O custo de 20 centavos

O blog Muralhas de Troia é um espaço, essencialmente, para expressar as impressões de mundo deste ser que vos fala, e que quem conhece sabe que fala muito. Porém, mesmo com tanto pra falar, demorei muito para escrever algo aqui sobre as manifestações que percorrem o Brasil por três motivos principais: falta de tempo, pois eu tenho um doutorado pra escrever; falta de assunto, pois todos os veículos que sigo e os amigos já haviam dito, em suma, tudo o que eu pensava e achei que mais compensava compartilhar suas palavras e ideias que reproduzir as mesmas num texto que, nessa conjuntura, seria apenas mais um; o receio da falta de um horizonte que, agora, se assevera sobre os manifestantes. O horizonte era o transporte público, o que me lembra outra coisa que preciso reaver para comentar o estado das coisas.

Os movimentos

No início do ano a prefeitura da cidade onde moro, Araraquara, começou a tomar atitudes que irritaram os usuários do transporte público, especialmente os estudantes. Não apenas aumentou a passagem para R$2,90, como criou restrições absurdas para a utilização do transporte público por parte dos estudantes. dentre outras coisas, o estudante não podia usar a meia passagem fora dos horários de aula e em fins de semana (sendo que há atividades estudantis no fim de semana). A revolta geral deu origem ao Movimento Transporte Justo.
O Movimento é bem similar ao agora conhecido Movimento Passe Livre: é uma mobilização sem bandeira partidária específica, mas com uma base essencialmente universitária e, por isso, jovem. As ações do Movimento deram origem a um debate sobre a situação da Companhia Troleibus de Araraquara, a CTA, sobre sua estrutura de organização, sobre a precariedade dos ônibus, os problemas de atrasos, o descaso com o Terminal de Integração e os funcionários. Fomos à Câmara dos Vereadores, tomamos as ruas e, mesmo num número pequeno, fez-se muito barulho na cidade.

Quando a ação pacífica do Movimento Passe Livre de São Paulo foi duramente reprimido pela polícia no dia 13, quando as cenas de violência policial saíram do universo da periferia e tomaram a região da Avenida Paulista, as pessoas sentiram a necessidade de ir às ruas, em solidariedade aos agredidos.

A pauta excedeu os transportes se tornou bem maior mas, num primeiro momento, não era nada essencialmente ruim, pois as pessoas se levantavam especialmente por duas coisas: contra a violência repressora da PM e contra os gastos desmedidos para a realização da Copa do Mundo no Brasil. 

A PM brasileira, especialmente a paulista, é famosa pela violência. Só que o jovem de classe média e a Paulista não estavam acostumados com a violência, quase sempre restrita às periferias e com alvos bem direcionados. O extermínio dos jovens negros pobres vem sendo denunciado há anos por várias ONGs e movimentos sociais. E, como afirmou o camarada Arthur Malaspina, a própria PM como conceito é algo confusa:
A Polícia Militar em si é um oximoro, já que a ideia de polícia, no mundo todo, costuma ser de uma instituição civil, sendo que a polícia militar é normalmente apenas a polícia interna do exército, que cuida dos delitos e crimes acontecidos dentro dos quartéis. No Brasil herdamos essa instituição de nosso longo período de regime militar. A PM, portanto, é anacrônica, perversa e desnecessária, já que a polícia Civil é que deveria estar fazendo as funções dela (claro que com um aumento significativo de aparato).
A violência policial é perigosa não apenas em si, mas porque é um instrumento legitimado por uma boa parcela da população, especialmente em São Paulo. População que lida diariamente com a violência e que aprendeu desde muito tempo o lema “bandido bom é bandido morto”. População que não consegue traçar uma linha de raciocínio direta que liga o massacre do Carandiru, aplaudido pela maioria, com o surgimento do PCC, que tira o sono de todos desde então. E que, quando vê um grupo atacando o seu patrimônio, só consegue ver como solução a pancadaria. A mesma usada para “curar” cracômanos e para “mover” pessoas do Pinheirinho em São José dos Campos. A mesma usada para reprimir manifestações.

As pautas

Isso tudo se coloca no momento certo, durante a Copa das Confederações, o evento que antecede o principal e que serve para apresentar ao mundo as “melhorias” realizadas para a Copa. Há um ano, o grande escritor Milton Hatoum não apenas denunciava a condução das obras da Copa como já alertava: “quando a multidão enfurecida cobrar a dignidade que lhe foi roubada, digam com um cinismo vil que se trata de uma massa de baderneiros e terroristas.”
Mas muitas pessoas foram às ruas motivadas principalmente pela inegável força de uma mídia acuada e agredida que inseriu suas próprias pautas na discussão, aproveitando a brecha do lema “não é pelos 20 centavos”. A eterna pauta da corrupção – que em si nem pauta é – aglutinou-se às outras demandas de alguns movimentos anteriores, movimentos fracassados mas que tiveram amplo apoio da mídia, como o pantagruélico Cansei. Não dava mesmo pra respeitar um movimento capitaneado por gente como a Ana Maria Braga, cuja grande relevância para o país é conversar diariamente com um papagaio de espuma enquanto desfila um rosto que mais parece uma máscara de Guy Fawkes – veja só -, mas a mídia comprava isso e fomentava. Mas as pautas permaneceram, e permanecem, com a corrupção sendo o centro delas.
Porém a coisa começou a cheirar mal mesmo quando começaram a atacar a Dilma.
Eu já fui – e muito – partidário do PT, do Lula e da Dilma. Como muitos, eu acreditei num projeto que estava funcionando pelo menos pro lado dos mais necessitados e confiei que ainda existia, por trás de Dirceus e Cunhas, uma centelha do partido que se levantou por anos como a principal esquerda do país. Mas a cada dia percebo-me enganado pelo pragmatismo político, pela fórmula da governabilidade a qualquer custo – e a custo da ideologia. Quando vejo a pocilga que virou a Comissão de Direitos Humanos, não consigo esquecer que boa parte – senão a maior parte – da culpa é dos conchavos do PT.
Daí a coisa começa a ficar perigosa. Porque a pauta começa a crescer pra um lado que, olha, todos nós conhecemos e sabemos como funciona.
O Brasil de Fato lançou a seguinte nota hoje (21 de junho): “Folha de S.Paulo faz pesquisa que pergunta qual forma de governo preferida: democracia, ditadura ou tanto faz”. Lembrem-se que a Folha é aquele jornal que apoiou (e, segundo sei, aparelhou) a ditadura – ou como eles gostam de dizer, a ditabranda. Daí o Datafolha me vem com essa pergunta no mínimo estranha… Isso é só coincidência? MESMO?
Provavelmente a democracia vai vencer na tal pesquisa, mas o que me assusta mesmo não é o fato de a ditadura ser uma opção mas, acima de tudo, estar em oposição direta à democracia como ÚNICA alternativa (porque “tanto faz” é piada, né?).
Aí você me pergunta: mas não é bom ver tanta gente na rua? Lutando contra o que está errado? Depende. Quando as pautas são realmente do povo, sim. Quando elas são um discurso construído para usar o povo como massa de manobra, a coisa fica bem complicada.

Os partidos

Uma das coisas que chama a atenção, por exemplo, é o clamor contra a presença de partidos nas manifestações. Numa democracia, excluir partidos políticos de manifestações não apenas cheira, mas fede a fascismo bravo. “Mas o movimento não é apartidário?” Eu acho que não, ele é – ou deveria ser, pelo bem da democracia – essencialmente SUPRApartidário, ou seja, ele está acima de bandeiras partidárias, ou melhor, essas bandeiras estão submetidas ao objetivo maior. Mas não apenas as pessoas confundem suprapartidarismo com apartidarismo, como confundem partido com ideologia.
Um exemplo claro é a postura da jovem faceira que atende pelo nome de Dani Schwery, uma candidata folclórica do PSDB que até tenta apresentar uma postura apartidária, mas fica evidente ao fim que ela não sabe o que diz.

As pessoas estão atacando partidos – mas só os de esquerda, claro – sem entender que ideologia política é completamente diferente de partido. Há várias esquerdas, várias direitas, e vários partidos de direita, esquerda, radicais ou não. PT, PSTU, PSol, PCO e outros não são ideologia, são partidos. Aliás, eu posso ser contrário aos métodos extremistas do PCO, por exemplo, mas ele sempre esteve na linha de frente, defendendo causas e direitos dos mais fracos, defendendo professores e trabalhadores. E você, que descobriu ontem o que é se manifestar porque a Globo te mandou ir pra rua, vai lá e agride um militante do PCO porque você está cansado de partidos políticos. Como se PCO representasse o poder político brasileiro. Mas, claro, ninguém de DEM ou PSDB foi agredido… sabe por quê? Porque militante desses partidos não anda com bandeira, não dá a cara à tapa, só em época de eleição. isso deixa bem claro que o problema desses agressores não é o partido, mas a ideologia, e a massa de manobra vai atrás.
E sinceramente, se você não entende essa diferença básica entre ideologia e partido o que você está fazendo numa MANIFESTAÇÃO DE ESQUERDA?
“Ai Fábio, seu comunistinha, quem disse que a Manifestação é de esquerda?”
Eu tinha bolado uma explicação, mas deixo pro PC Siqueira, muito mais didático que eu, explicar as coisas bem claramente:

Entendeu, ou quer que eu desenhe?

A mídia

A Globo, bem como toda a mídia, está aí pra defender seus interesses. Ela não apoia as manifestações, meu querido, ela quer é dinheiro. Ela já perdeu – e muito – com toda a coisa acontecer no contexto da Copa. Como salientou bem o Cosme Rímoli, PT, Globo, CBF e Fifa tinham em mente que o povo, acostumado a sentar no sofá e nada fazer, era dócil e controlável. E cada um tinha seus próprios ganhos com isso:

Os países vivem grande convulsão social.
Isso foi levado em conta na escolha das três sedes das próximas Copas.
Brasil, Rússia e Catar deveriam ser opções seguras.
De acordo com jornalistas ingleses, houve três critérios na seleção.
Terem governos seguros, estáveis.
Imprensa fraca, omissa.
E, principalmente, populações dóceis como carneiros.
Quando Lula se envolveu na questão tinha outros objetivos.
Era 2007.
Ele tinha a certeza de que se conseguisse o Mundial o efeito colateral seria fantástico.
A Copa do Mundo cai em anos eleitorais.
Depois de dois mandatos no cargo, ganhar a Copa garantiria Dilma em 2010.
Como garantiu.
E também em 2014.
Ou seja, mais oito anos de poder do PT.
Seriam 16 anos de domínio.

O negrito é meu, porque acho necessário destacar que sim, é assim que enxergam o país. Não é apenas a visão da FIFA, da CBF, do governo ou da Globo, mas de todos que investem – e perdem muito dinheiro. Daí você vai me dizer que é “mera coincidência” o Pelé defender a Seleção e nos dizer pra “esquecermos os protestos”. Será?
Agora que a coisa explodiu e saiu do controle, corremos um risco grande, enorme mesmo, de que a convulsão social se torne maior que as ideias, e boa parte da culpa é desses crápulas da mídia que primeiro atacaram os manifestantes e elogiaram a polícia e, por puro oportunismo, agora elogiam os manifestantes e atacam… não, espera… ninguém mais atacou a polícia né? Agora é o povo na rua, o Gigante que acordou, o Brasil lutando! Agora o único problema é a violência das “minorias” que antes a mídia não enxergava. A tentativa eterna de passar a impressão de que tá tudo bem, tá tudo certo. E como sabemos que tem gente que enxerga a vida como se fosse uma edição do Jornal Hoje, fica evidente que – e como – se maquiou a tempestade.

O futuro

E ontem morreu um jovem em Ribeirão Preto, atropelado pelo símbolo máximo da tal classe média – o SUV. Veículo de um descontente, como outros, que não vê na manifestação algo além de um incômodo, formigas que impedem o seu “direito de ir e vir”. Direito de ir e vir virou direito de atropelar.
O atropelo é uma das mais simbólicas formas de exercer a suposta superioridade para o detentor do capital. Ter um carro é ter poder, como toda a indústria do marketing automobilístico deixa claro. O discurso é velho: ter carro te dá acesso à sexo fácil, te deixa mais jovem, mais bonito, mais elegante, mais corajoso, mais macho. O que pode um pedestre contra um veículo motorizado? O que pode o ser humano contra o poder da máquina movida a petróleo? No universo do motorista, o direito de ir e vir é o de tirar seu carro da garagem e chegar em seu destino sem ser importunado. Não que eu ache que ele não tenha esse direito, mas eu não consigo deixar de ver uma imensa carga simbólica no ato do cidadão que atropela alguém deliberadamente.
Foi por isso que aplaudi a decisão do MPL ao se retirar das manifestações. O momento é de reflexão, de repensar estratégias, ideias, conquistas e consequências. Não de se colocar nas ruas por pautas que não são suas, ao lado de oportunistas e reais baderneiros. Por isso eu peço: não seja um “maria-vai-com-as-outras”, reflita e pense antes de vestir uma camisa da Seleção Brasileira pra protestar contra a Copa. É o mínimo que se espera do tal Gigante que parece até acordado, mas ainda está assustado e sem rumo.
Enquanto isso, o prefeito de Araraquara, Marcelo Barbieri, baixou a passagem de ônibus em 10 centavos. A meu ver, essa medida não foi ocasionada diretamente pelo Movimento Transporte Justo, mas pelo oportunismo – misturado com certo medinho característico – decorrente das decisões de outras prefeituras de cidades onde ocorreram protestos. Tanto que eles continuam sustentando propostas como o leilão do prédio da CTA que são pautas contra as quais o Movimento ainda luta. Sair às ruas, enfim, dá resultado, mas temos que saber o que queremos a curto, médio e longo prazo, e não nos deixar levar pela maré.
Porque, ao fim, nossa democracia não pode valer apenas 20 centavos.

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