Reflexões 1 – Da situação acadêmica, percepção de espaço e sistemas

Eu estou devendo uns vários textos sobre F1 aqui, mas a pausa para refexão é necessária. O texto é longo e recebe a numeração porque não pretende ser a única reflexão – e porque também não é uma reflexão fechada. Vamos ao que interessa (ou não).

Nos últimos meses ocorreram eventos que me fizeram refletir sobre algumas coisas de ordem mais profunda. Como a meia dúzia de seres que acompanha meu blog sabe, eu desenvolvo meu doutorado na UNESP de Araraquara, onde cursei Letras e fiz meu mestrado. Lá, nos últimos tempos, temos tido bastante agitação devido as ações de instâncias superiores, como o Governo do Estado de São Paulo, a Reitoria e até da Diretoria da universidade. O principal ponto de discussão tem sido  o PIMESP – Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista -, uma alternativa do governo estadual para os programas de cotas nacionais. Por extensão, advogou-se a causa de defesa de todo o conceito de permanência estudantil, que para muitos membros do corpo discente e docente está ameaçada pelo programa estadual. Essa discussão gerou desde ocupações até uma greve [1] – sendo que a ocupação no caso do câmpus de Araraquara se dá por motivos que já expus aqui.

Porém, diversas discussões tiveram origem a partir da greve, a principal delas: alunos não viam motivo para uma greve e não se sentiam representados pelo movimento estudantil. Isso não é de hoje, mas se agrava com o tempo. Há anos temos visto aqui assembleias esvaziadas, ou ocupadas apenas pelos alunos de Ciências Sociais, que aqui é o curso de maior atuação política justamente por ter em suas bases esse tipo de discussão, ausente nas Letras, por exemplo. Além disso, é óbvia que a presença de siglas partidárias de esquerda que se sustentam e tem muita força apenas dentro das Universidades causa certa ojeriza, especialmente numa sociedade que vive uma crise de representatividade política. A tentativa de instrumentalização por parte de alguns grupos ligados ou não a esses partidos por vezes minou movimentos sérios e conduziu a discussão para um caminho equivocado, sem resultados concretos, mas que era justamente o interesse desses grupos. Outro fator que é essencial destacar é a elitização da classe discente, que com o declínio da escola pública – principalmente a paulista – acabou se tornando majoritária em cursos que antigamente recebiam muito mais pessoas de estratos menos favorecidos da população.

Somo a tudo isso a convergência dos trabalhos acadêmicos em direção ao produtivismo vazio e quantitativo. A pesquisa acadêmica se submeteu, espero que não definitivamente, à lógica produtivista de mercado, principalmente por culpa das agências reguladoras e de fomento, que tornaram o Currículo Lattes o termômetro da qualidade acadêmica e acabou por cercear a escritura do pesquisador. Hoje a busca pela publicação, pelo paper é mais importante que a reflexão acadêmica e epistemológica. O Professor Antônio Ozaí, de quem me tornei leitor assíduo, desenvolve uma leitura interessante sobre a produção acadêmica aqui aqui e sobre o Lattes aqui
Um exemplo claro, a meu ver, do que coloquei anteriormente é a profusão de atividades que se justificam apenas mediante o certificado, papel que garante sua presença no evento em questão, e que serve de entrada para o Currículo. É necessário que se documente, claro, mas será que todos os eventos que assistimos são mesmo essenciais para nossa formação e reflexão? Ainda mais: quando vejo alunos de primeiro ano mais preocupados com os certificados que com as reflexões, vejo que se esvaziou muito a reflexão que esse tipo de evento acadêmico proporciona – até porque muitos de nossos docentes atentem a esses eventos pelo mesmo motivo dos discentes.
A verdade é que, cada vez mais, o espaço acadêmico é uma abstração meritocrática e quantitativa, cercada pela lógica objetivista do produtivismo, e desse modo esvaziada no seu propósito mais filosófico e epistemológico. O aluno se vê, mediante esse quadro, um receptor e reprodutor de conteúdos pré-definidos – afinal, vem sendo treinado para tanto desde a infância escolar -, cuja presença no espaço acadêmico é essencialmente efêmera pois, em âmbito geral, a academia tem sido vista por esses jovens tão somente como intermediária entre o colegial e o mercado de trabalho. Para uns, a graduação acaba se tornando apenas uma extensão do ensino médio, extensão na qual não temos a supervisão paterna e, por atingirmos a maturidade legal, é-nos permitido usufruir da vida adulta. Porém, essa “vida adulta” se resume a elementos bem específicos, a saber, consumo de entorpecentes – especialmente o álcool e de maneira exagerada e inconsequente – e sexo, que acabam sendo para muitos a real essência da vivência acadêmica, além do companheirismo de salas de aula e repúblicas. Para outros, a vida acadêmica é a vida da produção e o acesso para melhores salários passa pela subserviência a sistemas viciados de poder e hierarquias inquestionáveis, nas quais não se questiona o modelo tampouco os responsáveis pelo modelo.
Esse engessamento das relações, dos modelos e da representatividade excluiu da esfera acadêmica de cursos que não tenham na sua práxis uma reflexão objetivamente sociológica, filosófica e epistemológica, as discussões no mesmo nível que reproduziu na práxis discente uma aparente autossuficiência metodológica e tecnológica, na qual os conteúdos valem por si e não dialogam com o contexto histórico presente – ou presentificado. Em termos mais concretos e simples: falta a cursos como o de Letras da minha universidade “pensar fora da caixinha”.

Esse pensar fora da caixa se dá, em muito, por conta das amarras do(s) sistema(s). E é inegável que uma das maiores complexidades do homem é o sistema. Muitos daqueles que advogam o sistema como um imperativo, mesmo em seu todo homeostático, pois somente o equilíbrio importa, se apropriam do sistema ou para se defender, ou para fazer valer seus micropoderes, dependendo se são sujeitos introvertidos ou extrovertidos [2]. Aqueles que compreendem o sistema como um imperador, buscam a fuga ou a desestabilização, na mesma chave de introversão e extroversão. Sempre que um sistema que serve a um grupo hegemônico é posto em xeque, esse grupo advogara tanto das medidas introvertidas quanto extrovertidas para fazer valer a sua sistemática. Os questionadores do sistema – a parcela extrovertida dos oprimidos – desenvolverá um esquema para apresentar na quebra do sistema. Um esquema de desestabilização é sempre um problema, porém de um lado temos o problema em si, enquanto do outro uma problemática com consequências benéficas, em geral. A disjunção operada dentro do sistema, no entanto, depende que o esquema se comporte de tal modo que gere, ele mesmo, um sistema, não necessariamente homeostático mas inevitavelmente permeado de premissas introvertidas e extrovertidas. Mas, posto que os oprimidos introvertidos promovem a fuga do sistema, notamos que a parcela oprimida possui apenas a parte extrovertida como agente – o desestabilizador – contra duas parcelas dos opressores – os que se defendem agem em sua defesa, ao mesmo tempo que os detentores de micropoderes oprimem. Assim a balança é sempre um desequilíbrio, numa equação onde 2 + 2 somam três, não quatro.
Nisso, aqueles que se conformam e confortam com o sistema acadêmico atual em grande parte são justamente os opressores, na parcela de defensores ou de micropoderosos, enquanto os que não se encaixam nesse sistema e lutam pela sua mudança são apenas uma parcela dos oprimidos, a parcela desestabilizadora. Isso, no entanto e espero que fique bem claro, não é um juízo de valor, visto que exclui um elemento da equação, o mais significativo, para que enfim compreendamos o que está em jogo aqui. A parcela apática da esfera, a mais numerosa e, porquanto, a mais difícil de se lidar. A apatia é consequência ou de alienação – que não é juízo de valor também, nesse caso, pois ela pode ser uma alienação subjetiva e não objetiva – ou de apolitismo, e em nenhum dos dois casos é algo consciente, pois se fosse, eles se colocariam ao lado ou dos oprimidos fugitivos ou dos opressores defensores. Na verdade, eles são a parcela que não possui espaço mas não porque não luta por ele ou porque não dá o devido valor a ele, mas porque não consegue compreender o espaço, seja em sua amplitude, em sua profundidade, seja pelas causas ou consequências do espaço. Extraiu-se – ou não se desenvolveu – dessa parcela a mínima compreensão da possibilidade de um meio diferente do existente, de um espaço não estável e não homeostático. Não quero com isso dizer que nós, oprimidos desestabilizadores – e eu sei e não nego o lado que me posiciono, pois isso seria hipocrisia -, sejamos os messias salvadores da apatia geral, mas que o despertar dessa apatia é algo urgente para que os espaços – principalmente o acadêmico – sejam ocupados definitivamente pelos que deveriam ser seus ocupantes. Enquanto espaço for apenas percebido como a rampa que permite o acesso à sala de aula, e não enquanto o todo complexo – no qual as partes são maiores que sua soma – não atingiremos o nirvana acadêmico essencial. E, a despeito do que possam dizer outros membros da comunidade, o sistema acadêmico é exatamente um sistema complexo, e portanto suas propriedades não são consequência natural dos seus elementos constituintes isolados. 
É necessária uma abordagem complexa do sistema, a meu ver, nos termos de Morin e companhia, uma abordagem transdisciplinar do fenômeno universitário, e a busca mudança de paradigma, abandonando o reducionismo peremptório que tem pautado toda investigação científica em todos os campos e, a partir dela, toda a práxis acadêmica e todo comportamento social do acadêmico e, por fim, sua percepção de espaço. Perdeu-se o dinamismo do sistema, submetido ao engessamento pelo objetivismo intrínseco ao modo de produção atual.
Eu tive que explicar, de maneira repetida e até redundante, como funciona uma assembleia estudantil para estudantes. Da mesma forma, parece que temos que tentar explicar o que é universidade para universitários. Como somos todos parte e ao mesmo tempo autores da mesma narrativa, da mesma dinâmica cênica que chamamos de “vida acadêmica”. Falta-nos a consciência do roteiro, a percepção dos intertextos e de que não somos personagens, mas autores, para que construamos assim de modo criativo essa narrativa. Mas num universo onde o autor foi brutalmente assassinado e só a obra vive, fica difícil lutar contra esse vazio.
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[1] Eu debato e exponho minhas opiniões específicas sobre assembleias e a greve do curso de Letras da FCLAr – UNESP e sua legitimidade neste documento.
[2] Carl Gustav Jung (1875 — 1961) propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos, e o inconsciente coletivo.
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