Ciência – Religião

Saiu uma pesquisa detalhada no Estadão sobre como Jovens brasileiros conciliam ciência e religião.
A pesquisa, como disse um amigo que compartilhou a matéria no facebook, mais me assusta que traz alento. É realmente assustador que 36% dos jovens brasileiros, um número deveras expressivo, não “concordem” com a ideia de que “as espécies atuais de animais e plantas se originaram de outras espécies do passado”. Mas, quando pensamos no doutrinamento religioso da crescente corrente neopentecostal associado à péssima educação fundamental que possuímos no nosso país, fica fácil compreender o porque de tal porcentagem. A coisa fica mais complicada ainda quando lemos coisas como a seguinte:
“Para a filósofa e educadora Roseli Fischmann, os resultados da pesquisa são “compatíveis com a capacidade dos jovens de viver o mundo de descoberta da ciência sem abalar sua fé”.”
Tenho um problema sério com a ideia de conciliar religião e ciência. De fato, muitos acham que uma coisa não exclui a outra, mesmo quando tratamos de assuntos como a Evolução, que numa reflexão lógica excluiria essencialmente a ideia promulgada, por exemplo, pela Bíblia, de que os homens já nasceram à imagem e semelhança de Deus e são diferentes dos animais. mas as pessoas parecem não compreender que o pensamento racional, em geral, é uma oposição ao pensamento religioso e dogmático. Não sei se a dificuldade em compreender a questão é mais influente que a filosofia promulgada por religiosos de todas as correntes, ou se justamente a influencia desses religiosos incide sobre a dificuldade de compreensão das pessoas de alguns conteúdos básicos. Por vezes penso que o processo evangelizatório impõe uma barreira mental à absorção e conteúdos que contrastem com os conteúdos religiosos em vários níveis, e ao delimitar o acesso do fiel à reflexão por intermédio do dogma, se estabelece uma estratégia de dominação interessante.

É só atentarmos para a ideia de que humanos não são animais, que está evidente na pesquisa e em vários comportamentos ideológicos que vemos por aí. Não faz o menor sentido, para um observador com o mínimo de bom senso, mas é o que supõe-se a partir da leitura que se faz da evolução mediante a visão enviesada dos leitores da bíblia. Parte-se do conceito de que o homem foi feito “à imagem e semelhança de Deus” e que ele é o senhor da Terra e dos animais para limitar a extensão do reino de Deus ao que é humano e aquilo de que o humano assenhora-se, e do que ele concebe em si. A medida de todas as coisa, porém, é o que transcende esse humano e legitima seu poder: a palavra. De tal forma, a legitimidade do reino de Deus passa pela legitimidade da palavra que, como verdade, é intransponível por qualquer ciência que seja. Intransponível no sentido de que não se pode cruzar ambas, de fato, em qualquer viés de análise que considere necessária a ideia da irmanação entre homens e animais, pressuposta a origem comum de ambas. E intransponível porque não pode ser deposta em prol de nenhum discurso que se veja mais coerente pois a palavra se sustenta na própria existência para se justificar – ela é o mistério indecifrável ao mesmo tempo que é a verdade absoluta, um paradoxo convenientemente insolúvel.

É deveras complexo, no entanto, na era da ciência, a imposição cega do dogma que não leve em conta o mínimo de noção da história científica e seus avanços. A inserção artificial da esfera científica na religiosa (e falo de inserção porque é hipocrisia ver as esferas como partes de um todo, sendo a religião a única verdade para o fiel) pretende-se mais, a meu ver, uma defesa da religião frente ao racionalismo que uma aceitação de qualquer teoria científica. Dizem que aceitam o que a ciência tem a oferecer mediante as mudanças sociais implementadas pela mesma, mas não a custo de seus dogmas e tradições. O que não percebem os religiosos é que a imutabilidade não é coerente com o questionamento, o que opõe diametralmente ciência e religião.

Assim, da mesma forma, como a autoafirmação é parte intrínseca do processo evangelizatório, afirmar que há qualquer tipo de convergência entre teses científicas e dogmas religiosos tira força da ciência, mas não da religião. É interessante para a própria religião que ela se coloque como acolhedora (é a sua função, inclusive, a nível psicológico), portanto, acolher para si o discurso científico passa a falsa ilusão de plenitude do discurso religioso, que abarca todos os outros. Assim, ao mesmo tempo, menospreza qualquer possível atrito pela autoafirmação de seus dogmas sobre os discursos que contém, submetendo-os (e seus métodos) às suas próprias idiossincrasias – haja vista qualquer debate alçado ao nível político, que envolva o questionamento de dogmas religiosos: sempre o discurso religioso se coloca como anterior e superior ao secular.

Isso é apenas uma curta reflexão; o debate é muito mais longo e produtivo que o que está exposto aqui. Mas nenhuma discussão séria sobre isso, a meu ver, podemos observar de cima do muro. Nesse caso ainda mais pois para mim não há caminho no meio entre as duas visões de mundo: ciência é o contrário de religião. Devemos deixar de lado a ingenuidade e assumir nossos discursos, pois passou da hora de assumirmos que, mediante seus mais rígidos aspectos nocionais, ciência e religião são sempre excludentes e, porque não, reciprocamente substituíveis mediante a postura que se assume diante do mundo.

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PS: as imagens são retiradas de um blog que tem a visão oposta a minha, e acho que vale a visita, para expandir a discussão: http://www.criacionismo.com.br/

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Um comentário em “Ciência – Religião

  1. Engraçado que ninguém pergunta se os religiosos acreditam na Arca de Noé. Porque aí, meu caro, não é desacreditando o Darwinismo que você pode provar que religião e ciência não são inconciliáveis. A história da arca é definitivamente, cientificamente impossível, e acreditar nela significa desacreditar na ciência (e no bom-senso, eu acrescentaria). Mas claro, alguém vai dizer que certas passagens da Bíblia não são literais, que não é tudo o que está na Bíblia que você pode levar ao pé da letra, etecétera etecétera. Mas isso só fragiliza ainda mais as crenças religiosas: quem é que te diz o que você pode levar ao pé da letra e o que você vai interpretar como parábola? Qual é a utilidade da palavra de deus se você sequer consegue saber quando se está falando em sentido figurado, literal ou contrário? Se for assim, eu posso abrir a Bíblia, interpretar do jeito que eu quiser e dizer que a Arca de Noé representa a seleção natural ou algo do tipo. Podem me chamar de radical, mas alguém que acha ser possível conciliar religião e ciência ou não entende direito do que está falando ou está mentindo pra si mesmo e forçando a barra.

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