Eu não sou conservador

Retirado do genial Olavo da Depressão.
Vi um interessante vídeo ontem de um desses vlogueiros semi-profissionais sobre antiteísmo. Não concordo com todas as palavras do senhor Pirulla, mas uma coisa que eu gostei foi a alegoria da mola, que serve muito bem ao que pretendo expor aqui. A ideia é que as minorias oprimidas funcionam como uma mola que é pressionada até o limite e num dado momento, se expande de uma vez, porém essa expansão se dá violentamente e para além do estado de repouso inicial da mola. Da mesma forma, no exemplo do vlogueiro, os ateus viveram séculos de opressão até um dado momento em que decidiram se expor de maneira agressiva e com algumas atitudes que ultrapassam o limite que eles mesmos deveriam se impor.
Acho porém que poderia compor, a partir daí, um sistema de duas molas opostas: enquanto uma se expande, por vezes, outra se contrai no sentido oposto. Esse sistema, pra mim, explicaria o crescimento do conservadorismo no Brasil.
Desde pelo menos a década de 50 vimos um crescimento nunca antes presenciado dos direitos civis e das minorias oprimidas no mundo. Mulheres, negros, gays e outros adquirem dia após dia mais direitos e espaço na sociedade, bem como novas posturas acerca de temas anteriormente censurados pela moralidade vigente passaram por uma revisão e ganham nova amplitude no mundo moderno. Hoje chegamos num momento onde as conquistas se evidenciam ainda mais, e em que revemos em todos os discursos humanos as posturas assumidas até então: crescem os movimentos cívicos e sociais pelos direitos de todos, pela igualdade, pela liberdade.
A mola que se expandiu, porém, esmagou outra que, agora, começou seu primeiro rebote violento.
Hoje, dia 16 de novembro de 2012, João Mellão Neto publicou o seguinte texto:
Há vários pontos a se destacar, por isso vou por partes. Em primeiro lugar, uma afirmação dessas vindo deste distinto jornalista não soa nova a ninguém que o conhece. Apoiador de Jânio Quadros, ministro do trabalho de Fernando Collor de Melo, secretário de habitação de Paulo Maluf, deputado pelo PFL (atual Democratas), seu currículo é vasto em referências a seu lado conservador, que defende com veemência há anos.
Mas sua intenção no artigo não se restringe ao leitor conservador de sempre, mas a um libelo confessional na forma de um manifesto (dentro dos limites que uma coluna de jornal impõe). Isso fica bem claro na sua última linha:
Os principais países desenvolvidos têm, todos eles, partidos conservadores que disputam e vencem eleições. Por que será que só aqui, no Brasil, os conservadores relutam em se admitir como tal? Se o problema é a falta de alguém que puxe o cordão, tudo bem. Eu me declaro um conservador. E não tenho por que ter vergonha disso.
A ideia é de que o conservador, oprimido pelo pensamento de esquerda, se recolheu e não se expõe mais, não assume o que é de verdade. Como a mola do lado libertário se expandiu, a mola conservadora cedeu seu espaço.
Num outro texto, o mesmo Mellão Neto explica com muita clareza o que ele chama de conservador (o trecho é longo, mas vale a leitura):
O primeiro autor a retratar o conservadorismo foi o irlandês Edmund Burke, no final do século 18. Seu livro Reflexões sobre a Revolução na França e sobre o Comportamento de Certas Comunidades em Londres Relativo a esse Acontecimento foi uma resposta aos excessos cometidos pela Revolução Francesa. Segundo Burke, todas as reformas necessárias poderiam ter sido implantadas sem derramamento de sangue, ou a execução de seu rei.
E o que é o pensamento conservador? Em primeiro lugar, o conservador entende que os pensadores atuais são meros anões nos ombros de gigantes do passado. Eles acreditam enxergar mais longe, mas isso se dá unicamente em função da estatura de seus antecessores. No que tange a ideias, tudo o que existe já foi pensado ou implantado no passado. A única que medrou foi a da democracia liberal – conceito que foi mais bem desenvolvido por Karl Popper na sua obra Sociedade Aberta e os Seus Inimigos.
Os conservadores, por entenderem – como Platão – que a prudência é a maior da virtudes, levam muito a sério o que denominam “teste do tempo”. A ideia subjacente disso é a de que o passar dos anos é o grande algoz das falsas ideias. Elas surgem, empolgam e algum tempo depois desaparecem ou caem em desuso. Se isso é válido até para as ciências, que dirá, então, da sociedade?
O conservador entende que, apesar do gigantesco avanço tecnológico dos tempos recentes, praticamente em nada se evoluiu em termos de moral ou de política. Apesar do conforto material ser muito maior, será que tivemos algum avanço em termos de felicidade? Provavelmente, não. O homem é até mais infeliz porque foi desentranhado de seu hábitat natural. E esse hábitat era harmonioso, uma vez que fora o resultado de séculos e séculos de arranjos sociais, todos eles decorrentes de tentativas e erros através da História.
A ideia geral do conservador para Mellão é que ele busca a felicidade baseado na tradição inaugurada pelos seus antecessores, e que essa felicidade reside numa moral que não está diretamente relacionada ao bem estar social almejado pelas revoluções. A revolução, aliás, é o que o conservador mais abomina : ele crê numa melhoria paulatina da sociedade, em busca de um bem comum (felicidade) intrinsecamente ligado à moralidade e à tradição, e não crê no poder reformador da luta. Em primeiro lugar, a harmonia para o conservador se posiciona num paraíso edênico (o tal habitat natural), que na construção de uma realidade nova pela distorção da antiga. O “retorno às origens”, a sacralidade dá o verniz necessário de moralidade – absorvida do pensamento religioso, portanto – que o conservador precisa para se considerar como tal. E é imperioso, para o conservador, o poder do tempo sobre as ações, nunca do ponto de vista de um materialismo-histórico, mas sim de um ponto de vista platônico. O exemplo da Revolução Francesa volta no texto de hoje.
Outra delimitação importante do conservador para Mellão é da inflexibilidade moral:
Voltando às principais teses conservadoras, um conservador de verdade não tolera o relativismo moral. Ainda no século passado, terríveis consequências sofreram os povos onde ocorreu um colapso da ordem moral, onde os cidadãos transigiram quanto a isso. A moral há de ser uma só, seja ela fruto de revelação divina ou tenha sido forjada pela convenção humana. Ela é o resultado de um arranjo costumeiro, cuja origem data de tempos imemoriais. E é ela que nos preserva do abismo.
A ideia (por mim grifada) de que a moral é única e não-relativa é central no pensamento conservador, e é o que liga intimamente o conservador à tradição religiosa. A ideia de que a moralidade humana “data de tempos imemoriais” e “nos preserva do abismo” é de fácil legitimação religiosa.
A inflexibilidade moral permite ao conservador, por exemplo, advogar contra o desvio de comportamento. É o que faz com que os conservadores sejam contra os direitos de minorias e, portanto, se vejam no direito de criticar o espaço conquistado por aqueles que contrariam a moral. Mesmo que liberdade de expressão seja uma conquista intimamente relacionada com a queda de reis desde a Revolução Francesa, conservador algum se envergonha de advogar a favor dessa causa quando convém. Na verdade, é aí que a inflexibilidade moral se flexibiliza, no discurso.
Isso vem em grande parte do fato de que um conservador é, antes de tudo, um defensor dos direitos do indivíduo, não da sociedade em si. A partir do momento em que o indivíduo moraliza-se, a sociedade caminha junto. Aí que reside, por exemplo, a crítica do conservador jornalista da Veja que esta semana assombrou o país – como é esmero da agenda da Editora Abril – com seu texto dobre gays, cabras e espinafres. Ao invés de submeter meus parcos leitores ao mundo mágico de Guzzo, eu parto direto da definição de conservador, para a Lola:
É típico dos conservadores centrar-se apenas no indivíduo. Assim, não existe contexto, não existe condição social, não existe história, nada. Fracassos e sucessos podem ser creditados a indivíduos, naquela ideologia que todos estamos em condições iguais. Para Guzzo, não há comunidade ou movimento gay, pois o que temos são indivíduos. Se ele não acredita na existência do movimento gay, tampouco deve acreditar que o movimento feminista exista.
Na verdade, cara Lola, o movimento é algo errado pois contraria o conceito conservador de imobilidade. O conservador é aquele que não se mobiliza, que não entra em conflito. Ele acha a ideologização um erro, ele condena a revolução e não vê legitimidade na ação. O conservador, como o nome deixa claro, conserva valores morais ligados a uma tradição antiga e a tradição em si, como repositório da moral.

O problema é que quem advoga ser conservador nunca vai respeitar a tradição do outro. Na sua individualidade moralista, a moralidade é sempre a da SUA tradição. Ora, um islâmico ao chicotear a sua mulher porque ela foi violentada está sendo condizente com sua tradição e a de seus antepassados, não? Mas o conservador não vai ver esse lado, somente o seu lado. Como deixa claro o filósofo (pausa dramática) Olavo de Carvalho, “conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito.”
Quem advoga ser conservador, no Brasil, sempre é um cristão neo-liberal. Em geral, o conservador é intolerante contra o que é diferente, e isso está em Guzzo, em Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, João Mellão Netto e no Padre Marcelo Rossi. E esse é seu eixo moral, aquele que é inflexível. Na verdade, a contradição temporal do conservador incide nessa chave, ou seja, ele crê que o tempo é um senhor soberano para os outros, pois ele crê na atemporalidade de seus preceitos, ademais, naturais.
Acima de tudo, o conservador é um defensor da autoridade.
Eu repudio, veementemente, a autoridade ontológica (isso existe?), aquela autoridade assentada num direito natural, que abraça a autoridade divina e flerta com a monarquia. Ser conservador, num mundo como o nosso, não é apenas uma postura politica, para mim. É desvio de caráter.
Não há razão, por mais honesta que seja a atitude de gente como o Mellão, de se defender a imobilidade, a falta de ação e a ausência de revolução. Não há vida, da mais simples à mais complexa, sem revoluções – sejam estelares, amorosas, íntimas ou celulares. Cito aqui um texto recém descoberto por mim de Jaldes Menezes, professor da UFPB, comentando o livro Porque virei à direita, com depoimentos de iminentes neo-conservadores brasileiros:

No livro dos direitistas brasileiros, a veia polêmica do conservadorismo continua afiada e acompanhada do doutrinarismo histórico. Pessimistas, o ideal de homem do conservadorismo cinge-se a reiterar o passado. Contrários ao novo nos fronts da política e da cultura adoram contemplar a paisagem do grande hotel do abismo. Parafraseando o poeta Manuel Bandeira, não quero sabe de poesia que não seja libertação.
O papo vai longe, mas termino o texto com as palavras da jovem estudante – e bolsista do Prouni – fundadora do novo ARENA:

Queremos implementar mudanças na sociedade de forma gradual, ordeira e com estabilidade. Propomos um jeito de fazer política com convicção, com propostas e focado na resolução dos problemas dos país. As pessoas querem solução e não discussão”.

E assim evoluiremos – sem discussão, sem reflexão, nas mãos invisíveis de um rei imaginário.
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