Pequena reflexão sobre a preguiça

Acho engraçado quando alguém fala mal do Bolsa Família. A crítica sempre pende pra dois lados: ou ele é um recurso assistencialista, que provoca (ou desperta) uma ‘preguiça’ no beneficiado que, sem ambição e contaminado pela malandragem ‘natural’ do brasileiro, acaba por se dedicar a usufruir dos bens oferecidos pelo governo em detrimento do trabalho; a outra crítica é calcada no símile do pescador, que devemos ensinar o trabalhador a pescar, não dar-lhe o peixe.
O perfil macunaímico que se atribui ao brasileiro comum e pobre, esse jeito ‘Jeca Tatu’ é indissociável da sua imagem, principalmente sob os olhares da classe média. O brasileiro pobre, para uma boa parcela da população, ainda é aquele d’O Cortiço de Aluísio Azevedo, que vive uma vida de baixeza extremamente sexualizada, que tem instintos de um animal e a preguiça inerente à sua condição social. Esse é o motivo, para a maioria dos meus amigos professores, pelo qual os alunos não aprendem e pouco se interessam pelo conhecimento, bem como é a justificativa para que a válvula de escape deles seja a displicência, indisciplina e a violência.
Mas quem criou a preguiça? Há uma característica fenotípica, genotípica ou etnográfica que defina um certo grupo como mais preguiçoso que o outro?
O ócio tem sido motivo de discussão desde a antiguidade, mas esse texto não é uma tese acadêmica, portando não preciso voltar a Aristóteles para defender nada. O importante, a meu ver, é que nosso discurso de vagabundagem, de preguiça, tem pouco a ver com um comportamento natural do brasileiro, e muito mais a ver com algo mais humano e, ao mesmo tempo, moldado pela máquina capitalista.
Sim, vou ser um comunista de mierda agora. Me processe.
Num sistema como o nosso, onde o capitalismo deixou de ser um sistema e se tornou uma epidemia, a preguiça é um reflexo puro do desalojamento do indivíduo de sua “função” social. O indivíduo, numa sociedade produtora de dividendos, é um indivíduo movido pela utilidade. É simples explicar isso: eu sou estudante de grego antigo, cansei de ouvir a pergunta “pra que serve” atrelada ao meu exercício intelectual. Por muito tempo busquei responder, até perceber que o problema estava na pergunta, não na minha escolha. É necessário, ao comum usuário do universo acadêmico – que é, ao mesmo tempo, cliente e pré-proletário – que seu estudo seja um “serviço”, seja já um “ofício” ou pretenda ser. Porque no sistema capitalista, o “inútil” não tem espaço, ele não gera dividendos, não move as engrenagens. Eu não faço faculdade porque é um direito meu, nem porque quero exercer uma reflexão filosófica sobre algum aspecto da sociedade, ou da história ou das artes. Eu sou um beneficiário de um sistema que prevê um indivíduo totalmente voltado a sua “função” social, ao utilitarismo, submetido às normas de trabalho e geração de dividendos. Eu, afinal de contas, sou um investimento de todo o país.
O investimento que o país faz em mim, porém, nunca fez nos seus pobres. Isso porque, obviamente, eles não tem como gerar lucro, eles são uma face do sistema que o capitalismo gera e, ao mesmo tempo, ignora. Eles são o resíduo da produção, o resto, o bagaço. E, dessa forma, não são importantes para a máquina. Assim, quando o governo que investe em mim para que eu faça a sociedade andar investe no outro que não contribui em nada para isso, temos dois problemas: ou o dinheiro está sendo gasto à toa, pois esse indivíduo nada tem a oferecer; ou o método está errado, pois se faz necessário tornar o indivíduo útil à sociedade antes de oferecer a ele as benesses da mesma. É o mesmo sistema capitalista, contudo, que leva o indivíduo preguiçoso a ser preguiçoso, pois ele não faz parte desse sistema, ele não se encaixa nas normas, na lógica do trabalho. Trabalhar é uma necessidade apenas se tivermos em vista a subsistência, bem como crescer, ambicionar, é algo que só faz sentido para quem vê para onde se pode crescer. Em verdade, professor, quando seu aluno prefere ficar ao celular a assistir a sua aula, ele o faz porque o máximo de crescimento que seu aluno pode almejar (ou consegue ver como possibilidade) é a fetichização.

Um sistema de utilidade como esse não aceita outro tipo de presença altruísta além do voluntariado, que hipocritamente toma o lugar do Estado no sistema. O voluntariado é apenas uma maneira de suprir o vácuo da assistência mínima que o próprio Estado deveria provir: de maneira a não onerar o cidadão que contribui com seus impostos, esse mesmo se engaja em um esforço não remunerado em prol do outro que não se adéqua ao sistema. A inclusão do marginal via voluntariado é tão superficial quanto a intenção do voluntário em ajudar o próximo, e quem impõe a parcela de dever na ação altruísta é em geral algum sistema filosófico conservador: a religião, a moral, a televisão, etc. Porém, mesmo que não haja troca de lucros concretos no voluntariado, há uma produção de dividendos para o voluntário: seja em abatimento de impostos quando da formação de uma ONG, seja o lucro pessoal de dispender uma parte do seu tempo útil para o outro, seja pela conquista de um status de benfeitor que o permitirá uma melhor avaliação por parte da sociedade. E não é à toa que o voluntariado seja deslocado para o tempo livre, pois ele é uma forma de utilitarizar o ócio e, não obstante, por não envolver troca concreta de dividendos, não é uma atividade que faz parte do “horário comercial”, da vida útil do cliente/cidadão.
Por isso a meritocracia é tão valorizada no nosso mundinho de ascensão econômica. Por isso vemos a classe média brasileira em polvorosa com a possibilidade de perder o seu espaço “de direito” nas universidades de excelência por causa de cotas, sejam raciais ou sociais. Na cultura do mérito – que bebe do ideário conservador, religioso e moralista, para se sustentar -, o desprivilegiado não é uma mazela social ocasionada pelo sistema, mas um indivíduo que precisa se adequar ao mesmo sistema para “vencer” a corrida do capitalismo. É como se enxergássemos o pobre como o Felipe Massa, que depende – hipoteticamente, claro – apenas de seu talento para derrotar Fernando Alonso, quando na verdade ele é um piloto de uma equipe minúscula, que não tem recursos para conquistar esses espaço pois está excluído do sistema que permite a um piloto ser campeão. Vai sempre aparecer, aí, aquele a dizer que Alonso não começou na Ferrari, que ele surgiu lá na Minardi e foi galgando espaço com seu esforço e dedicação, uma dose de sorte e talento. Mas nunca ninguém vai falar de todos aqueles pilotos que não frutificaram, seja por falta de talento, ou porque não tiveram o investimento de um Banco Santander por trás de suas carreiras. É assim que tratamos o pobre, no Brasil.
O Bolsa Família não é a solução de nada, não é a redenção dos pobres, nem seria adequada às minhas próprias ideologias, mas também não é o demônio que tirou o porteiro de seu prédio. O problema é que a concepção de um sistema de distribuição de renda é o oposto do que uma sociedade capitalista pretende ser. E, psicologicamente, o indivíduo mergulhado nesse sistema tende a ver apenas o reflexo superficial, o recorte do problema. Uma sociedade voltada para a economia como pilar só se sustentará quando perceber que renda é um não é um bem, é um recurso que precisa ser distribuído e não concentrado.
A preguiça não é um problema do indivíduo, é um problema do capitalismo. O ócio criativo não existe mais quando vivemos numa sociedade que capitaliza o ócio, que vende conhecimento humano e compartimentaliza a individualidade. Enquanto olharmos para o reflexo do problema ao invés de suas causas, não conseguiremos atingir o senso crítico necessário para superar o problema.
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