Quid pro quo 2

Clique para ler o Quid pro quo 1.

Bem, antes de tomar as duas atitudes imediatas que nos moveriam, dar play no vídeo sem pensar ou rechaçá-lo por ser protagonista do mesmo quem o é, é necessário refletir de maneira mais profunda e objetiva sobre o que representa esse discurso.

O senador Collor é um alvo fácil para qualquer crítica, ou melhor dizendo, é sempre pressuposição óbvia que suas palavras são indissociáveis de seu histórico, como presidente deposto por esquemas de corrupção. Isso posto, ouvi-lo pronunciar-se contra a corrupção é algo que causa urticária não apenas em mim, eu sei, mas em qualquer um que tenha acompanhado ou não o processo que o levou ao poder e, em seguida, o depôs mediante a opinião pública. O que está em jogo – e estará sempre, inescapavelmente – é a moral de qualquer palavra dita por este cidadão, mesmo já passados vinte anos de sua derrocada do posto maior da nação. Contudo, mediante as circunstâncias em que nossa política se construiu ao longo desses anos, de como se estruturou o poder e, principalmente, da mudança de certos paradigmas no jogo de forças que cada elemento representa, é necessário não apenas que um discurso como o posto aqui seja realizado, mas que saia, a meu ver, da boca do senador Collor. O que digo poderá soar contraditório, haja vista minha posição explicitamente esquerdista em todos os aspectos que concernem o humano, mas não é com esse verniz fácil também do comunista verborrágico que eu quero me colocar. 

O criminoso da vez é Roberto Civita, é Carlos Cachoeira, é Demóstenes Torres, Policarpo Jr., Perillo, Agnelo Queiroz e quem quer que faça parte desse esquema sujo. Mas, muito antes disso explodir como escândalo, criminosas relações entre o contraventor e a revista de Policarpo Jr. e Civita têm guiado a imprensa nacional há pelo menos 10 anos, como afirma o senador. É fácil, óbvio demais, desconsiderar o discurso de Collor mediante seu passado, mas se fosse exatamente a mesma peça oratória nas mãos de outra figura admirada do senado, como um Eduardo Suplicy ou algum que agrade a diretriz política pessoal, como Aécio Neves para os PSDBistas ou uma Ana Rita, para os PTistas, esse discurso talvez fosse reproduzido no Facebook, como um exemplo de moral e retidão do senador, bem como utilizado como denúncia em montagens diversas e também fáceis em seu alcance, propósito e divulgação. Mas, criminoso por criminoso, como não se perdoou Collor, não se deve perdoar Demóstenes, Cachoeira e Policarpo. Não se deve perdoar a Veja, ou mesmo o grupo Abril. 

São Policarpo e Civita que levam à escola de seus filhos uma revista sustentada pelo crime organizado, que se vale de interesses escusos e cria factóides em prol de uma moral distorcida e enviesada. A Veja não é assustadora pelo quanto vende, mas pelo quanto é DISTRIBUÍDA. Ela é lida gratuitamente em escolas, em consultórios médicos, em casa, no vizinho, na universidade, no SESC. Se Collor é eternamente o presidente criminoso derrubado pelo Impeachment, pelos “caras-pintada”, ele é o mesmo presidente posto no poder por Civita, por Marinho, o “caçador de marajás” da clássica revista Veja da época de sua eleição. Não é baluarte de moral, mas desde quando a Veja, a Abril, a Globo o são? Desde quando meios que tem relações escusas com bandidos diversos como Ricardo Teixeira, Cachoeira e outros é alguém a ser considerado? Se se critica Lula e o PT por alianças com gente como Sarney e o próprio Collor, porque não se criticar a Veja por sua aliança com Cachoeira? Porque não criticar Policarpo por defender em CPI o próprio Cachoeira, em escândalo denunciado pelo próprio Collor no vídeo acima? Quem pode se chamar de baluarte da moral em meio a essa “confraria” de bandidos? Aliás, a pergunta maior é o que torna a imprensa a única detentora da moral, se é ela também que detém em suas mãos o maior poder da era da informação, que é a veiculação da própria?

É muito bom para a nação que esse discurso tão claro, pontual e verdadeiro, seja proferido por quem foi. O que tudo isso implica, a reflexão que constrói, é capaz de levar-nos para um outro lado da discussão política, para além do discurso empobrecido e sucateado de “todos são corruptos” ou de “todo problema no Brasil é causado pela corrupção”. O que é o nosso senado, a nossa câmara, o nosso sistema político partidário? E, ademais, o que é a nossa imprensa, qual o poder que ela realmente possui, o que se faz dela e na mão de quem ela está? Ainda mais grave: na era da informação, onde está essa informação?

Não sou capaz, ainda, de aplaudir o senador Collor. Mas sou capaz de ouvir esse discurso como um sintoma de uma mudança de paradigma que nos obrigará a passar sem medo por questões difíceis como sigilo da fonte, liberdade de imprensa e reforma política. Ou isso, ou apenas nos conformaremos, e nunca daremos play no vídeo acima.
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