Eu ouço Rock Progressivo

PRÉ-FACIO

Eu acho que quem gosta de música de verdade, quem é mesmo fã, só pode ser eclético. Não existe essa de ser fã de uma banda só ou de só um estilo de música. Lembro-me de um amigo meu que curtia metal extremo – podia ser o cara mais musicalmente fechado do mundo (como a maioria dos fãs de metal são, infelizmente) mas ele adorava Pato Fu. Sim, PATO FU!
E qual é o problema? Eu gosto de música, e gosto não se discute (como diz o véio deitado, se lamenta). Eu ouço de Metallica a Jackson do Pandeiro na maior, adoro Tião CArreiro e bato cabeça ao som de Blind Guardian.
Mas, por muito tempo, meu som favorito e que moldou meu caráter na música foi o Rock Progressivo.
Essa vertente do rock tradicional meio que surgiu naturalmente, quando as pessoas na década de sessenta perceberam que dava pra fazer um rock mais sofisticado que o que era produzido até então.
E na minha opinião, música boa e bem feita nunca é demais. Por isso, hail ao rock progressivo!

Um pouquinho de história

O fim da década de 60 deve ter sido uma época mágica pra muita gente. Menos em países como o brasil, que amargavam a terrível ditadura militar. Porém, na Inglaterra e nos EUA, a galera tava numa boa, numa nice…
heheh
Sim, eu estou falando de drogas. A psicodelia é a origem do rock progressivo, e ela só foi possível devido ao fato de Bob Dillan ter ensinado os Beatles a fumar maconha. A partir daí (e de discos como Revolver) o rock progressivo foi sendo semeado. E também, apartir de experimentações que já rolavam soltas no jazz (Miles Davis, Coltrane) e por coisas como Woodstock, que mudaram os padrões da música e cultura em vigência.
Daí nós podemos começar a elencar nomes como o gênio Frank Zappa, Beach Boys e seu Pet Sounds, Cream (com um dos guitarristas mais fodas do rock dessa época na sua linha de frente, a saber: Eric Clapton), sem esquecer da galera da alemanha, Kraftwerk e Tangerine Dream com seus sintetizadores e os álbuns conceituais de bandas como The Who e Led Zeppelin, a loucura de Residents e por aí vai. Aqui no Brasil, quem mandava a ver na psicodelia eram os Secos & Molhados de Ney Matogrosso e Os Mutantes – ambas bandas reconhecidas e influentes internacionalmente.

Os anos 70

Genesis, Yes, Pink Floyd, Jethro Tull, Emerson Lake and Palmer… acho que todo mundo cerca o mundo do Rock Progressivo nesses caras e por causa disso tudo que encaramos como Progressivo tem a ver com eles. Mesmo tão difrentes entre si, todos os elementos estão lá: composições enormes, utilização de instrumentos não convencionais, inspirações da música clássica, solos e um grande trabalho instrumental, criatividade e nenhum medo de arriscar.
Mas poucos conhecem os outros membros fundadores desse clube, às vezes até mais influentes que esses aí:

In The Court of the Crimson King, um disco seminal do rock, por poucos conhecido mas maravilhoso em toda sua concepção, é umas das pedras fundamentais do estilo. Nesse disco (na minha opinião), o King Crimson traz tudo que o rock progressivo vai apresentar nas suas diversas encarnações. Aliás, se vcs ouvirem atentamente 21st century schizoid man vcs vão encontrar influências claras do Crimson no heavy metal de hoje em dia, bem como no jazz fusion e até no que bandas como Radiohead e Sigur Rós fazem.E esse disco é de 69…
Essa sofisticação (que também seria a origem das críticas e do futuro declínio do estilo) aparecerá em todos os outros ingleses do Rock Progressivo. Pink Floyd seguiu esse caminho após a saída de Syd Barrett.
Mas quem disse que o rock progressivo viveu só na Inglaterra?

Os Italianos e o mundo

Ouça isto:

Faz mais ou menos um ano e meio que fui exposto à essa loucura chamada Rock Progressivo Italiano. Achava que a banda acima, o Banco del Mutuo Soccorso era um caso isolado, quando descubro uma prolífica cena musical, esquecida pela própria história do rock, mas de uma seminal influência para bandas inclusive do cenário já estabelecido. Ouvindo esses caras da Itália, ELP, Genesis e King Crimson são clara inspiração, mas a particularidade de cantarem em seu idioma natal e de fazerem uma música de qualidade igual (e por vezes superior) aos cantantes anglofonos chama atenção. E se vc procurar na net, vai achar maravilhas como Le Orme, Premiata Forneria Marconi, Metamorfosi, Reale Accademia di Musica, Area, Museo Rosenbach. Todas bandas de excelente qualidade, com um grau de sofisticação impressionante. Influentes inclusive para as bandas “grandes”.
Além disso, surgiu a famigerada Cena de Canterbury, que tinha muito mais de jazz fusion que de rock, as bandas que seguiram-se com elementos cada vez mais psicodélicos, flertando com outras artes, como o The Residents e seu quase dadaísmo.
E o Brasil? Bem, nós temos bandas de rock progressivo sim, como as excelentes Casa das Máquinas, O Terço, A Barca do Sol, Sagrado Coração da Terra (responsável pela lindíssima trilha sonora de Pantanal e que, infelizmente, eu e a maioria dos brasileiros só conhece por isso, quando alguém se lembra que essa música é deles – nem eu lembrava mais). Além, é claro, de Milton Nascimento, que sempre mesclou algo de Progressivo (e de Jazz) em seus álbuns.
Também, ao atingir o grande público, surgiram as bandas mais comerciais com influências claras do Progressivo, como o Queen e o Electric Light Orchestra, além do Renaissance, Rush, Supertramp e a fase do Genesis pós-Peter Gabriel. Isso porque eu nem falei do maravilhoso Van der Graaf Generator, Gentle Giant, Focus.
Mas, porque uma quantidade tão grande de músicos de qualidade e de bandas de sucesso sumiram assim, na virada pros anos 80?

Tales from Topographic Oceans e o declínio

O punk surge no fim da era progressiva e, para muitos, em consequência dela. Segundo crítica e segundo os membros do novo movimento musical, o rock progressivo chegou num patamar de exagero e pretenciosidade tão grandes que só seria possível a um músico com longa formação conquistar espaço nesse meio. Ramones, Clash, Sex Pistols eram a moeda do momento, fazendo-se necessária uma volta às origens do rock, com mais simplicidade e menos pompa. O disco do Yes Tales from Topographic Oceans é tido como a epítome (eu adoro essa palavra) do que o rock progressivo havia se tornado: pura técnica e exagero, em detrimento de alma. O disco continha quatro músicas de mais ou menos 20 minutos cada, sendo criticado por muitos (e por Rick Wakeman até hoje, sendo o motivo de sua saída da banda).
Mas, apesar do crescimento do punk, do surgimento da new wave, do movimento heavy metal e afins, o progressivo continuou a comer pelas beiradas, com bandas como Marillion e Asia surgindo nos anos 80. Além disso, Yes retornou com o sucesso de 90125, e o Genesis fez mais sucesso ainda do que já fazia com seu soft rock.
Mas, ainda existiam aqueles que queriam o true prog… metal!?

Filhotes, muitos filhotes

O Dream Theater é o símbolo do ressurgimento de um novo espaço para o progressivo: o metal. Esse gênero que para mim é o mais elástico da música incorporou características do progressivo, criando o subgênero do metal progressivo – odiado por muitos, mas amado por outros mais – principalmente no Japão.
Daí pra frente, todos os gêneros possíveis e imagináveis do metal se fundiram ao progressivo, gerando bandas muito criativas e cheias de novas possibilidades, como Opeth, Pain of Salvation, Ayreon, Riverside, Tool e por aí vai. E ainda, há aquelas bandas que necessariamente não fazem prog metal, ams que incorporam diversos elementos do estilo, seja pela megalomania, pelas quebras de ritmo ou pela sofisticação, como é o caso do estupendo Symphony X (uma das minhas favoritas), Kamelot, Angra, e até bandas antigas como o Iron Maiden podem ser consideradas influenciadas de alguma forma pelo prog.
Isso sem falar das bandas não metálicas, que surgiram desde muito tempo unindo criatividade e técnica a composições longas e trabalhosas, álbuns conceituais e temas diversos. Podemos falar de bandas de sucesso como Mercury Rev, Flaming Lips, Sigur Rós, Mars Volta ou de alguns menos famosos, como Dear Hunter, Explosions in the Sky, Godspeed You! Black Emperor (e toda a cena Post Rock). Tem também os herdeiros diretos do progressivo, como o Porcupine Tree, The Flower Kings e o Spock’s Beard.

Enfim… eu podi passar horas falando de progressivo, sem me cansar, mas é melhor que quem ler esse texto saia da mesmice que radio/TV proliferam e vá atrás de boa música. Tem diversas sugestões aí em cima, mas aqui nesse vídeo tem outras mais:

Abraços!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s