Futebol e a Alienação Coletiva

http://globoesporte.globo.com/futebol/mundial-de-clubes/fotos/2012/12/fotos-corinthians-vence-chelsea.html
Antes de começar, saliento que a seguinte postagem surgiu de diversos comentários e postagens no facebook, especialmente de uma postagem do Bule Voador, que perguntava:
“PARA VOCÊS, O QUE LEVA AS PESSOAS A FORMAREM VÍNCULOS TÃO INTENSOS COM OS TIMES DE FUTEBOL? POR QUE ESSAS PAIXÕES PODEM SER TÃO INTENSAS?”


A partir da resposta que elaborei a essa pergunta, mais vários textos que publiquei por todo do dia, organizei o Frankenstein a seguir. Espero que faça algum sentido…
————————————————————————————————————

Nesse fim-de-semana tivemos um novo campeão mundial: o Corinthians, com garra e um belo futebol, venceu o apagado Chelsea por 1 x 0 e conquistou o mundo num ano irretocável.

Mas tem gente que não vê razão para a alegria alheia. Tem gente que acha que paixão por futebol não passa de alienação, de pão e circo. Que não vale a pena comemorar gols de jogadores esnobes, que beijam a camisa hoje, mas trocam seu time por qualquer boa oferta amanhã. Gente que se enfeza com os fogos, a festa, o espaço na mídia, tudo relacionado ao futebol. E ai de você se falar que o Brasil é o país do futebol!
Não entendo o motivo de tanta gente reclamar do futebol. Acham, por alguma reflexão cósmica, que o futebol é “alienante” em si, como se necessariamente ele fosse um pressuposto para uma irracionalização do sujeito. Discordo veementemente de qualquer pessoa que colocar o futebol como processo de alienação ou coisa do tipo, pois há vários momentos em que o esporte, como representação simbólica, serviu para mudanças ou lutas sociais importantes. É clichê, mas como dez um camarada corinthiano, preciso citar o saudoso Dr. Sócrates:

Fonte: Futrico.net
“Conseguimos [com a Democracia Corintiana] provar ao público que qualquer sociedade pode e deve ser igualitária. Que podemos abrir mão de nossos poderes e/ou privilégios em prol do bem comum. Que devemos estimular a que todos se reconheçam e que possam participar ativamente dos desígnios de suas vidas. Que a opressão não é imbatível. Que a união é fundamental para ultrapassar obstáculos indigestos. Que mesmo as dificuldades nos são potentes professoras. Que o convívio com pessoas que pensam e agem de forma absolutamente fascista não é impossível. Que uma comunidade só frutifica se respeitar a vontade da maioria de seus integrantes. Que é possível se dar as mãos.
Quem sabe um dia verei, mesmo que lá de cima, acontecer o mesmo com nosso país. Talvez nossa nação possa viver um amanhã justo, ético e puro.”
(Sócrates, em “Democracia corintiana: a utopia em jogo”)

Isso posto, venho ao contexto da paixão: um clube de futebol é uma agremiação que possui, antes de tudo, uma identificação com uma comunidade, seja ela uma cidade, um bairro, um estado, um país, etc. São Paulo, que é uma grande cidade, tem vários clubes e, na sua maioria, eles se originam de bairros.
Aí passamos para a indústria cultural, que assimilou, a meu ver, a “paixão” do torcedor e a pasteurizou. Na sociedade capitalista moderna, a indústria cultural vive de marketing, e mesmo o sentimento pode ser reproduzido e, a partir dele, gerar uma série de possibilidades de vender produtos e conseguir lucro. O homem da sociedade atual vive uma crise de representação, muito causa e ao mesmo tempo consequência da massificação, e nesse vácuo existencial trabalha o produtor de propaganda, ao fetichizar o produto que deseja vender, e ao ressignificar a relação de simpatia que o indivíduo tem com seu time do coração. Não que a paixão não existisse antes, mas ela se acirra cada vez mais pois cada vez mais os clubes tem mais espaço de exposição na sociedade. Ao ser assimilado, o futebol cresceu (mais investimentos, patrocinadores maiores, etc) e, no caso do Brasil, a TV permitiu que houvesse uma abrangência maior (e consequentemente um maior impacto) dos grandes times das grandes capitais. Além disso, como desde sua chegada o brasileiro se identificou com o futebol, o esporte se tornou ícone de identificação nacional antes mesmo de se tornar o produto rentável que é hoje. Mas não sou sociólogo pra entender (e explicar) isso mais a fundo, perdoem-me.
Um exemplo de incongruência e distorção da realidade ao tratar o futebol como mera alienação: como acertadamente lembrou um amigo meu, o time do Al Ahly que disputou o Mundial de 2012, esteve politicamente envolvido na chamada “Primavera Árabe”, e sofreu retaliação por parte dos apoiadores de Mubarak naquele triste evento do massacre de Port Said: “Tem sido amplamente  observado que as circunstâncias do motim são suspeitas na melhor das hipóteses. O massacre veio no aniversário de um ano da tomada da Praça Tahrir por um grupo de contra-revolucionários pró-Mubarak. Foi dirigido a um grupo conhecido por manifestar uma agenda política liberal através do apoio de uma equipe fundada em nome dos trabalhadores historicamente vulnerabilizados e estudantes. E isso ocorreu em um momento em que o governo militar interino pediu aos cidadadãos para apoiar a extensão dos poderes de emergência, e com a cumplicidade aparente da aplicação da lei e da segurança do estádio.”
Fontes – imagem:: facebook. Citação: ESPN
O crescimento da paixão para algo doentio não é exclusividade nacional: lembrem-se do fenômeno hooligan na Inglaterra, ou da violência nos estádios da Turquia. O esporte pode ser uma válvula de escape para frustrações, preconceitos, questões de identificação, enfim. E isso, a meu ver, se aproxima um pouco da fé religiosa extremada (e acho que o interesse do post do Bule Voador foi fazer essa ponte) apenas pelas consequências, não pelas origens, da paixão. Na verdade, ao representar sua paixão concretamente, o indivíduo preenche o vácuo da sua crise com o futebol como o religioso preenche com a fé, mas daí a gerar fanatismo e a consequente violência, a coisa é mais complexa. Ela não é intrínseca, a meu ver, nem à religião nem ao futebol: ela se dá pelo motor da construção coletiva de um movimento em direção à substituição das urgências do indivíduo pela fé ou pelo time, como símbolos de uma ausência (a crise) que ele preenche na paixão exacerbada. Não obstante, ambos, o fanático religioso e o futebolístico, criam inimigos e a violência que conduzem contra seus inimigos faz parte desse processo todo.
Ontem estava lendo na internet textos sobre Dissonância Cognitiva, algo que ajuda a explicar o que estou querendo dizer. Cito a Wikipédia:
Dissonância cognitiva é um termo da psicologia social, que se refere ao conflito entre duas idéias, crenças ou opiniões incompatíveis. Como esse conflito geralmente é desconfortável os indivíduos procuram acrescentar “elementos de consonância”, mudar uma das crenças, ou as duas, para torna-las mais compatíveis. Este efeito foi descrito pela primeira vez numa experiência realizada nos Estados Unidos por Leon Festinger e Carlsmith em 1959.

Trata-se da percepção da incompatibilidade entre duas cognições diferentes, onde “cognição” é definido como um qualquer elemento do conhecimento, incluindo as atitudes, emoção, crenças ou comportamentos. A dissonância ocorre a partir de uma inconsistência lógica entre as suas crenças ou cognições (por exemplo, se uma ideia implicar a sua contradição). A consciência ou a percepção de contradição pode tomar a forma de ansiedade, culpa, vergonha, fúria, embaraço, stress e outros estados emocionais negativos.

Quando surge a oposição a uma cognição enraizada como um pressuposto autoreferente (todos acreditam em Deus/todos torcem pelo meu time), surge a violência pela incompreensão da alteridade. Pode parecer um exagero, mas para o torcedor fanático, o adversário é o símbolo da alteridade máxima e, por isso, a sua existência é uma inconsistência lógica da sua cognição. Isso gera várias reações, porém por uma crise de identidade e representação do sujeito da contemporaneidade, a reação em geral se dá por esses estados emocionais negativos. A reafirmação de sua paixão completa o sujeito, pois essa paixão está intrinsecamente associada tanto a sua identidade de grupo quanto a sua representação como indivíduo.
A fábula da raposa e as uvas, de Esopo, é um dos exemplos dados pela Wikipédia de dissonância cognitiva: “Quando a raposa percebe que não consegue alcançar as uvas, ela decide que não as quer de qualquer modo, um exemplo da formação adaptativa de preferências, com o objetivo de reduzir a dissonância cognitiva.”
É só pensar no fenômeno corinthiano, do clube de massa, que amplia o escopo de realização do indivíduo cerceado pela opressão social. Eu, são paulino que sou, já neguei isso em não tão priscas eras, mas um amigo corinthiano me fez perceber como esse universo da favela, do pobre, agregado simbolicamente pelo Corinthians expandiu as possibilidades de percepção do indivíduo marginalizado, fazendo-o se compreender como algo além e espelhando-se nas conquistas de seu time. O mesmo processo ocorre quando você vê a quantidade de pessoas que ainda votam e dão suporte ao presidente Lula, mesmo depois de tantos casos de corrupção ligados a ele. A recente ascensão da classe C também explica isso.
Como respondi a uma outra amiga, o futebol é uma representação simbólica, do ponto de vista da identificação “mítica”, digamos assim, não da identificação explicitamente ideológica. O futebol cria mitos e é sustentado por esses mitos, e é só observar os termos associados ao futebol para perceber que estamos no ambiente do mais puro imaginário mítico: a magia, o fenômeno, o fantástico, o mágico… tudo isso faz parte do ambiente extremamente importante do imaginário, e tudo está lá: num chute que acerta o ângulo, numa defesa impossível, numa vitória de um time pequeno, numa disputa de pênaltis, num drible certeiro, numa jogada que fica pra história.
No caso da ideologia fica complicado se identificar, em geral, pela própria maneira como o esporte é gerido. A constituição da sociedade brasileira, que faz com que apenas os mais pobres se tornem jogadores, leva a uma identificação dos torcedores com as origens dos jogadores, mesmo que depois eles rumem para outros clubes e ostentem suas conquistas financeiras. Muitos jogadores fazem projetos sociais em seus locais de origem, como a fundação Cafu, mas acho que o alcance disso está sempre limitado pelos reais culpados pelos problemas do futebol: os dirigentes. Eles precisavam ter uma visão diferente para que o esporte pudesse atingir efetivamente as massas como algo mais construtivo. Mas, do ponto de vista simbólico, é algo bem forte e muito útil o futebol.
Mas, concluindo de maneira incisiva, eu não concordo e, com o perdão da força da palavra, não respeito a opinião de quem reduz o futebol a um mero fator de alienação. Ele é mais uma consequência que um agente e, sinceramente, quem afirma isso tem uma percepção distorcida ou, pelo menos, muito restrita, da realidade social e psíquica que o circunda.
Eu acho incrível que, no fim das contas, as manifestações de todos os lados só deixam mais claro as pessoas amargas e hipócritas que a nossa sociedade criou: quando rola festa de um time por ser campeão todo mundo reclama do pão e circo, diz que futebol é ilusão, alienação, etc. Agora quando vai votar, defender seus direitos, mudar a sociedade efetivamente, ninguém sabe nada de história, nem da mais recente, e ninguém quer debater e discutir sobre política, sobre filosofia, sobre religião… e chama o fã de futebol de alienado! Quando um moleque sai pra rua pra defender seus direitos, é um vagabundo que só quer confusão e, ao invés de estudar, esbanja o dinheiro dos pais com drogas. Quando um professor ou um trabalhador entra em greve, é um vagabundo que deveria estar trabalhando ao invés de protestar. 
Véi, na boa? Alienado é você, que fica debatendo novela da Globo, engolindo passivamente programas mixurucas de tv e se emocionando com as frases supérfluas do Pedro Bial enquanto torce pra seu Big Brother no facebook, e não tolera um momento de alegria de quem gosta de futebol. Excetuando quem reclama pelos seus animaizinhos, que sim, sofrem pacas com fogos de artifício, gastos em exagero nesses momentos, tenho certeza que os que reclamam não estavam na missa, no culto ou no terreiro, orando pra mentira qualquer em que vocês acreditam, durante o jogo de hoje… Mas no carnaval, no reveillon, a quermesse ou em qualquer outra festa você vai estar comemorando muito, né? Até soltando rojão!
Perdão, caro pseudo intelectual de facebook, mas antes de você nascer, o Dr. Sócrates já tava lutando pela sua liberdade. Por isso seja menos imbecil e mais tolerante: não é porque você é infeliz que os outros tem que ser também.
Pode fazer festa Corinthiano! Você merece.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s