Hoje a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier!

Hoje já é dia 6 de janeiro, e eu ainda nada escrevi pra marcar a passagem de ano.

Bem, eu estava viajando, como todo brasileiro que se preze. Mas, o que é verdade, é que eu não tinha ainda formado algo bom o suficiente para dizer sobre o reveillon. Apesar de eu ser alguém cético e meio desencantado, eu sempre prezei muito essa data. Diferente do Natal, que pra mim era sempre sinônimo de reflexão e não de papai noel, ceia e o escambau, o reveillon é sinônimo de festa. Minha família todos os anos se reúne na casa de um parente e organiza um churrascão. É o momento de todos se reunirem, quando eu revejo os meus parentes que não posso ver o ano todo. Diferente do que eu disse no post “Abaixo a Família”, a minha família não tem nada de artificial. E eu realmente aproveito essas reuniões.

Mas, é claro, que reveillon para mim é muito mais que festa. Mas vamos começar como todo bom aluno de letras clássicas deve começar: etimologicamente.

A palavra “reveillon” vem da palavra réveil que significa, em francês, acordado, ou estar acordado. É claro que isso está relacionado com o fato de que todos ficam acordados até a meia-noite para esperar a virada, e além disso tb. Mas eu gosto de encarar as coisas num plano mais amplo.

A tradição de se manter acordado para fazer a contagem regressiva denota um investimento de esperança no que o novo ano trará. Espera-se sempre que o novo ano seja melhor que o anterior, e esse é o motivo de todos os votos e promessas feitas, sejam de caratér religioso, supersticioso ou simplesmente pessoal.

Mas, o olhar para frente deve sempre, na minha opinião, levar em conta um olhar para trás. Ao ficar acordado desde um ano a outro, deveríamos nós pensar não apenas em o que queremos para nós e para o mundo, mas o que fazemos para merecer esses desejos. E, muito além do chavão que implica esse pensamento, deveríamos nos lembrar do que constrói-se numa passagem de ano. O fechamento de um ciclo é um momento de rara importância para a maioria das pessoas, mas muitas vezes não lembraremos mais no futuro de qualquer coisa que parece ser de grande importância para nós agora.

O que foi 2009? Aliás, o que foi a década que se encerra?

Para a maioria das pessoas, que nutrem uma memória afetiva, emocional e racional imediatista e automática, será muito fácil dizer o que aconteceu de marcante em 2009. Mas você se lembra do que houve em 2008? 2007?

Na verdade, creio que daqui a cem, duzentos anos essa década será lembrada por apenas dois anos: 2001 e 2009. 2001 porque o paradigma das relações internacionais mudou drasticamente com a queda das torres gêmeas e o ataque ao Pentágono. Esse evento, além de uma tragédia e um crime, será lembrado como o momento em que o mundo percebeu pela primeira vez que entrava em uma nova era, que se iniciava nesse século XXI. É como a primeira guerra para o século XX: as características do mundo do novo século estão todas incluídas nesse evento. Temos uma amostra clara dos problemas relacionados à intolerância religiosa e ao anacronismo cultural que se impõe pela máquina do capitalismo – ao construir vales de diferenças entre países baseados na má distribuição de renda -, temos a concretização direta da globalização – pois só é possóvel conceber que terroristas do outro lado do mundo mandem sequestradores em aviões para dentro de centros urbanos norte-americanos em um mundo globalizado -, temos a questão das relações diplomáticas baseadas no capital que provém dos recursos energéticos – esse século com certeza será marcado pela questão dos recursos energéticos – e, por fim, temos o primeiro real vislumbre do poderio militar americano sendo ameaçado – a potência que perde o seu lugar, como outras que perderam e fecharam eras com seu desaparecimento.

2009 será lembrado por outro momento, mobilizador de massas, que o desprende também da sombra do século passado. A morte do seu maior ídolo vivo, Michael Jackson. Pode parecer pouco, mas pense que dos grandes nomes que moveram a cultura do século passado poucos vivem. Elvis morreu, dois dos Beatles também. Apenas ele, a sombra do gênio que foi, insistia em viver seu anacrônico conto de fadas, conto esse fruto direto do mundo que se construiu na modernidade. O século XX nos deu um mundo que preza a imagem, e alguns não sabem lidar com isso. Não há mais o conteúdo, não importa mais que o que se apresenta seja uma casca vazia, desde que essa seja bela. Michael foi a epítome dessa modernidade, em que a arte genuína é rara e o que sobra é o dispensável e consumível produto do capitalismo. A música que toca hoje, amanhã se esquece. E eu não tô falando sobre a mídia mainstream apenas, mas também sobre o suposto mundo indie, que lança um novo salvador do rock por dia, ou o mundo da música popular de acadêmico, que elege um novo grande astro a cada esquina da Vila Madalena. Não há mais lugar no nosso mundo para a arte, o que nos legou a modernidade foi uma apropriação da arte como produto transitório e fugaz. O mundo pós-moderno, por assim dizer, é o mundo que destrói para não por nada no lugar, que preza o conteúdo de valores vazios e abstratos – o dinheiro, a fama, a moda – e despreza aquilo que se liga ao passado, destruindo-o ao nivelá-lo ao status de outros produtos de consumo. E o Michael, na sua ingênua isensatez, encerrou e abriu essas duas eras. Sua vida e morte será lembrada como são as de Mozart, Beethoven e Wagner, sim, mas ao mesmo tempo pode ser marcante como o 11 de setembro, para definir a era que se incia como fruto e para além da pós-modernidade.

No ano que se encerra, na década que termina, vimos a transição mais clara possível do século XX para o XXI. Olhando para trás podemos olhar para frente com mais esperança? Não sei, mas com certeza toda reflexão é válida num mundo onde não faz parte da prática cotidiana dos cidadãos a reflexão racional sobre os fatos pelos quais passamos. Talvez assim possamos verdadeiramente nos ver “acordados” nessa virada de década.



Simplificando muito, poderíamos argumentar que os discursos pós-modernistas apelam principalmente para os vencedores dos processos de globalização e os discursos fundamentalistas para os perdedores.

Michael Hardt e Antonio Negri, Empire (2000), p. 150

Tente explicar Hitler a uma criança.

George Carlin (1937-2008), comediante

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