modelo de intervenção estatal, da saúde à escolha sobre a matriz energética, são creditados à corrupção. Dessa forma, não há mais debate político possível, pois o combate à corrupção é a senha para resolver tudo. Em consequência, a política brasileira ficou pobre.
Ao tomar conta do PT, a corrupção se tornou a bandeira dos “indignados” e, obviamente, foi muito popularizada pela mídia, toda devedora das oligarquias e elas, em si, oligárquicas em sua estruturação. Porém, a tese que se originou desse pensamento não foi a de uma guinada do PT ao espectro da corrupção, mas de que a corrupção é sediada na origem do PT. Aliar os caciques históricos do PT como José Dirceu, Genoíno e Lula – ademais da real culpa no cartório ou não destes – a um modelo de corrupção que é historicamente utilizado por quase todos nossos partidos é uma estratégia muito bem arquitetada, não duvide disso. A corrupção se tornou sinônimo do pensamento de esquerda, bem como outras coisas que já eram mal vistas pelos conservadores. E, de tal modo, angariou-se o apoio dos alienados, dos despolitizados.
Assim, não me surpreende que a universidade veja nascer dentro dela esses grupos neoconservadores, mas não deixa de me assustar e de me indignar. Sim, é claro que é porque eu sou de esquerda, mas não sejamos reducionistas. O problema desse pensamento está, acima de tudo, na maneira como eles enxergam tudo que se encontra fora dele. O pensamento neoconservador desses jovens é acima de tudo, como a matéria da Época bem expõe, preconceituoso: “Eles são monarquistas, anticomunistas, contrários ao aborto e à homossexualidade, defensores do porte de arma”. É só entrar em qualquer um dos textos do site da UFSCon para ver o que eles pensam. Quer exemplos?
Em Ideologia de gênero: seus perigos e alcances: “Gênero, orientação sexual, identidade de gênero; palavras que você certamente já escutou onde esperaria encontrar o termo masculino e feminino. Mas cuidado, o que pode ser apenas novos termos no linguajar social esconde uma ideologia que visa desconstruir a modelo de família e sociedade como a conhecemos hoje.”
Em Os guerrilheiros marxistas de outrora são hoje os jornalistas: “O relativo sucesso dos novos guerrilheiros marxistas acontece porque as elites plutocratas internacionais (os muito ricos de todo o mundo) concordam com algumas das posições ideológicas revolucionárias: por exemplo, o aborto e o comportamento homossexual, alegadamente entendidas pela plutocracia comoformas de redução da população mundialAs famílias numerosas sempre causaram o pânico entre os poderosos (grifo do autor). Existe, portanto, uma aliança tácita entre a plutocracia internacional e os novos guerrilheiros marxistas. Em termos práticos e objetivos, e no que diz respeito à cultura antropológica, por exemplo, Bill Gates é aliado de Francisco Louçã.”
Em Aconteceu no dia das mulheres: “Percebi, nessa manifestação, a presença de vários gays e lésbicas. Falando com um dos participantes descobri que esse ato era organizado pela Marcha das Vadias e por um grupo GLBT da UFSC. Ficou evidente, assim, o vínculo entre o movimento gay e o movimento feminista na organização desse ato. Os cartazes deixavam claro a defesa da cultura da morte, e um forte sentimento anticristão, como mostra o cartaz conclamando a defesa de um estado laico. Sabemos muito bem que quando os movimentos revolucionários falam em estado laico estão, na verdade, fazendo apologia ao laicismo, que é algo bem diferente. O laicismo se volta contra o cristianismo somente, afastando sua presença e influência de todas as esferas sociais e públicas.”

Essa é a perspectiva norteadora da UFSCon. Os temas históricos da esquerda não são problematizados, mas apenas rechaçados, bem como todas as bandeiras de movimentos sociais, especialmente o feminismo e os movimentos LGBTTT. E todas as críticas tem fundamento cristão, aliás, como se necessariamente toda esfera conservadora devesse ser cristã. Fica evidente que o pensamento conservador, aqui, é visto mais como uma bandeira de defesa do cristianismo que como uma filosofia em si. O marxismo cultural, nesse contexto, é o que afasta as pessoas da moral cristã, mesmo que tenhamos diversos pensadores da esquerda cristã no Brasil.
Por outro lado, e é importante salientar isso, a esquerda há anos debate o modelo neoliberal, e problematiza o sistema capitalista para tecer suas críticas – tanto que é quase impossível falar de esquerda no singular, tantas são as visões bastante divergentes de suas várias correntes de pensamento. Essa nova direita não quer debate. Para eles, a esquerda falhou, o comunismo é o mal, e como mal deve ser EXPULSO do universo do pensamento humano. Além de reduzir todo o espectro filosófico da esquerda ao comunismo, se reduz o comunismo às pouquíssimas experiências vivenciadas no século XX, experiências criticadas inclusive por pensadores da esquerda.
Mas você, ó aluno da UFSC, não deve levar um zero em sua atividade acadêmica por não gostar de Marx, mas sim por se recusar a discutir Marx.
Pense da seguinte forma: o evento tido por muitos como o mais tenebroso da história humana na modernidade foi a Segunda Guerra Mundial. Tanto que nazismo, mesmo podendo ser considerado por alguns como uma “corrente filosófica”, é considerado um “pensamento errado”, uma ideologia nefasta e, por isso, é proibido. Mas deriva justamente da ascensão nazista e de suas consequências toda a reflexão posterior da esquerda e da direita, fundamental para a instituição de uma filosofia moderna. Todos os grandes pensadores da época da guerra e depois deles consideram o Holocausto como um ponto de partida para uma reavaliação da própria sociedade e do pensamento moderno, até da própria existência humana. Isso quer dizer que é essencial para um pensador moderno pensar, estudar e compreender o nazismo, mas isso não quer dizer que o pensador deva, por conta disso, alinhar-se ao pensamento nazista.
Agora, para esses jovens e seus filósofos favoritos, estudar o marxismo e todo o pensamento de esquerda é alinhar-se à esquerda. Isso não é apenas uma falácia como é uma estratégia argumentativa para minar o pensamento de esquerda na sua origem, impedindo qualquer contato com ele, tratando-o como uma praga contagiosa. É tão desonesto quanto a sua resposta, jovem da UFSC. Não, eu não serei condescendente com você: o que você pratica se chama desonestidade intelectual, reduz todo um espectro filosófico a uma razão mínima e, de modo infantilizante, trata essa razão mínima de sob um olhar demonizador. Eu não demonizo a direita ou o conservadorismo. Eu leio Veja, Pondé, Olavo de Carvalho e outros. Eu preciso saber o que pensam do outro lado. E isso não é uma questão de democracia, de nobreza intelectual ou de condescendência, é antes de tudo uma estratégia de luta. Eu, como sou de esquerda, luto contra o pensamento conservador e direitista. Eu o considero errado e acho que a sociedade deve toda guiar-se para a esquerda. E, para isso, preciso conhecer contra quem estou lutando, senão entro no ringue sabendo bater, mas sem saber desviar dos ataques. Eu li a Bíblia antes de sequer criticá-la. Tinha preconceito, por exemplo, com o pensamento muçulmano e fui ler o excelente livro Introdução à crítica da razão árabedo pensador Mohammed Al-Jabri, e acabei por repensar minha visão do islamismo. Não gosto da semiótica, por isso fui ler Greimas, Kristevá e até um tanto de Pierce (mas não entendi o último, desculpem). E, apesar de me considerar de esquerda, não sou marxista – ok, pode parar de fazer essa cara de espanto. Portanto, li um tanto (pouco, admito), do filósofo alemão.
Sabe porque esse pensamento da juventude neoconservadora é errado? Porque ela é uma juventude que nega a si o acesso ao conhecimento, à leitura e à história. Muitos criticaram a esquerda, o marxismo cultural, e refletiram sobre esse tema antes de Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé. Os próprios marxistas teceram críticas ao pensamento marxista. É preciso ler muito para poder entrar em um debate real sobre a estrutura de pensamento das instituições educacionais – e como é estranho dizer isso para universitários. Primeiro, é preciso rever as fontes de seu trabalho antes de criticar. Por exemplo, não citar algo falso, um hoax, como o decálogo de Lênin (que, a CNBB ensina, pode ser de Stálin, veja só) como argumento de defesa de sua reflexão. Penso que tipo de acadêmico será alguém que fundamenta sua argumentação em um hoax. O zero que você pode ter tirado nessa atividade – nota que, aliás, faz parte um modelo de avaliação quantitativo extremamente questionável – é o menor dos problemas, senhor João Victor Gasparino da Silva. O seu problema é de redação: não se argumenta baseado em fatos que não existem. E na redação de nada adianta ser de esquerda ou de direita.
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