Jesus e o cachorrinho


E o facebook, que já era o palco substituto do sensacionalismo à lá Cidade Alerta, virou a farra do boi!

De um lado aqueles que desejam a cabeça da enfermeira que agrediu um Yorkshire até a morte deste.

Do outro, pessoas que se dizem indignadas com as pessoas que se preocupam mais com os direitos dos animais que com direitos humanos.

Pra mim, é doente quem acha que não há nada demais em se maltratar um animal até a morte, bem como quem acha que isso não é motivo de indignação.

Mas não se exclui o fato de que há uma desmesurada comoção com os eventos de violência contra os animais em relação proporcional com a comoção para com a violência cotidiana contra outros seres.

Porém, diferente da opinião encontrada neste texto não considero essa uma falácia argumentativa, pois a atenção atrela-se a postura tipicamente atual de uma sociedade onde, como li num outro texto ótimo que postei hoje no meu facebook, “a quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos”.

Vivemos em uma sociedade de pessoas isolacionistas, que se protegem com o escudo da internet para despejar tanto seus preconceitos, quanto o politicamente correto.

É excelente poder estar em uma sociedade onde as pessoas podem dar sua opinião abertamente.

Nós vivemos numa época onde qualquer pessoa pode ler uma receita de um bolo feito na República Tcheca ou um livro do Durkeim sem sair de sua poltrona.

Mas, da mesma forma, a consequência da liberdade de expressão é uma autorregulação social natural derivada da possibilidade de TODOS poderem opinar.

Quando as pessoas dão a cara a tapa na internet, elas agem em prol do que acreditam sem medos, pois não são pessoas físicas e situações físicas.

Muitos que hoje se expressam abertamente sobre o que pensam do mundo antigamente não o fariam em seus grupos sociais com medo de represálias.

Agora seus grupos sociais são virtuais.

Eles são mediados com apenas um clique num botão que exclui aquela pessoa de seu círculo, ou deleta o comentário que vc não quer ver.

Logo, perdeu-se o medo de opinar, pois a réplica é mediável!

E, assim, confunde-se inconsequência com opinião.

Outra maravilha criada no âmbito do facebook é o botão de compartilhamento.

Ele permitiu que tudo chegue a todos imediatamente.

Assim, se vc nutre o mais vil gosto, vc não mais se esconde: vc sabe que há alguém dentre as bilhões de pessoas que compartilham esse gosto.

Compartilha-se preconceitos, censuras, campanhas e mobilizações.

Mas poucos compartilham reflexão, ideias ou ainda levam essas discussões pra outro âmbito.

Tenho acompanhado algo interessante que demonstra claramente a falta de noção das pessoas sobre o que é o politicamente correto.

É um exemplo que podemos usar para refletir, também, sobre o caso do pobre cachorrinho.

Há uma página no facebook chamada “Jesus Bêbado”.

Ela propaga brincadeiras e críticas severas e, porque não, ofensivas à religião, especialmente a cristã.

Da mesma forma que outras páginas, como a “Eu ODEIO o Corinthians (GAMBÁZADA)” que propaga brincadeiras, muitas extremamente ofensivas, com corinthianos.

E é só procurar que vocês acharão mais coisas do tipo.

Mas, eis que um grupo de cristãos quer banir a página do “Jesus Bêbado”.

O argumento do grupo é “Ela é, totalmente, abominável, e sarcástica com todos os que acreditam em Deus!”

Podem falar que eu estou exagerando mas, em pleno século XXI, “Jesus Bêbado” está sendo acusada, vejam vcs, de heresia!

Porque nenhum corinthiano vai mandar fechar a página “Eu ODEIO o Corinthians (GAMBÁZADA)” porque se sente ofendido.

Provavelmente ele vai abrir uma ofendendo quem ofende o corinthians.

O que temos aqui, e no caso da enfermeira, é a desvirtuação da ideia de politicamente correto em prol de uma necessidade de expressar a todo custo que vc se importa, seja lá qual for a opinião.

Vivemos a ditadura do indignado.

Sua opinião é válida, mas desde que encarada dogmaticamente, ela é imposição.

Não tem como dizer que maltratar um animal é defensável.

Isso não é uma opinião.

Isso posto, penso que a reflexão deve dar-se no meio termo entre duas leituras: por um lado, um crime é um crime e merece punição; por outro lado, há mais coisas para se pensar e refletir que a mera reprodução de um discurso massificante sobre a punição.

A generalização é imbecilizante, e o argumento sempre perde força.

Mas é importantíssimo nos atermos a duas consequências dessa propagação da indignação internética, uma boa, outra ruim.

(1) A divulgação de retratos de criminosos, bem como de campanhas de mobilização são maneiras de tornar esse Facebook finalmente mais do que um simulacro das relações sociais.

Da mesma maneira, a simples existência de uma possibilidade de engajar-se num debate, ter acesso a diversas opiniões e poder refletir a respeito disso é um fruto muito bem vindo das redes sociais.

Qualquer possibilidade de exercer seu senso crítico, de debater e de conhecer mais é bem vinda.

Se o Facebook, filtrando as bobagens, pode permitir que nossos debates de salas de aula, reuniões de amigos, bares e etc. saiam desse espectro e atinjam mais pessoas e permitam a reflexão, ele já vale a existência.

(2) A tendência à falácia é constante e quase inescapável, bem como a falta de noção das pessoas de que um espaço público de divulgação de ideias precisa de bom senso, senão vira apenas um palanque de oradores vazios, pros dois lados.

Não entendo, por exemplo, como pessoas podem reclamar de uma enfermeira que massacra um yorkshire e continuar indo em rodeios.

O problema da maioria das pessoas é a falta de argumentos, ou da noção argumentativa.

Se vc defende a vida, como eu defendo, divulgue a cara dos criminosos para que eles sejam presos.

Agora, divulgar corpos de animais estraçalhados, cenas de morte e violência em nada ajuda quem foi vítima.

Bem como reclamar a esmo pra que as pessoas vejam que vc é uma pessoa indignada só demonstra que a moda de “xingar muito no twitter” mudou apenas de rede social.

E todo mundo tirava sarro da fãzinha do Restart…

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Um comentário em “Jesus e o cachorrinho

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