Complexo de Macabéa

É fato. Posto coisas sérias no facebook, as pessoas nem ligam.
Posto piadas, as pessoas dão atenção.
O bom é que o facebook virou minha arena de testes do comportamento humano.
E eu, que amo os Franquensteins culturais, me divirto com a geração troll+forever alone.
Claro que, admitamos, a “pregação” é a diversão de uma rede social pra quem não está lá só pra “pegação”. Pregação de ideais, distorcidos ou não. E de iconoclastia, à revelia de contra quem.
Sou dos iconoclastas às vezes, outras tantas sou dos idólatras.
É fato. Há uma aura de idolatria por trás de todo cânone, que nada mais é que um reflexo cult da cultura de massas, como advertida por Horkheimer e Adorno. A inversão do cânone, seja por opiniões sinceras e abalizadas, seja por iconoclastia, causa reações violentas de ambas as partes afetadas.
De um lado, os inseridos na industria cultural que fomenta o cânone se vêem como os estetas na torre de cristal, não enxergando além de seus muros. A única diferença destes para os cidadãos viciados na industria massificadora de televisões e rádio é que os últimos não agem como esnobes donos da verdade.
Do outro lado, os que se rebelam, em geral, não são melhores que os “intelectuais conformistas”. Eles são rebeldes por vezes sem causa, que defendem e atacam produtos tão diversos que não dá pra saber o que eles realmente querem ou pensam.
Estou do lado dos rebeldes sempre, é a minha natureza.
Mas, em geral, as pessoas que se rebelam e as que aceitam não são tão diferentes.
O mais importante, pra mim, é que haja rebeldia.
Se o cânone fosse assim tão bom, não seria o nome do processo da Igreja pra criar santos.
Da mesma forma, cânones literários, musicais, artísticos são tão cheios de interesses políticos quanto a canonização religiosa. E são defendidos com o mesmo afinco.
Desconstruir um cânone não é difícil, mas não é algo capaz de ser feito APENAS por meio de uma rede social.
Agora, que as redes sociais já são parte mais importante das vidas das pessoas que a leitura cotidiana, ah, isso o são.
Reaprendemos a nos mobilizar. Descobrimos com nossos amigos do oriente (há milênios ensinando o ocidente como agir) que há uma força muito grande na conectividade à distância.
Por vezes não sabemos que existem pessoas tão inconformadas quanto nós com o status quo vigente.
Seja ele um aplicativo do próprio facebook ou um ditador.
No nosso mundo, achamo-nos perfeitamente encaixados e fingimos ser parte de grupos maiores que, tendenciosamente, nos impõe um modo de ser caro ao “perfil” rotulado a nós.
Sou estudante de Letras, com mestrado e doutorando em Estudos Literários.
Não gosto de Clarice Lispector, não me interessa Caio Fernando Abreu, me irrita José de Alencar.
Sou mais a leitura de um bom quadrinho. Ou gastar eu tempo com algo mais útil, como a minha pesquisa.
Sim, eu pesquiso literatura. Aliás, meu autor passou séculos sem ser cânone porque era um épico à sombra dos grandes Homero em Virgílio.
Desconsideravam sua literariedade, sua importância, sua influência.
Se alguém pegar para ler, não é obrigado a gostar, no entanto. Mesmo que eu o faça cânone.
Não é porque você acha que todo mundo dá valor a um autor que ele é o mais importante da face da terra. Pra alguns ele pode ser uma merda. Como a sua religião, o seu time e a sua ideologia.
Aliás, amo Homero e Virgílio.
Nada mais útil para um pensador que a rebeldia.
Nada mais útil para um ídolo que a iconoclastia.
Por isso, no meu complexo de Macabéa, já a li, reli e amei.
Mas cresci.
E a vejo hoje com um distanciamento maior que o que vejo outras coisas.
Mas ainda sou “adolescente” o suficiente pra gostar de heavy metal.
Uma amiga minha tem tatuada a frase “tenho o direito de me contradizer” no braço.
Porque não? Melhor que ser inerte.
Temos que nos livrar das amarras que nos obrigam a ver o mundo através de aforismos.
Aforismos nos são úteis, mas ainda são aforismos.
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