No que você está pensando?



Se teve uma coisa que eu aprendi nesses anos de vida, foi que não preciso ser cristão para entender a importância de algumas coisas que o cara disse.

Uma vez, segundo a crença, ele disse em alto e bom som ao proteger uma prostituta do apedrejamento, algo como “atire a primeira pedra aquele que nunca pecou”. É um dos adágios mais velhos do mundo, e um dos menos praticados.
A cena clássica de A Vida de Brian, filme do grupo inglês Monty Python, mostra da maneira sarcástica que lhes é característica como a humanidade não entendeu essa mensagem.

Vivemos sempre como as mulheres disfarçadas de homens dessa cena: apedrejando o outro pela diversão de apedrejar, como se não tivéssemos nós também um “telhado de vidro”.

Aliás, pior: como se não fôssemos nada mais que o outro para aquele que discriminamos. Tenho notado que há um culto atual ao mau humor, muito em voga na rede social mais popular, o Facebook. Por algum motivo, a “pessoa falsa” é um dos inimigos mais terríveis dos usuários de facebook. É só jogar no Google as palavras “falsidade+facebook” para ver não apenas a proliferação de páginas do site ligadas ao tema como sites dispostos a produzir as famosas “montagens” com imagens só desse tema.
Difícil dizer como a cabeça funciona na hora de eleger o seu diabo pessoal, ainda mais quando esse diabo é reproduzido em massa. Ao afirmar que “a civilização atual a tudo confere um ar de semelhança”, Adorno e Horkheimer identificaram a questão pontual, a meu ver, da reprodutibilidade automática de um comportamento nos veículos de massa. O facebook vende um produto muito claro, a meu ver, que é a imagem idealizada do próprio indivíduo que frequenta o site. Eu já discuti sobre isso no blog, quando comentei sobre redes sociais, mas cada dia é mais frequente o apagamento do indivíduo perante a sua versão digital. Ainda mais quando consideramos o espaço em branco da exposição, o mural, onde estão as convidativas palavras: “No que você está pensando?”
As pessoas projetam, nesse espaço, uma simulação de si mesmas que não condiz, nunca com a verdadeira pessoa que são. Todos fazemos isso, mas o problema é que muitos não percebem isso, fazendo desse espaço o termômetro de sua existência real. É complicado que, como um mediador seguro e frio de pessoas, o espaço de expressão do facebook serve como escudo ao mesmo tempo que, como “espaço em branco” é uma segurança para a sua auto-exposição, pois é como se jogássemos palavras ao vento, na certeza da aceitação de alguém. O isolamento nesse casulo informático macula a essência de tal forma, que criamos um subproduto de nós mesmos e o vendemos muito barato (Adorno/Horkheimer de novo). 

Por mais paradoxal que seja isso, virou moda ser anti-social na rede social… Sinal da depressão coletiva que assola a humanidade? Não sei, mas a quantidade de inimizades, problemas de relacionamento, brigas que surgem por causa do que se “curte” ou “compartilha” me assusta.
Essa semana mesmo li um texto muito interessante no techtudo sobre os problemas da equação “relacionamento+facebook“. Há uma história singular ali, que demonstra o quanto as pessoas perderam a noção do que são e dos limites entre o mundo virtual e o real:
“No dia dos Namorados, Aline recebeu, na empresa em que trabalha, um buquê de flores com um lindo cartão. Adorou as flores, se emocionou com o cartão e os deixou sobre a mesa. Horas depois recebeu uma mensagem pelo celular. Era seu namorado perguntando por que ela ainda não havia postado uma foto do buquê no Facebook. Aline, desorientada tentando encontrar uma resposta, se fez de desentendida. Piorou a situação, pois o namorado enviou uma mensagem ainda maior, indignado. Considerou um absurdo e estava muito triste por ela não publicar a foto das flores no Facebook. Continuou dizendo que, para ele, aquilo seria o reconhecimento do amor dele por ela, já que poucas mulheres receberam flores no trabalho nesse dia e que as que receberam, pelo menos as que ele conhece, postaram no site. Para o namorado de Aline, ela não deu a devida atenção ao presente. E o agradecimento dela deveria ser em público para que todos pudessem ver o quanto ele a ama. A história é real, apenas troquei o nome da personagem que recebeu as flores.”
A necessidade de reconhecimento passa pelo “mural” do facebook. E isso demonstra uma grotesca incapacidade de se sentir aceito fora desse mundo virtual. A legitimidade de um relacionamento estar submetida à rede social é um sintoma do apagamento de muito da essência dessas relações no mundo real. E, em muito, é a demonstração mais clara de como se padronizou a imagem e o comportamento dos indivíduos. A própria matéria acima demonstra isso, quando diz que vivemos rodeados de imagens do que devemos ser, de como devemos nos comportar, de expectativas, sonhos… Na sociedade da informação, tudo isso é mais rápido, mais supérfluo e pode gerar dividendos, claro. E, de tal forma, até depressão coletiva vira produto.

Aliás, cada vez mais, a versão digital dos usuários de facebook é mais antipática e intragável. Virou moda, por exemplo, a intolerância com a opinião alheia ao invés do debate. Páginas com montagens e frases ofensivas e vazias, como “Inveja de mim? Entra na fila” ou “Se eu não pedir a sua opinião, guarde ela pra você” demonstram um ser humano fraco, inseguro e que usa da arrogância para se defender.
E eu não faço a menor ideia se a frase é dele mesmo.
Mas é difícil entender, pra mim, como isso torna alguém melhor. Não que eu acredite na capacidade das redes sociais de melhorar o ser humano, mas cada vez mais elas pasteurizam o que há de útil e reproduzem o pior dos comportamentos. Frases machistas, intolerância, fascismo. Parece que tudo que permite ao ser humano um palanque de expressão logo é dominado pelo tipo de comportamento mais conservador, mesquinho e infantil. Pior, de pessoas que falam isso aos quatro ventos, e de tantas outras que se dão ao trabalho de “curtir” tudo ou “compartilhar” sem nem pensar nas consequências de seus atos.
Nessa logica bizarra, o ser humano é a própria mercadoria, e é consumido por ela. Sim, é a fetichização de um produto que é a sua própria imagem. Não é difícil se distanciar disso, mas é necessário aprender a lidar com esses novos “eu-líricos” que criamos no mundo virtual, os eu-informáticos, que poluem a nossa vida com a veemência de um personagem em guerra com seu autor. O problema é que o autor é inconsciente do personagem que criou, e o personagem vira a doença desse autor. E eu falo em doença porque, no Japão por exemplo, a doença da anti-sociabilidade já tem nome: os Hikikomori.
A epidemia de azia do facebook já demonstra que ninguém aprendeu nada e, pior, como nossas relações sociais se deterioraram. As pessoas estão esperando sinceridade, compreensão, afeto, atenção em uma página de internet e, para tanto, estão expondo o pior lado do personagem que criaram para si.
Uma matéria muito interessante do Kotaku sobre o excesso de paixão na internet diz algo pontual para essa análise:

Importe-se menos. Matt Atchity lembrou bem que existem coisas mais importantes com que se revoltar; xingar os críticos que não gostam da coisa que você gosta é algo insignificante no contexto geral. Mas eu digo que isso é só um sintoma: a causa desse comportamento é muito mais profunda. É o resultado de permitir que os produtos que você consome, ou o hobby em que você se envolve, definam você.
Eu já passei por isso e foi bom finalmente abandonar o barco. É muito doloroso levar a negatividade para o lado pessoal, e é cansativo ser uma “pessoa com raiva na internet”. Você é mais do que os jogos que joga, filmes que assiste e música que ouve. Então, não precisa se importar com os outros ou levar para o lado pessoal quando os outros não gostarem daquilo que você ama.

Desde quando começamos a ser definidos pelo que consumimos, e não pelo que somos de fato? Quando começamos a nos importar mais com o que os outros dizem sobre o que consumimos que com o que nós mesmos nos responsabilizamos, como pessoas? Quando transformamos uma “REDE SOCIAL” em uma simulação fútil de uma sociedade de negativismo e intolerância? Quando foi que decidimos substituir o “humor no face” pelo “não tô nem aí pra você”? Quando entregamos nosso caráter em prol de uma simulação mal feita de nós mesmos?

E a pergunta que mais me angustia: tem volta?

Bem, eu sempre tento fazer como os próprios caras do Monty Python me ensinaram:

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3 comentários em “No que você está pensando?

  1. Fábio: gênio!

    Cara, é exatamente isso. Curti demais os seus pensamentos a respeito da idealização de nós mesmos no mundo virtual, cada vez mais longe da essência.

    Curti mais ainda as relações bem humoradas com o Monty Python hahaha aquele filme é sarcasmo puro, do refinado!

    Creio não ter nada a acrescentar, então vou ficando por aqui.

    Espero que tudo esteja indo as mil maravilhas aí em SP!

    Abraços,
    Rebecca.

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  2. Confesso que parei de postar no Facebook assim que percebi que existia a possibilidade de que pessoas ficassem chateadas com alguns dos meus posicionamentos, assim como alguns me deixam numa situação desconfortável. Exemplo maior: quando eu, que não costumo falar de crenças, vejo alguém dizendo – diretamente, às vezes – que as minhas são besteiras questionando minha capacidade de raciocínio ou honestidade, ou fazem uma tremenda generalização estendendo algum fato muito longe da minha realidade para o que imaginam que é a minha vida.

    Sim, seres humanos são mais sensíveis do que deveriam. Ainda bem que nem todos ou o Facebook estaria vazio.

    Eu sei que você considerará isso tudo baboseira, mas gostei do texto e gosto do blog.

    Um beijo enorme.

    Ana.

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