Manifesto Photoshop

Não…. você não entrou no blog errado.
É que faz-se necessário fazer uma reflexão sobre a existência dessa mulher.


Ela protagoniza uma imagem tem poluído minha mente nos últimos dias.
Essa é Gracyanne Barbosa.
Ela faz parte de uma categoria profissional que existe desde sempre no Brasil: as gostosas profissionais.
Existem de vários tipos e origens, mas ela é aquela que, de início, não estava atrelada a nenhum nome ou movimento “musical”, programa de tv ou coisa parecida.
Mas, é inegável, ela se tornou muito mais famosa com a sua relação com Belo, o pagodeiro, substituindo outra gostosa profissional, Viviane Araújo.
Mas a reflexão aqui é mais séria e necessária que a carreira amorosa (OU MUSICAL) desse pagodeiro.
Porque esse ensaio de nudez traz consigo um manifesto da Revista Sexy.
Um manifesto em defesa do uso do programa da Adobe Photoshop:
Muito se tem visto e comentado sobre o abuso do uso programa.
Originalmente ele era apenas usado para retoques simples nas imagens.
Depois, ele virou ferramenta para “melhorar” as mulheres.
A Sexy, não à toa, se viu no dever de defender o uso do Photoshop justamente em uma de suas capas mais polêmicas.
E afirmou que NÃO utilizou o retoque nas “formas e proporções perfeitas e legítimas de uma genuína mulher brasileira”.
Não sei o que mais me assusta: imaginar que a revista mentiu ou que tudo que aparece naquelas imagens é mesmo do corpo dessa mulher.
Nada lá é legítimo, genuíno ou ainda proporcional.
É só olhar para aquele bumbum.
As formas de um bumbum avantajado não são, naturalmente, aquelas.
Quem já viu um bumbum grande, ao vivo, despido, sabe disso.
Depois, ao vê-la de frente, exibindo aquele abdômen, faz-nos pensar se o artificial não está mesmo na mulher ao invés do programa.
Não é o modelo de beleza anoréxico das modelos internacionais.
Não é o modelo de beleza da brasileira.
É um novo modelo que surgiu e se expandiu com o crescimento e popularização da cirurgia plástica.
E, consequentemente, com a exposição de figuras como ela na mídia.
E que me faz pesar: o que é uma mulher gostosa?
Sim, cada um tem seu gosto.
Mas seria uma mulher como Gracyanne, com formas que exigem que uma revista faça um manifesto em prol de um programa de manipulação de imagens, realmente “gostosa”?
As mulheres de verdade, que viraram até propaganda, são as primeiras a atacar esse perfil.
Mas não há mulher que, na sua vaidade perfeitamente justificável, não pense em um retoque.
Eu não sou contra isso.
Silicone é só mais uma maneira de deixar uma mulher mais bela.
Acho que quem quer e se sente bem e bela com intervenções o deve fazer.
Mas penso, toda vez que vejo celulites apagadas em capas de revista, alterações em formas, apagamento de rugas, que há uma distorção incrível na concepção do que é a real beleza feminina.
E isso, apesar de parecer um papo de homem, é pra mim um problema muito maior. É um problema de filosofia.
Quando vivemos num mundo como o atual, onde a imagem importa mais que o conteúdo, o ensaio de Gracyanne é o reflexo direto de uma filosofia de vida.

A filosofia de uma sociedade que se entregou para o artificialismo da beleza feminina.
A mesma sociedade que ancora parte de sua identidade na figura feminina.
Nossos tesouros são o samba, a natureza, o futebol e a mulher brasileira.
Temos a garota de Ipanema, o carnaval…
A sociedade brasileira é sexualizada.
Somos o país do biquíni fio-dental. Há uma depilação chamada de “brasileira”.
Somos, infelizmente, o país da prostituição também.
Do tráfico de mulheres. Das mulheres “fáceis”.
Essa é a imagem do Brasil há muitos anos…
E Gracyanne faz parte de uma filosofia de vida que envolve, inclusive, a sua relação com o cantor Belo.
Mulheres como ela (talvez não com as mesmas formas) aparecem todos os dias se vangloriando de serem cobiçadas por jogadores de futebol, músicos, subcelebridades.
Se expõem incessantemente em troca de holofotes e uns trocados.
Lutam por um espaço em revistas de ensaios nu.
E fazem da exposição de seu corpo e de sua sexualidade (porque não vejo vergonha alguma no uso do corpo e na exposição do mesmo) o veículo para sua ascensão social.
E se entregam a um vício social que reflete-se nessa necessidade da exposição perfeita.
O problema é que a noção de perfeição se perverteu.
Assim como, se isso é perfeição, não precisamos, homens, de mulheres como Gracyanne.
Precisamos de mulheres com celulite, com formas avantajadas sim, mas dentro da normalidade.
É um problema de percepção, de visão do mundo.

A foto ao lado é a foto de uma brasileira, Anne Midori.

Ela é uma mulher brasileira típica. Mestiça de orientais, com formas proporcionais e de uma beleza inegável.
Nosso país é um país de belezas diversas, de diversidade de semblantes e de corpos.
Essa foto também é de um ensaio de nu.
De uma revista dessa, acho que da Playboy.
E não há nenhum Photoshop nessa imagem.
Que me faz pensar que há uma vulgaridade na exposição natural do corpo sarado e desproporcional de Gracyanne que não há no corpo de Midori.
Se eu apresentasse as imagens das duas à paisana, sem dizer quem é cada uma delas, quem será que você diria que é a atriz pornô?
Anne é uma atriz pornô.
Uma atriz pornô, que em sua explicidade ginecológica, é mais natural pra mim que uma mulher como Gracyanne.
Mas que comportamento seria censurado? O de Anne, ou o de Gracyanne?
Porque a vista grossa com a prostituição da imagem?
A diferença entre Anne e Gracyanne, nas fotos acima, é uma questão de postura, de comportamento. Não das duas moças apenas, mas de toda uma sociedade.
Vulgaridade está na sociedade, eternamente machista, que imprime um padrão de comportamento e beleza distorcidos para as mulheres.
Ou você é uma modelo anoréxica ou uma siloconada deformada.
Assim como a questão da “beleza” de Gracyanne transcende suas formas exageradas, seu comportamento e o comportamento das pessoas perante isso tudo é um alerta sobre a maneira como nossa sociedade enxerga a mulher brasileira hoje em dia.
E é tudo muito mais sério para ignorarmos Gracyanne e o manifesto da Revista Sexy.
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Um comentário em “Manifesto Photoshop

  1. Lembrando que o Brasil, pobre como é, é campeão em venda de cosméticos e cirurgias plásticas. As mulheres aqui se deixam levar por toda essa lenga lenga, enquanto são ignorantes em matéria de muita coisa, principalmente consciência crítica e política. Ser bonitona, retocada, maquiada, na moda, etc. é praticamente dever moral. Hoje tem sutiã com enchimento pra meninas de 6 anos! Na boa, eu não tenho nada dessa “vaidade feminina”, até porque essa naturalização é estrategicamente reproduzida no discurso social o tempo inteiro, não me importo com essas coisas e por isso mesmo, vejo que há muita discriminação e naturalização da vaidade feminina, uma padronização emburrecedora e opressora da mulher, e ela, alienada corre atrás disso, valoriza excessivamente, ela tem uma boa dose de culpa aí também de não tentar subverter essa estrutura. Se encher de silicone pode, fazer dietas absurdas, gastar grana preta com tratamentos estéticos, encher a paciência dos outros com papinhos de aparência sem fim, agora ser de boa e não usar cosmético é sinal de que “vc não se cuida, não se gosta, não é feminina”. Opa, me gosto tanto que me dou o prazer de não sofrer com isso, sair de casa de short, camiseta e tenis e me sentir bem, “perder” minhas horas estudando, lendo, discutindo, trabalhando, relaxando, me envolvendo com coisas e pessoas que me acrescentam. Não me sentir um lixo nem culpada porque não caibo (e muito menos quero caber) nesses padrões ridículos, nem acreditar que alguém deva gostar de mim mais pela minha aparência do que pela minha pessoa, e nem deixar que minha auto-estima dependa disso. Eu acho que essas revistas só levam ao extremo algo que está ai em todo lugar, é só ver a fala banal do senso comum. Ah, e mesmo que muitos homens saibam dessa idealização exagerada da mulher, eles também tem sua boa dose de culpa (afinal, porque não boicotam essas revistas? pq dão preferência a uma mulher gata, a uma mulher atitude? pq elogiam mais nossa aparência do que nossas realizações e ideias?…)

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