A revolução das empreguetes

No intervalo entre as postagens sobre F1 (que vão dominar o blog), eu decidi postar algo curto – eu ia postar no facebook, mas vi que rendia um textinho no blog. 
Tava lendo um comentário sobre o caso dos domésticos e da nova regulamentação relacionada a eles. O texto chama atenção ao comentário da socialite e colunista Danuza Leão na Folha de SP, que critica a PEC. Daí me peguei diante de questionamentos vários, que colocarei a seguir:
1 – Ao que parece, é cada vez mais difícil encontrar empregados disponíveis. A reclamação decorrente, a meu ver, evidencia um problema grave do nosso sistema, pois acostumamos não apenas a ser servidos, mas a enxergar em uma dada parcela da população a subalternidade, como se fosse inerente a sua origem ser servo. Isso é, aparentemente, fruto das mesmas relações que existiam entre os senhores de escravos e os negros, pois por serem negros eles eram escravos. Será que não há a possibilidade de, em pleno Seculo XXI, as pessoas repensarem as relações patrão e empregado e, principalmente, reverem o contexto da “servidão”, algo tão anacrônico a uma sociedade que se diz moderna?

2 – A falta de disponibilidade de empregados domésticos evidencia outro fator: quando as pessoas podem escolher, abandonam esse tipo de serviço e vão em busca de algo melhor. Isso não apenas pelos baixos salários, mas pelas condições de trabalho. Logo, se pararmos pra pensar, a situação de realizar serviços caseiros entraria no rol de serviços que as pessoas não desejam fazer, por fatores diversos mas, principalmente, porque não é “meta” de vida ser empregado de alguém. Ninguém decide, de um dia pro outro, que vai ser empregado: as pessoas almejam serem cantoras, dançarinas, pilotos, professores (mesmo sendo tratados tão mal), médicos, etc. Mas ninguém sonha em ser servente de pedreiro, as pessoas PRECISAM ser serventes de pedreiro. Será que as pessoas não percebem, apesar de encararem o ato do trabalho como parte inerente da vida, que há ocupações que não dão prazer mesmo com retorno financeiro?

3 – Percebem como é estranho dizer “empregado doméstico”? Isso se dá pelo fato de que sempre usamos o termo no feminino pois, inconscientemente, acreditamos que todas as empregadas são mulheres. Aliás, você já viu um empregado doméstico? Isso não é um sintoma dos mais claros de que à mulher não apenas é atribuído com impressionante natureza os serviços relativos à vida doméstica, como a própria função de subserviência? A relação de poder, nos serviços domésticos, é sempre a de subjugamento de uma mulher pobre a uma família de classe média ou alta. A ponto do termo relacionado à profissão ser sempre utilizado no feminino. Aliás, há alguma outra profissão na qual isso ocorre?
4 – O que é essa Danuza Leão, ela é jornalista mesmo ou é só uma colunista social que se acha jornalista? Ah, me lembrei quem ela é: ela é irmã da Nara Leão e mulher de Samule Wainer, jornalista fundador do Última Hora. Ou seja, uma típica socialite, o clássico exemplo de “celebrity” que não tem nada a dizer, mas tem um palanque à sua disposição. E como estabelecer um diálogo sério sobre os direitos das minorias quando os detentores do espaço para opinar reproduzem preconceitos e não compreendem o próprio lugar onde vivem sem se referir a exemplos externos?

Por fim: que sociedade é essa que ainda não entendeu que o conceito de “direitos iguais” não é quantitativo, mas qualitativo?
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